Manuel Igreja

Manuel Igreja

O Douro e a Quadratura do Círculo

Uma vez mais, as vindimas decorrem com os amargos de boca a suplantarem a doçura dos cachos colhidos. O tempo de festa que eram as colheitas, vem sendo substituído por dias em que medra a falta de esperança nos lagares a fazer. Não há cantilenas que escondam os desânimos nos olhos que não reluzem.   

As nuvens pontuam o céu azul, apesar da canícula que se faz sentir neste verão do nosso descontentamento. O garboso e por muitos desejado mês de agosto, ainda vai a meio, e já os socalcos se prestam a serem palcos em que decorre a correria e a azáfama de cortar e encher os contentores com as uvas que prometem vinhos de superior qualidade. 

No entanto, cresce a noção de que se gastam recursos financeiros e humanos para que resulte uma mão cheia de nada. Cometendo um enorme sacrilégio, ainda por cima podemos dizer que a natureza se portou bem, a novidade chegou linda e viçosa às horas do corte antecipado nos dias do calendário de maneira a provocar quase um mar de vinho mediante as efetivas necessidades. 

Como vem sendo costume repetido, não existe dia que alvoreça ou conversa que se troque em que não se ouça logo pelo cantar do galo e nas primeiras frases trocadas, a palavra crise. Quase não dói devido ao hábito, com o devido pedido de desculpas por parte dos que muitos sofrem. O vocábulo indesejado, acompanha a viticultura duriense desde a sua génese enquanto atividade que conta.  

Vai quase em trezentos anos que devido a ela, se regulamentou e se demarcou a Região, principalmente com a instituição da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, para que tudo por ela passasse e ela tudo comandasse. Para o bem e para o mal, pois se a intenção era boa, algumas das suas práticas foram de se não recomendar por estar enxameada de malfeitores gananciosos que em primeiro lugar cuidavam de se enriquecer. 

Pipas com vinagre do bom no meio de pipas com vinhos de excelência. Mas pronto, coisas que já foram e que são ainda que noutros contextos. O caminho foi definido e iniciado assim, foi continuado e por isso, moldou-nos. Podemos dizer que em boa medida foi ele que nos ajustou e alicerçou a mentalidade. As duas componentes do setor, habituaram-se a que alguém assobiasse para que bebesse água, isto, obviamente num modo de dizer, por quem sóis.

Diz quem sabe, que a única coisa permanente é a mudança. O mundo foi mudando, aliás, não para de o fazer, mas, até há três décadas, os ventos que a trazem quase se não fizeram sentir. Placidamente, as coisas vinícolas e vitícolas iam correndo, influindo em tudo em redor. Os mercados de escoamento eram certos e estáveis e não havia cuba de vinho que ficasse nos armazéns de cada um, se cada qual assim quisesse. Os preços eram tabelados e os excedentes eram adquirido pela Casa do Douro, não estatal, mas estatizante.   

Diz o povo e com razão, que não há bem que sempre dure e mal que se não acabe no destino que é fatal. Aquando das negociações para a entrada de Portugal na União Europeia não se quis ou não se soube negociar a situação exclusiva que é a viticultura duriense, pelo que poucos anos depois da adesão, muito teve de mudar quase nada ficando no essencial na mesma. 

Adormecidas, as partes, deixaram andar. Cristalizadas as mentes, não conseguiram unir-se e adaptar-se. Não se respeitaram e não souberam fazer-se respeitar. A situação geral piorou e ouvem-se vozes que clamam para que se toquem os sinos a rebate. No entanto, os campanários estão mudos e quedos. 

Algumas vozes que se ouvem, exigem medidas fora deste tempo. Continuam na forma e na fórmula em que com leis e por decisão de um qualquer governo se influenciava o modo de operar e as quantias a ganhar. A lavoura não se adapta e caminha para o precipício. 

Milhares de granjeadores de uvas estão falidos há muitos anos e não sabem, porque não fazem contas. Estorricam dinheiros ganhos noutras atividades ou mesmo das reformas, para manter os jardins. Sabemos que as paixões não se explicam, mas se vivem porque são elas que dão sentido à vida. Outros, com algum de seu mais considerável, não querem saber de exemplos e de formas de organização como as Cooperativas, e enforcam-se alegremente criando marcas e enchendo garrafas com lindos e criativos rótulos. 

Por entre tudo isto, não há nem definições nem soluções aceites e/ou discutidas, porque cada um tem a sua verdade. Sendo o presente o prenúncio de um futuro que se adivinha diferente em gostos e em hábitos, tudo se rejeita num ápice, sem a devida e clara ponderação. É mais fácil passar a ideia de que tudo se resolve com medidas legislativas como o uso de aguardente obtida exclusivamente com queima de vinhos da região. 

Parece fácil, mas nunca aconteceu. Aliás, o tema nunca foi pacífico. Por isso, deve experimentar-se gradualmente. Devemos recusar ficar na mesma para vermos como fica tendo em que conta que num mundo assente nas regras do liberalismo económico, querer regulamentação muito curta e assertiva - e desejavelmente pontual - é como o querer fazer uma quadratura num círculo.       



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