Onde aprendemos, como aprendemos, quando e quanto aprendemos, é o que cada vez mais nos distingue, em consequência daquilo que vamos sendo e do processo de construção individual no percurso evolutivo que faz de cada um o resultado das suas vivências.
Claro que este resultado — que, no fundo, enquanto vivos, é a soma dinâmica e imparável das partes que acrescentamos aos dias — não sofre uma influência exclusiva, pois existem outros fatores, como os familiares e os ambientais; mas a escora, a espinha dorsal das nossas competências, assenta e fortifica-se na Escola.
Esta, infelizmente, nunca foi nem é, apesar da sua estrutural e inequívoca importância, algo a que se aceda de maneira justa e igual, no tempo e no modo, desde que o mundo é mundo e dele temos conhecimento (no sentido em que começámos a saber de nós e dos outros).
Mal fomos dotados do impulso para a curiosidade e da natural apetência para aprender — para além daquilo que advém da repetição permanente de atitudes instintivas, como sucede com os animais irracionais que seguem mais lentos no seu devir —, entregámo-nos de imediato ao ensinar e ao aprender, orgânica e comunitariamente.
Durante milhares de anos, quando ainda não sabíamos que com meros traços desenhados e ordenados se pode falar, registar, aprender e ensinar, emitíamos sons e fazíamos gestos, comunicando o que havia para comunicar em quotidianos feitos de observação e de necessidades absolutamente básicas, num contexto quase igualitário em termos de oportunidades.
Chegou, no entanto, o tempo em que isso não bastou. Foi há cerca de oito mil anos — há uns segundos no relógio do tempo cósmico, se tanto. Sentiu-se a necessidade de gerir as quantidades de cereal armazenado e inventou-se a escrita, ao desenharem-se traços sobre placas de argila.
A maior invenção da humanidade foi conseguida num processo complexamente simples, que não tardou a complicar-se porque se quis e se soube explorar, desenvolver, espalhar e ensinar. Diversificou-se, foi sendo adotada e adaptada, ganhou diversos tipos de suporte e perpetuou-se.
Em resultado, surgiu a Escola com o seu potencial diferenciador. Na Antiguidade Clássica, os sábios, repletos de saber e com tempo de lazer, refletiam, aprendiam e ensinavam. Os mais ricos aprendiam, e os que nada tinham de seu trabalhavam para sustento dos outros, mantendo-se um equilíbrio que de equilibrado nada tinha, porque a guerra era a "mãe de todas as coisas".
Passada essa época, a Escola confinou-se dentro dos muros dos conventos, aprisionando-se o conhecimento nas exíguas celas dos monges, que copiavam livros desenhando letras encavalitadas, mas alinhadas. Sempre na mesma língua e quase sempre para os mesmos, porque quem mandava achava que, do ninho onde germina o saber, podem nascer perigos a evitar, pois podem levar a que tudo mude.
Dando um salto no tempo, porque já é tempo, falemos da Escola desde os anos em que o mundo estremeceu com a revolução industrial e com as invenções que fizeram (e fazem) muita gente quase morrer de susto e de espanto — porque, não se sabendo que muitas coisas eram impossíveis, fizeram-nas acontecer.
A Escola foi sendo implementada e valorizada, mas nunca para todos, devido a condições e fatores que não cabem agora neste "quadro de giz", para não aborrecer, pois não é esse o fito. Durante décadas, que somaram mais de um século, conforme se teve ou não a oportunidade de frequentar a Escola nos seus diversos graus de ensino, assim se iam usufruindo condições de acesso ao sucesso (seja lá o que isso for).
Lançando agora o olhar em frente e em redor, nos anos que nos estão na memória e nos que nos estão a acontecer, podemos concluir que a Escola foi e é uma das peças principais do elevador que nos transporta na subida da pirâmide social onde nos compete viver, procurando manter ou conquistar o lugar ao sol que brilha por entre as janelas das oportunidades.
Apesar de todos os discursos promotores de igualdade de oportunidades, e estando a Escola consagrada na letra das leis fundadoras, podemos dizer que "sim, mas...". Somos todos iguais, mas alguns são "mais iguais do que outros", porque, na pista, o potencial de desenvolvimento resulta de onde se partiu e do impulso inicial recebido.
Não basta o grau de escolaridade que se atinge, porque a Escola que se frequentou estratificou-se. O solo onde se granjeia o saber não é igual e diferencia, ao ponto de, também por aí, germinar a segregação. Como dizia o povo: "quem pode, pode; quem não pode, arreia".
Bem sei, sempre assim foi. Mas agora não era suposto. Andámos socialmente "às arrecuas". Até no recreio da Escola.