A editora Sabaria acaba de publicar Singularidades de A.M.Pires Cabral.

É a segunda obra deste autor que se publica nesta editora. A primeira: el Puerco de Erimanto y otras fábulas é o número um da editora e foi eleita dado a editora visar a divulgação da literatura da Raia e ser este o autor que junto com Camilo Castelo Branco e Torga soube interpretar magistralmente a realidade de Trás-os-Montes.


“Singularidades”. Neste título os críticos viram uma ligação com Eça de Queirós através do conto Singularidades de uma rapariga Loira. O conto do Eça esteve presente no momento da escolha do título?

De modo nenhum. O facto de a palavra ‘singularidades’ aparecer no título de um conto de Eça e no título do meu livro é pura coincidencia. De resto, creio que nunca li esse conto de Eça.

Eça é um dos autores da literatura contemporánea mais lidos em Espanha. Que importância representa o Eça na sua formação?

Para ser honesto, direi que muito pouca. Li uma dúzia de livros de Eça, e não posso deixar de considerar que se trata de um grande artista da palavra. Mas, aparte isso, é um escritor a que não reajo com muita intensidade. Parece-me que há um défice de portugalidade na prosa de Eça. Ler um romance de Eça dá-me sempre a sensação de que estou a ler um romance francês em tradução portuguesa.

E entre Eça e Camilo qual é a sua opinião?

Sou camiliano cem por cento. Em Camilo, sim, encontro a tal portugalidade que não encontro em Eça. E encontro também outra coisa que não encontro em Eça: emoção. Eça é um escritor frio. Escreve com o cérebro. O que lhe interessa é sobretudo a perfeição formal. Camilo, pelo contrario, escreve com o coração, e é isso que faz dele um escritor mais portugués do que Eça.

Os relatos de Singularidades estão cheios de ironía e humor mas também há uma certa ternura pelo ser humano, estou a pensar, por exemplo em Gabriel Guerra. Pode falar um bocado sobre a criação desta personagem tão comovente?

O conto que tem Gabriel Guerra por personagem central é o meu preferido desta colectânea, porque trata de um tema que sempre me incomodou: a fragilidade do homem comum perante a adversidade. Por outras palavras, a cedência e renúncia aos ideais. O sonho como matéria biodegradável. As palavras finais do conto são claras:

«Fiquei a ver-te seguir, arrastando ligeiramente a perna esquerda (sequela de algum AVC?), em direcção ao teu novo ofício — e a pensar em como esse ofício era coisa tão contrária a tudo o que apetecêramos para nós quando tínhamos vinte e dois anos, for we were young and sure to have our way, e em como os sonhos são, tal como os corpos em que se alojam, matéria altamente biodegradável.

Não é fácil. Pois não, Gabriel? Não é fácil olhar para trás e ver que a vida não fez senão desintegrar-nos e obrigar-nos a caminhar sobre os nossos próprios destroços.»

Nestas personagens que acha que é mesmo trasmontano? E portugués?

Muitas vezes há, a respeito da minha obra literária, a ideia de que sou um escritor amarrado à realidade transmontana. Devo corrigir essa ideia. É verdade que diversos livros da minha bibliografia têm por cenário a ambiência rural de Trás-os-Montes e por personagens figuras marcadas pela ruralidade. Mas não é menos verdade que diversos outros livros que escrevi transcendem o âmbito regional e ganham um estatuto universal. Parece-me que é esse justamente o caso de Singularidades. Não descortino nele nenhum traço de provincianismo. É o mais universal possível, talvez com a ténue excepção do último conto, onde há uma certa concepção da morte que me parece bem trasmontana.

É evidente que a literatura tem sido marcante na sua vida mas qual é o o sentido da literatura hoje em dia? E se falarmos em poesía, serve para alguna coisa no mundo atual a poesía?

O sentido, isto é, a utilidade da literatura é múltipla. No que respeita à ficção, por exemplo, é a resposta a uma pulsão bem humana que é o desejo da criação. Ao escrever um livro, sentimo-nos investidos de um poder quase demiúrgico que satisfaz a nossa ânsia de transformar o zero em alguma coisa. É também a resposta à necessidade de ultrapassar a nossa circunstância e penetrar em mundos alheios.

Também a poesia tem vários sentidos. É, por exemplo, uma resposta à nossa necessidade de beleza. Ou à nossa necessidade de reflexão sobre os grandes mistérios da existência. Gosto de definir a poesía como a alquimia que permite transformar emoções em palavras e palavras em emoções.

