“O quartel” de A. M. Pires Cabral, romance que nasceu como teatro, é a história de um soldado que faz a prova de sentinela, uma “brincadeira” com o espírito militarista, tão inverosímil que “contada não se acredita”.

“O quartel ou as bochechas do general”, título completo do mais recente romance do escritor A. M. Pires Cabral, de 81 anos, editado pela Tinta-da-China, baseia-se no que o autor chama de imaginação inverosímil, a “que subverte o real”, contou, em entrevista, por escrito, à Lusa.

Desde logo o campo de ação da história: um quartel-general, cenário que o escritor trata de esclarecer que lhe é “totalmente desconhecido”.

Numa noite, o soldado Benjamim Boavida tem de fazer a prova de sentinela que decidirá o seu futuro no quartel, apesar de ser dado às coisas simples da vida no campo e preferir as “noites tranquilas”, como as noites de verão da sua aldeia, “em que às vezes até se ouve cantar o rouxinol”.

O agressivo sargento Cipriano Arrobas, que vigia a sua prova, escarnece do jovem, afirmando que prefere ouvir uma “metralhadora a cantar”.

Com a bota a apertar-lhe o pé esquerdo, num posto de vigia de onde não se vigia quase nada porque o muro é demasiado largo, com uma revolução a agitar-se lá fora, durante uma ditadura, e obrigado a cumprir um regulamento “absurdo”, Benjamim Boavida vai passar uma noite “longa e cheia de peripécias”.

“Contado não se acredita” é a primeira frase do livro e tem um significado concreto, disse o escritor à Lusa: “não deixar dúvidas a ninguém de que se trata de uma história inverosímil, inventada de cabo a rabo”.

Esta frase poderia aplicar-se igualmente à génese deste livro, que começou por ser uma peça de teatro em um ato, com o título “A sentinela e o muro”, que se limitava ao diálogo entre o sargento e o soldado durante a prova de sentinela, e que foi representada em Vila Real pelo Teatro de Ensaio Transmontano.

“Insatisfeito com esse formato, decidi transformar a peça num conto, que nunca foi publicado. De novo insatisfeito, e porque me pareceu que a história podia ser expandida, fui-a ampliando até que começou a tomar proporções de romance. E acabou por ser mesmo um romance”, contou, admitindo a possibilidade de, “enriquecida como foi a história inicial com tantos elementos novos”, voltar a ser uma peça de teatro, em dois ou três atos.

Quanto a paralelismos com a história de Portugal, à parte a semelhança entre regimes ditatoriais (antes do 25 de Abril), A. M. Pires Cabral diz não existirem “praticamente nenhuns”, aliás, sublinha que a história é uma “ficção total”, a começar pelo quartel militar que, ao longo da história, dá sinais de nada ter que ver com um quartel real, e a acabar em tudo o que lá se passa, já que o autor nunca teve contactos de nenhuma natureza com a tropa, exceto a inspeção.

O início do livro é dedicado, precisamente, a explanar a preferência do autor pelo que chama de “imaginação inverosímil” (ou “imaginação alfa”), em detrimento da “imaginação verosímil” (ou “imaginação beta”).

“A observação levou-me a distinguir dois tipos de imaginação, que diferem em termos qualitativos, mais do que em termos quantitativos. Postulo a existência duma imaginação verosímil que se apoia no real e duma imaginação inverosímil que subverte o real. Da primeira dizemos: se não aconteceu, podia ter acontecido. Da segunda dizemos: não aconteceu porque não podia acontecer, mas vamos fazer acontecer”, explicou A. M. Pires Cabral.

Apesar da comicidade e do absurdo dos acontecimentos naquele quartel, o escritor recusa liminarmente que esteja a parodiar com a instituição militar, que lhe “merece todo o respeito como elemento estruturante da sociedade”, preferindo chamar-lhe uma “fantasia” que visa o “espírito militarista”.

“Paródia implica troça acintosa de uma determinada realidade. Fantasia é palavra mais suave, e significa brincadeira, não escárnio”, além de remeter para um produto da imaginação, arredado da realidade, salientou.

“Só há uma personagem que pode apresentar pontos de contacto com certa realidade. É o sargento Cipriano Arrobas. Mas ele não encarna o espírito militar; encarna o espírito militarista, que, repito, não é a mesma coisa nem tão respeitável”, acrescentou.

Em contrapartida, o escritor revê-se um pouco no soldado Benjamim Boavida, “uma pessoa que sonha com um mundo em que não seja possível um sargento Cipriano”, mas só nessa medida, não na ligação à terra – tema muito presente na obra de A. M. Pires Cabral -, já que a personagem aspira a “um lugar de amanuense numa qualquer repartição da sua sede de concelho” e não a uma vida de lavrador.

O confronto entre os universos opostos destas duas personagens foi intencional e quis representar a existência de “um confronto entre o espírito militarista e o espírito civil”, ou “pacifista”, assinalou.

“O soldado Benjamim é uma personagem simpática, para que o leitor perceba de que lado estão as simpatias do autor. Pelo contrário, o sargento Arrobas é uma personagem negativa em extremo, pela mesmíssima razão”, acrescentou.

A. M. Pires Cabral afirma que “O quartel” não se inspira de “forma consistente” em nenhuma obra, mas admite que possa haver “uns longes do ‘Valente Soldado Chweik’, de Jaroslav Hasek” ou do “Miles Gloriosus”, de Plauto.

Em quase 50 anos de carreira literária, que se reparte por poesia, romance, conto, teatro e crónicas, A. M. Pires Cabral está próximo dos 70 livros publicados e continua a escrever “compulsivamente”, oscilando entre os estilos literários “conforme o quadrante donde o vento sopra”.

Tem vários projetos literários em mãos, desde dois livros de poesia prontos a serem publicados, até uma monografia de Macedo de Cavaleiros (terra natal do autor), passando por uma peça de teatro (uma encomenda) sobre elementos da tradição popular trasmontana, entre outros.

Por isso, ainda que se quisesse “reformar” da escrita, não teria tempo de vida para isso, mas assegura que “enquanto tiver força nos dedos para o teclado do computador”, não deixará de escrever.

*** Ana Leiria, da agência Lusa ***




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