Era uma vez um homem que tinha, em casa, um espelho que o enganava. Como na história infantil que nos contaram, todos os dias, mais do que uma vez, colocava-se diante dele e perguntava-lhe se existia alguém no mundo mais poderoso e mais belo do que ele.
Trapaceiro, o espelho garantia-lhe que não. Aliás, reforçava, dizendo que nunca tinha existido, nem jamais existiria. O homem fora feito num molde único, quer no que respeitava ao aspeto físico — um verdadeiro Adónis —, quer no que dizia respeito às capacidades da mente, que o tornavam mais astuto do que a mais ladina das raposas. Era um espanto. Pelo menos, era isso que o espelho lhe dizia.
Filho de um pai muito rico, embora pouco recomendável, foi singrando na vida entre negócios e o papel de bobo da corte perante largas audiências que dele se deleitavam. Naturalmente, eram também plateias de compreensão lenta e de estupidez galopante.
Como não podia deixar de ser, o ego insuflou-se ao ponto de mais parecer um balão. Instalado dentro dele, foi crescendo, crescendo, até ocupar todo o espaço, toldando-lhe a já curta visão e sobreaquecendo-lhe a cabeça, onde os neurónios acabaram por torrar, incapazes de lhe conservar o indispensável tino.
Ainda assim, era manhoso e extremamente hábil na arte de construir a própria imagem. Conseguiu convencer muitos de que era um homem lúcido, sério e providencial, capaz de acabar com todos os males do mundo, derrotar os malfeitores e expulsar os invejosos que, segundo ele, apenas queriam apropriar-se do seu país, como se aquilo tudo «fosse da Joana».
Mas tinha dono, garantia o homem do cabelo alaranjado, quase cor de cenoura, convencido de que até por essa via resplandecia. Sempre impecavelmente penteado, desfilava pelos palcos da vida com um permanente ar gingão, convencido de ser irresistível para donzelas reais, supostas ou imaginadas. Com o poder nascido de uma fortuna conquistada sem olhar a meios, obteve favores de bom e de mau grado, porque nunca admitiu que alguma coisa lhe pudesse ser recusada.
Até que, um certo dia, por circunstâncias bem visíveis, mas cuja importância muitos ignoraram, alcançou o posto de comando, transformando-o quase num poder absoluto. Naquele reino sem rei nem roque, mas com uma enorme capacidade para influenciar o quotidiano de praticamente todo o mundo, tremeram os alicerces da civilização.
Como uma fera enjaulada que subitamente se liberta, bufou, espanejou-se, descompôs-se e ameaçou. Anunciou, alto e bom som, que todo o mundo digno desse nome deveria reconhecer a felicidade de passar a ser por ele comandado. Afinal, dizia, fora o próprio Deus Nosso Senhor quem lhe entregara semelhante missão. Nada mais natural, portanto, do que lhe cantarem hossanas por onde passasse.
Sem limites e sem consciência de os não ter, convenceu-se da sua invencibilidade, da sua irresistibilidade e da perfeição absoluta das suas decisões. Como acontece em tantas espécies do reino animal, fazia a corte ao mundo: pavoneava-se, emplumava-se e acreditava que jamais alguém deixaria de tremer perante uma ameaça sua ou de se ajoelhar diante da sua majestade.
Divertido, o malandro do espelho — que, naturalmente, era mágico — continuava a dar-lhe conselhos acerca do comportamento, alimentando-lhe o orgulho, a desmedida opinião sobre si próprio e a convicção de possuir um poder tão extraordinário que nunca ser humano algum se lhe igualara, quer na capacidade de construir, quer na de destruir.
Dizem as más línguas — eu não sei; apenas deduzo e conto — que houve um momento em que o homem, talvez num raro instante de lucidez, já desesperado por tanta exaltação, foi convencido pelo espelho a apresentar-se ao mundo com o pirilau emplumado.
O efeito, dizia o espelho, seria o mesmo das aves macho quando abrem as penas coloridas para conquistar a fêmea. Um espetáculo magnífico. Não sei se foi exatamente assim. O que sei é que, por culpa do espelho — ou da falta dele —, o dito homem continua a pavonear-se, atropelando regras e contrarregras, ocupando o palco onde decorre a grande representação e transformando o cenário num autêntico caos.
Diz quem sabe que a História se repete: primeiro como farsa, depois como tragédia. O problema é que, apesar dos muitos farsantes, tudo indica que desta vez a tragédia poderá chegar primeiro.
Esperemos que não.
Quem me dera possuir um espelho sério, capaz de me mostrar o mundo dos dias que ainda não aconteceram. Ou talvez não. Para emplumados, já bastam os de agora.