Ainda me lembro. Quando há quase vinte anos, o meu amigo Paulo Costa apresentou a Meia Maratona do Douro Vinhateiro, referindo a sua meta fundamentada na sua crença de que o evento viria a ser aquilo que agora é, na sala, todos ou quase todos tiveram para si que, aquele jovem era um sonhador.
Ao tempo, ainda ele era um desconhecido, apesar de ser nado e criado no seu tão celebrado chão de Poiares no concelho do Peso da Régua. Como muitos jovens, tinha ido para a universidade cumprir o seu papel e atingir o seu gosto em obter uma licenciatura, e, ei-lo que regressava com uma vontade férrea de organizar um evento daqueles que fazem a diferença.
O mundo de então, não era o que é o de hoje, apesar de não se terem passado assim tantos anos como isso. O modo de ver as coisas era outro e a amplitude da visão era muito mais encurtada. A própria capacidade individual de causar roturas e de se tudo se fazer para atingir os objetivos que se não vêm, mas se sabe serem possíveis era muito mais diminuta.
Empurrar o quotidiano mais para além e mais para cima, fazer a diferença e convencer que nada nos pode impedir o alcance daquilo que não estando à mão exige muito trabalho, era obra só para alguns, pois encolher os ombros e dar descrédito era o mais fácil, quantos vezes, como agora, porque nos temos como avisados e de lucidez mais afinada.
Faz parte da vida, mas o Paulo Costa tinha razão, naquela sala onde era se calhar o único crente na coisa apresentada e divulgada. Obviamente que teve apoios que lhe chegaram desde a primeira hora e lhe não faltaram, teve pessoas a incentivar e a aplaudir a ideia, e teve parceiros que com ele arregaçaram as mangas na dinâmica de fazer acontecer.
Contrariando os mais céticos, aconteceu, acontece a acontecerá, digo eu agora mas não de ontem, cheio de fácil crença, pois o já sucedido sustenta os pilares do acreditar no amanhã, que neste caso, se repete em cada ano no mês de maio ao longo de um percurso lindo de cortar a respiração ao melhor dos atletas que com o coração a querer sair-lhe pela boca, se encanta com o que entrando pela janela dos olhos vai direitinho para um canto da alma.
A corrida é competição, como é próprio. Mas, não é só isso. Também é passeio e convívio, motivo de celebração da amizade, mote para o encontro de amigos que se avistam e se abraçam, e causa maior para se mostrar que se está vivo e se quer continuar a viver, a correr ou a saltar, pois a vida são uns dias num percurso onde com cada passo mais se aproxima a linha da meta onde não há bandeiras. Só medalhas, para cada qual e conforme cada um.
Este meu escrito de letras alinhadas ao sabor das ideias vertidas para a ponta dos dedos, está a ser elaborado na manhã imediatamente seguinte, quase pelo alvorecer, da XIX Meia Maratona do Douro Vinhateiro. Ocorreu num dia de primavera do nosso contentamento. Quente como é próprio do Douro e pleno como é de sua condição.
Não faltou gente a correr e a pinchar, como diz o povo. Mais de vinte mil pessoas, de todas as idades de todas as condições sociais, e de vários países do mundo, equiparam-se a rigor, caminharam e correram para fazerem parte de um esplendoroso quadro com imagens de maravilhar quem quer que seja e em toda a parte.
Uma vez mais, e isto cá para nós, mais uma vez se provou que o espírito de paróquia que ainda limita algumas mentalidades, é coisa em desuso e de nada se recomendar. O se amar algo, não pode esbarrar nos muros que o nosso entendimento constrói ou vê como mais conveniente.