Manuel Igreja

Manuel Igreja

O Douro e o seu Nó Górdio

A mitologia grega, esplendorosamente criativa, fala-nos de um rei que, para não esquecer o seu passo humilde, amarrou a carroça que antes utilizava a uma coluna do templo de Zeus — o deus dos deuses —, fazendo um enorme nó numa corda que foi considerado impossível de desfazer. Seria eterno como lembrança orientadora e como vínculo.

Correu então a crença de que quem conseguisse desfazer o nó dominaria o mundo, algo a que, como sabemos, nunca faltaram pretendentes. Desatar a corda tornou-se empresa de tão difícil concretização que se passaram quinhentos anos até que Alexandre, o Grande, depois de muito pensar, pura e simplesmente se limitou a desembainhar a sua espada para, com um mero golpe, resolver a questão, cortando o grosso baraço em dois.

Nada tardou para que se tornasse senhor de todo o mundo então conhecido, ficando, no escorrer das bordas do tempo, este exemplo tornado símbolo de tudo o que se apresenta como impossível ou de muito difícil solução, a não ser que, a dado momento, surja a iniciativa certa no momento certo.

No Douro, terra de vinho, de rio e de gente, o que existe em vinhas falta-nos em mitologia, apesar de, ainda assim, podermos colocar no rol dos deuses do Olimpo o deus Baco, também chamado Dionísio, considerado por gregos e romanos como tendo influência e autoridade sobre os néctares que aqui produzimos — e bem —, ao ponto de, em qualidade, podermos pedir meças a quem quer que seja.

No entanto, estou em crer que, há 270 anos, alguém atou um carro de bois carregado de pipas de vinho a um templo que por aí existiria, copiando o gesto grego, fazendo numa corda — ou até numa correia — um nó semelhante ao que foi cortado por Alexandre. Quais os motivos, não sei; mas, para que nunca se esquecesse da sua condição humilde, garantidamente não foi, pois por cá há pouca gente dessa raça.

Dessa e de outra: a dos que têm lucidez para saber com quantos paus se faz uma canoa, e para perceber que Deus ajuda quem faz tudo por si e pelos seus iguais, sem estar permanentemente à espera que chova, que corra mel no rio, sempre a contar que alguém, de perto ou de longe, faça algo para que aquilo que aflige se transforme facilmente em deleite, e as pipas anualmente se encontrem vazias e disponíveis para de novo serem cheias.

Neste ano da graça de 2026, nem o mundo seria mundo se, uma vez mais, a palavra “crise”, dita e sentida, não marcasse presença e não deixasse ferrete nos ânimos e nos corações. Nesta primavera em que o clima parece andar desacertado, olha uma pessoa para as videiras e nem sabe se deve contentar-se com a novidade que anuncia pujança, ou se deve, no íntimo, sentir um inconfessável desejo de que as uvas mirrem, para que o seu sumo fermentado não venha aumentar o mar de vinho que tantas desinquietantes ondas faz nesta terra soberba de magnificência e de encanto.

Não sei, mas pode até ter sido o deus Baco a fazer a maroteira, quando soube que se demarcou e regulamentou a região, para garantia da qualidade e da exclusividade do vinho fino, que agora, a par do vinho tranquilo — ou de mesa —, exige muito, mas dá muito pouco em termos de resultados financeiros, uma vez que ambos mal dão para os gastos.

Urge que surja alguém que desate o nó górdio que nos empecilha e que crescentemente nos sufoca. Pode apertar mais de um lado do que do outro, mas sufoca — e pode matar. Durante décadas, por serem fáceis os proventos, comércio e lavoura dormiram na forma, como se diz na tropa.

O vender corria de feição e tranquilamente, porque não havia negociantes doutras bandas; o granjear ia indo como Deus queria e com a Sua graça, porque os preços eram estabelecidos e as jornas pagas por dez réis de mel coado — no caso, com uma sardinha para várias bocas.

A crise dura, e é mencionada desde o início. Por mim, quem desfizer este nó górdio merece um copo de vinho do pipo do patrão. Está prometido!



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