A nossa vida vai sendo feita de sons, de imagens e de sabores. São eles que nos vão atando os laços que nos prendem aos lugares que amamos e às pessoas de quem gostámos, num tempo que, quem dera que fosse sem fim e de uma maneira que é do jeito de cada um, numa essência que é de todos.
Na hora em que me sento e não descanso sem que este desenhar de palavras venha a dar em texto escorreito como é meu fito, é um dia da semana de Páscoa e no mês em que se iniciou a primavera. O sol finalmente brilha como lhe é próprio depois de terem sido arranjadas as canalizações do céu de onde pingou muita água, e a natureza, pujante, vai-se destapando para mostrar as suas belezas.
São elas, em boa parte, que me remetem e me fazem surgir lembranças de quando era rapaz mortinho que viesse a Páscoa para ter umas calças ou uma camisola nova a estrear. Não havia como agora, compras a todo o instante porque as lojas estão ao virar da esquina, a necessidade surge depois de se ver, e as notas na carteira ainda vão dando para os gastos.
Dia de Páscoa, era dia de se receber o Senhor em casa e havia que estar tudo um primor, quer na comida em cima da mesa, quer no asseio da casa e da roupa que se vestia. Decerto Ele não Era nem É de reparar em certos pormenores, mas os olhos dos humanos, em redor não são de facilitar no topar os desleixos e de compadres e de amigos.
Não havia lar em que pelos menos meio cordeiro assado no forno aloirado e acastanhado lentamente em cima do arroz, não viesse para a mesa apetitoso e de se chorar por mais, acompanhado de umas batatinhas deliciosas, tudo regado com o vinho especialmente guardado para a festa. Tirava-se a barriga de miséria, como então dizia o povo que eram todos.
As mulheres da casa metiam-se em cuidados para tudo estar na perfeição no dia de se celebrar a ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, que acompanho pelo compasso, Via Serem-lhe franqueadas as portas e a mais à santa cruz, onde os malvados o pregaram há dois mil anos. Toda a semana, era para elas de uma verdadeira atafona.
Abriam-se portas e janelas para que as casas arejassem, lavam-se as cortinas e os tapetes, e não se dava descanso às vassouras, montadas de bruxas em noites de lua cheira, dizem, para que nem uma pontinha de pó cobrisse um milímetro de móvel ou espacinho de um canto.
Mas indo a outras memórias. Coisas simples. Na minha, que já não vai sendo o que era, pelo menos em certas coisas, porque o pó branco que o tempo espalha sobre o cabelo a isso leva, continua presente e bem desenhada uma laranja colocado em cima da mesa sobre um pano branco de linho ao lado de um envelope com a côngrua destinada ao abade, conforme ancestral uso e regra.
Obviamente que ela, a laranja não era sempre as mesma, mas, para mim, é como se fosse. Aliás, praticamente, era única. Na minha aldeia devido ao capricho ou ao acaso da Criação, não havia laranjais. Numa parte dela, granjeavam-se as vinhas e noutras a leiras, numa altitude que não permitia devido à ausência de calor suficiente, que medrassem esta deliciosa deliciosas fruta com gomos e excelente sumo.
Aquela a que me refiro, era-nos trazida por um amigo lá de casa, que usualmente “ganhava o dia” por conta do meu pai, mas que à semelhança de quase todos os outros, ia para o Douro mais profundo, mourejar nos vinhedos das grandes quintas dos ingleses, como se dia. Na volta, pela Páscoa, trazia uma mão cheia de laranjas, e ofertava a quem lhe fazia bem.
Perdi-me. Os bolos podres do título quase se iam sem que a gente os provasse, e olhem que bem que me apetece um bom pedaço dos danados. Assim o houvesse aqui e agora. Era um regalo. Mas pronto, fica para outra ocasião.
Quer dizer, o provar, pois o falar deles, ainda vou a tempo mesmo que me não possa esticar muito porque a folha já está mais preta do que branca e vazia. Eram uma das maravilhas da Páscoa. Para as mulheres eram um brio, e uma delícia para miúdos e graúdos. Comiam-se os suficientes, não sem que antes se guardasse alguns para serem oferecidos como prova de amizade, ou como gesto de simpatia perante um favor recebido ou a ser pedido.
Eram e são deliciosos, mas não são de difícil confeção. Digo eu com atrevimento, pois nada mais sei do que a teoria. Começa-se por se desfazer o fermento num pouco de água com umas pedras de sal. Partem-se os ovos e juntam-se com azeite a ferver, antes de se misturar tudo na farinha. Amassa-se e bate-se a nassa até estar bem sovada. Tapa-se com um cobertor e deixa-se levedar. Dá-se-lhe a forma, douram-se com gema de ovo e levam-se ao forno.
Fácil. Experimente fazer, e depois mostre. Eu levo o vinho.