Manuel Igreja

Manuel Igreja

Um Irmão

                        

Há quem ache que é ao calhas, mas eu, que agnóstico me confesso e que só sei que nada sei, sentindo que na medida em que aumenta o meu saber se aumenta a minha ignorância, começo a crer que não. A complexidade suprema que á a vida e tudo o resto à sua volta, é demasiado evidente e profunda para que seja fruto de factos aleatórios.

Por exemplo: Sermos pais, filhos, irmãos e primos e sermos o que e quem somos, não pode advir somente das encruzilhadas do viver e de mais aqueles que nelas se encontram, se olham, se tocam e se amam, para depois, da atividade de microrganismos, evoluirmos até darmos em nós num processo evolutivo que nos leva a sermos o resultado daquilo que vamos sendo.

Poderá ser tudo causado por processos infindos e maravilhosos com origem no pó das estrelas e dos invisíveis organismos celulares que vieram do mar segundo os cientistas, ou pelos insondáveis desígnios do Criador, mas, sem dúvida que estamos perante algo de um importância infinita, num jogo de xadrez em que vossas senhorias e eu somos meros peões.

Por isso, devemos ser unidos por laços que se não podem nem devem cortar, por sentimentos e emoções que devemos espalhar e fortalecer, e que são de essência maravilhosa e inquebrável, quando ligam amigos e familiares inteiros e plenos.

Bem, isto de escrever, tem que se lhe dia. Digo eu aqui neste ponto. Vejam lá as voltas que dei no alinhamento das letras nas frases, para lhes falar, como é o meu intuito, do meu irmão Zé Luís, o mais novo de seis irmãos em que eu tomei a dianteira no nascer, num modo de dizer, claro, pois na vez disso, ser algum tem direito de opção.

Partiu ainda não fez um ano, para a terra do arco-íris levado nas asas dum anjo que se digladiou com a mulher da foice, por achar que a desdita que lhe calhou na vida e a sua maneira de ser, obrigavam a que fosse sublime e digno o seu meio de transporte para a viagem rumo ao fim dos tempos num local por cima das nuvens.

Num daqueles dias que jamais haviam de nascer, quando tinha dezoito anos e a vida lhe sorria apresentando-se sem distâncias e com caminhos que pareciam não ter fim, como é comum suceder naquela idade, teve um terrível acidente de automóvel que lhe não ceifou a capacidade de respirar, mas lhe deixou marcas físicas e psicológicas para toda a vida.

Esteve um mês em coma, mexeu um dedo para suprema alegria de todos aqueles que lhe queriam bem, acordou, mas o seu cérebro ficou como um relógio de cuco desacertado para toda a vida, com intervalos enganosos em que parecia estar certo mais do que uma hora em cada dia.

Era de uma generosidade sem limite, um sonhador que nunca perdeu a capacidade de sonhar umas vezes com lucidez, outras nem por isso, porque só aconteciam na sua cabeça, mas nunca conseguiu seguir a direito nas ruas da vida que sem ele querer, se entortou.

Criado e acompanhado num ambiente que nunca se lhe negou e onde carinho nunca faltou, teve sempre a capacidade de nos amar apesar muitas vezes os seus transtornos o levaram a desenvolver comportamentos contrários e contraditórios, como se não fosse também dele, o nosso mundo.

Em seu redor, espalhava simpatia, pelo seu modo de interagir com os semelhantes de quem de um modo geral, recebeu todo o respeito, sabendo usar a sua superior inteligência frequentemente incompreendida e destemida quando os seus anseios o levavam a tentar conquistar este planeta e mais os que houvesse.

Não se conseguiu integrar no universo em seu redor, tantas vezes ele próprio falsamente integrado, em quotidianos mais hipócritas do que sérios. Por isso, sofreu. Ficou mentalmente cristalizado na época em que foi menino de sua mãe e era um rapaz bonito e promissor pronto para um mundo a descobrir e a conquistar.

Tinha sensibilidade de artista, sabia ouvir aquilo que não é dito, sabia ler e ver o que anda no ar, era atento, apesar da sua aparente desatenção, tinha um olhar clinico que o não enganava. Guardava para si os afetos que queria dar, para os ofertar a quem sentia que lhos mereciam.

Apaixonou-se como D. Quixote, por donzelas com amores ilusoriamente recíprocos. Se calhar por isso, viveu no amor absoluto, porque nos que ele teve, nunca viveu a desilusão. Sem o saber, ele foi dono e senhor deles, pois não há quem coloque entraves à imaginação quando ela nos germina para que dela usufruamos.

Se bem sei dele, na hora em que isto se escreve e depois em cada um em que se lê, está o Zé Luís lá em cima à boleia, esperando que alguém o leve numa nuvem para dar uma volta por aí, antes de regressar a casa, que era o seu porto seguro, na sua vida sem muitos concretos, mas decorrida num canteiro cheio de lindas rosas de pétalas coloridas e com espinhos.



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