É sabido. O Douro e sua vitivinicultura, são uma realidade extremamente complexa, quer social, quer económica, quer institucionalmente. Perceber a realidade e o contexto do mundo que nos sustenta e nos molda, não é fácil, muito mais para quem se não vá fazendo pessoa por entre os vinhedos sentidos como seus mesmo que sejam de propriedade alheia.
Como região propriamente dita, é recente. Comparativamente, ainda andaria de fraldas, no processo iniciador e fundador da identidade. Duzentos e setenta anos, são muito pouco no relógio dos acontecimentos e no chão onde medra a capacidade que permite a defesa e o desejo dos objetivos comuns.
Existimos, somos, temos aquilo que temos, mas foi tudo muito depressa. O negócio feito pilar, começou, despertou aos solavancos, prosperou, mas nunca se equilibrou. A balança, pendeu sempre para o lado de quem a inventou e fez o setor explodir em quantidade e em qualidade, com o mero mister de mercar e de vender vinho.
O Estando, por conveniência própria, tomou conta, mas foi sempre tido mais como malfeitor do que como aferidor. Entretanto, já lá vamos, no mais em baixo que ainda se não escreveu, mas está a despontar.
Recuando um pouco no tempo e nas suas coisas, para quando o século XVIII, acabava de dealbar, com a guerra a campear entre a França e a Inglaterra, devido a desavenças entre as respetivas famílias reais, como foi costume durante séculos. As circunstâncias da História, e a história das circunstâncias, levaram a que os britânicos, tivessem de procurar vinhos noutras bandas para o seu exigente mercado.
Foi então que nos descobriram. O potencial foi e é de tal maneira que, foi preciso pouco mais do que o tempo de alguns ais, para que se exponenciasse. Cresceu a procura, aumentou a produção. Trabalhou-se a bom trabalhar e a exclusividade do produto que encantou e encanta, frutificou tornando-se uma excelente oportunidade de negócio, onde eram todos iguais, mas alguns eram e são mais iguais do que outros.
Apesar do valor na desigual cadeia, a crise grassou. O regabofe instalou-se com especulações e adulterações. Produtores, alguns, e comerciantes, ainda menos, organizaram-se então para que fosse enviada ao Terreiro do Paço uma delegação com ideias a apresentar e com medidas a pedir.
Foi-lhes concedida audiência por Sebastião José ainda não titulado em marquês, mas chefe do governo do Senhor D. José I, rei então preocupado com arranjar moradia firme que não desabasse com outro terramoto. Fino que nem o alho, e centralista convicto e muito interesseiro, o senhor de Carvalho e Melo de imediato atendeu e percebeu. Demarcou, regulamentou e criou a entidade que em tudo iria mandar.
Depois do Tratado de 1703, no dia 10 de setembro de 1756, por alvará régio, foi instituída a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, que acomodou alguns, incomodou outros, e tudo influenciou. Preocupações com planear rumos, eram de sua exclusiva obrigação e essencial interesse. Estavam criadas as condições para o comodismo dos agentes do setor. Com exceção dos períodos em que por motivos do liberalismo, o Estado pouco ou nada mandou, tudo correu relativamente bem, para uns e para outros, durante algumas décadas, não sem que, contudo, por vezes se tivesse vivido em contexto de extremas necessidades, essencialmente para a Lavoura obrigada a vender o mesmo produto sempre aos mesmos.
No ano de 1932, com o Estado Novo a ganhar raízes, o presidente do Conselho de seu apelido Salazar, com perfil semelhante, mas não tão iluminado como o seu oitocentista antecessor, arranjou maneira de centralizar o potencial do vinho generoso para que a parte de leão lhe não escapasse da mão, em termos do andamento das coisas.
Por decreto-lei, criou a Casa do Douro, não seguindo o projeto do paladino reguense Antão de Carvalho, mas dando seguimento ao projeto do seu ministro da Agricultura, o algarvio Sebastião Ramirez, especialista em conservas de atum. Por essa via, a Casa do Douro, não mais seria um genuíno organismo de classe, mas sim uma instituição feita extensão do Estado com poderes delegados para delinear e arbitrar. Para decidir e para fiscalizar.
Muito por isso, foi mal querida, com exceção na época pouco antes das vindimas, quando emitia os almejados “cartões do benefício” com proventos garantidos com ou sem as uvas respetivas, frequentemente contrabandeados na soleira ou no passeio em frente da porta do majestático edifício da sua sede na rua dos Camilos no Peso da Régua, capital administrativa da região.
Parece que isto se passou no tempo em que os animais falavam, mas sucedeu até há cerca de trinta anos, quando era possível haver sol na eira e chuva no nabal, e sol a brilhar mesmo que o céu estivesse cheio de nuvens, mas sem que contemplasse os milhares que vendiam a sua força por pouco dinheiro a troco de côdeas de pão e uma sardinha repartida por três bocas, mercê dos pretextos e dos contextos.
Porém, a dinâmica das coisas, e as coisas das dinâmicas, levou a que o quadro institucional se alterasse. A nova realidade, levou a que a atividade com urgência, tivesse de assumir para o bem e para o mal, um cariz mais empresarial, como é agora moda. No entanto, antes disso, infelizmente, não houve quem desse ao esforço de demonstrar que a viticultura duriense não pode simplesmente ser conduzida conforme as regras do mercado puro e duro, dado o desequilíbrio existente entre quem produz e quem escoa.
Depois e também, há que se fazer notar oque os durienses, pintaram e pintam um quadro paisagístico maravilhoso e mundialmente valioso, que não poder ser esborratado com manchas provocadas por socalcos abandonados e tornados reino das silvas e de fraguedos ao léu, onde passariam sardões e sardaniscas para desconforto visual feito veneno para o turismo.
Urgia e urge que se encontre, bom senso, inteligência e vontade para se implementar um regime justo e eficiente para ambas as partes, num misto com regras pensadas. Mas o processo arrasta-se no tempo mais por culpa própria do que por culpa dos governos, mais parecendo que o Douro não se governa nem se deixa governar. Não se une, não se faz respeitar. O que de melhor faz, é suspirar e esperar que façam por ele, não o granjeio, mas tudo o resto. Basta vermos como decorreu recentemente processo eleitoral para a Casa do Douro, coisa digna de um opera bufa.
Por reflexo condicionado, olha para longe e espera. Quase inconscientemente, continua a esperar sentado que volte o melhor dos tempos idos, quando o remanso advinha dos preços legalmente estabelecidos e do esvaziar das cubas garantido pela Casa do Douro, mais parecendo que o desespero acanha os modos de pensar e de agir, para que se consiga ganhar força e mais igualdade de posição no braço de ferro que está em curso, entre quem está condenado a entender-se.
Nestes dias de primavera tórrida que faz sentir suores frios, de novo se agravam as dores de barriga nas noites de mil aflições. O” pintor” está quase a chegar, a novidade promete, mas já se revela o desinteresse pelas uvas. O mar de vinho que o Douro é, não tem os ventos de feição e a maré está parada. O vinho não sai conveniente das adegas para que o rio do vinho novo possa nelas entrar, num ciclo que se deveria repetir sem sobressaltos.
Como antes. Mas, agora…estamos nisto. Será que ainda estamos a tempo? Não sei, mas a psicologia pode ajudar para que se aprenda a ler os sinais dos tempos. Antes de tudo, há que ter cabeça fria, pensar e agir, conseguindo o equilíbrio essencialmente com a força de cada um que é o parcial de um total obrigatoriamente coeso.