Manuel Igreja

Manuel Igreja

Uma Sociedade que se Esboroa

Não estão fáceis estes nossos tempos. De facilitismo em facilitismo, vamos alegremente caminhando para algo desconhecido e nada garantidamente melhor, apesar de existirem todas as condições para as coisas serem melhores a nunca, neste mundo em que vamos devindo sem que estejamos a evoluir.

No que é mais fundamental e essencial, na mente, estamos praticamente no domínio das reações primárias e imediatas perante os perigos identificados e tidos como capazes de causar dano. Nem que seja uma leve brisa que impeça o necessário e urgente acender de um fósforo que queime a ponta do cigarro, desejado e premente para a satisfação do vício.

Bem sei que não são de agora este modo de dizer e esta forma de sentir. Desde sempre, quando se adivinhava e adivinha uma alteração de capacidades e de paradigma, germinaram e germinam de imediato as raízes que brotam em arbustos com folhas que esvoaçam ao sabor dos ventos das desgraças proclamadas nos dias ainda por nascer.

Imagine-se o que não terão sentido os antepassados quando se depararam com uma luz que brilha na ponta de um fio porque alguém carregou num botão; quando, com o rodar de um botão numa caixa, se ouviram vozes e se viram imagens; quando avistaram uma locomotiva a fumegar e a mover-se sem cavalos, e um automóvel a andar, como que por milagre, à estonteante velocidade de 30 quilómetros por hora.

Benzeram-se com a mão esquerda os bisavós para espantar o mafarrico provocador; venderam o fim do mundo os charlatães e os fariseus para acumularem ganhos próprios com o medo dos outros, e com a urgência do merecimento de um lugar no céu a troco de dádivas suficientemente amplas, saciantes e sedutoras de gananciosos sem fim.

No entanto, toda a mudança foi para melhor. Passadas as tormentas das primeiras impressões, assentadas que foram as poeiras casuais e sujas, logo se limpou tudo, logo desapareceu o medo, e logo de novo o sol brilhou num horizonte que se ia alargando à medida que as mentes se iam abrindo e enriquecendo. Pensou-se, então, que os seres humanos se iam tornando melhores e mais recomendáveis, enquanto ganhavam poderes de pequenos deuses com ímpetos de domínio geral e particular.

Fomos subindo degrau a degrau. Antes, lenta e comedidamente, mas agora, num ápice. Não nasce um dia sem que surja algo novo e espantoso, num encadear de saber científico que parece nunca deixar de se acrescentar. Um esplendor da descoberta surge a cada nuvem que passa, como se cada uma estivesse carregada com brinquedos de espantar.

Andamos, mas não da mesma maneira nem em todo o lado. No chamado Ocidente — a nossa parte —, mais rápido e melhor, alcançando instrumentos enriquecedores e possibilitadores de mais qualidade no viver. Distribuímos melhor e melhorámos até onde nunca se tinha melhorado. Atingimos a chamada sociedade do bem-estar, na qual a maior parte das pessoas tinha acesso a algo muito superior.

Mas o mundo é feito de mudança. Irresponsável e inadvertidamente, tentámos aproveitar-nos da fragilidade dos outros, dos do Oriente, para produzirmos mais e muito mais barato, por causa da sua mão de obra quase escrava. Esquecemo-nos de que "para fino, fino e meio". Nada tardou para que o conhecimento deixasse de ser exclusivo. Ladinos, pela calada, pelo lusco-fusco, aqueles que queríamos usar aprenderam e passaram-nos à frente.

Produzem mais e muito mais barato, nestes anos em que o deus lucro campeia. Com as novas tecnologias que inventam e dominam, fazem-nos ir na sua arreata, levando a que as nossas condições de vida baixem e se aproximem, tendencialmente, da força de trabalho que se vende a troco de dez réis de mel coado.

Cresce, pois, pelo lado de cá, a indignação entrelaçada com surtos de medo, de ódio e de insegurança. Habituaram-nos e prometeram-nos o paraíso quase eterno, usufruímos dele em boa parte, mas tendemos — e com razão — a ver brechas no chão e silvados que picam as almas.

A civilização ocidental, que quase trouxe o céu à terra, mais parece um luxuoso tecido rasgado, abanado pelos chacais que influenciam e cativam os ânimos, vociferando e prometendo remendos para o pano que nos destapa. Pano esse que foi rompido em momentos de insanidade e de escuridão, porque os líderes não souberam agir e as multidões deixaram andar.

Lentamente, a nossa sociedade esboroa-se. Haja quem lhe acuda. A democracia liberal, a mais evolutiva doutrina, merece. 





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