O primeiro libro que publicó Sabaria , O porco de Erimanto, teve unas críticas magníficas. De facto a edição esgotou. Por acaso, é um autor que se da muito bem com os leitores espanhóis. Culturalmente somos muito diferentes espanhóis e portugueses?

Com essa pergunta, entramos no campo da antropologia, área em que me sinto pouco à vontade. Não tenho um conhecimento suficientemente profundo e consolidado da realidade humana da Espanha que me permita responder. Mas fica-me a impressão de que não existe um espanhol-tipo, mas diversos espanhóis.

O mesmo se passa aliás com Portugal, embora porventura a uma escala menor, mais diluída. Não há um português-tipo, mas vários portugueses. Julgo que consigo distinguir traços de carácter diferentes num minhoto e num algarvio, por exemplo.

Seria talvez politicamente correcto dizer que portugueses e espanhóis são ‘hermanos’ isto é, portadores de uma psique comum. Mas não me atrevo a tanto. O que posso afirmar é que me ficaram boas recordações praticamente de todos os espanhóis com quem me relacionei ao longo da vida, e que ainda hoje tenho bons amigos em Espanha e alguns mesmo em Zamora.

Neste ano vamos comemorar o V centenário de Camões. É um autor muito ligado a Coímbra, a sua Universidade de referência. Lembra-se de alguns colegas que enveredaram pela poesía ou a narrativa?

Eu vivi Coimbra na primeira metade da década de 1960, aproximadamente.

Era uma época de tomada de consciência política, que de alguma maneira se sobrepunha às preocupações literárias. A esse ambiente se reporta o conto de que falámos há bocado, o tal que tem por personagem Gabriel Guerra. Mas havia alguns poetas – sobretudo poetas; ficcionistas não havia – em quem reconhecíamos potencial para virem a ser nomes importantes na literatura portuguesa. Era o caso de Manuel Alegre, por exemplo, que é hoje um dos mais reverenciados poetas da actualidade.

Pessoalmente relacionei-me com Nuno Guimarães, um extraordinário poeta que a morte prematura, antes dos 30 anos, impediu de produzir uma obra que seria sem dúvida importante e inovadora.

Na atualidade que poetas le? Isto é, para além do poeta Rui Pires a quem admira profundamente, segundo já me disse.

Sim, leio e releio Rui Pires Cabral, sobre o qual nada direi, porque se trata de um filho meu. De resto, dos poetas portugueses dos nossos dias, lembro Manuel António Pina, Rui Belo, João Luís Barreto Guimarães. De gerações (muito) anteriores, dois clássicos: Camões e Gil Vicente. De Espanha, apraz-me registar a surpresa que foi Cláudio Rodríguez, que Concha López Jambrina me deu a conhecer. De Espanha ainda: António Machado e os místicos (San Juan de la Cruz, Teresa de Ávila). Um pouco de Lorca (de quem traduzi para português as Bodas de Sangue). Do resto do mundo, Shakespeare – o maior! –, Walt Witman e Rilke. Note-se que, quando refiro nomes de Poetas, não estou necessariamente a valorizar a totalidade das suas obras. Por vezes, a admiração pode limitar-se a um ou dois poemas somente.

A minha ementa poética gira à volta disto e de mais uns quantos poetas que não me ocorreram mas que também “falam comigo”.

Quando esteve em Zamora no lançamento de livro o Porco de Erimanto, em espanhol,veio com a sua esposa Alda da Conceição e muitas pessoas ficamos mesmo cativadas por ela, a sua modernidade, a sua amabilidade e maneira de estar , a sua simpatía verdadeiramente invulgar. Qual o papel que tem desempenhado ela na sua trajetória literária?

O papel dela é essencial. É uma mulher extraordinária sob diversos pontos de vista. Quanto ao seu papel na minha trajectória literária, estou convencido que não teria produzido um terço do que produzi sem a sua presença a meu lado, a velar por que haja um ambiente propício à escrita. E também devo referir que costumo levar em conta os seus comentários a qualquer obra que eu ande a escrever e de que só a ela permito o acesso.

Muitas pessoas já perguntaram se teremos a sorte de voltar a celebrar um encontro com o autor na Biblioteca Pública de Zamora com motivo do lançamento de Singularidades. Tudo está aqui já pronto, será isto possível’

Depende de tantas coisas…

A.M. Pires Cabral tem uma extensa obra poética reconhecida com importantes premios. Vasco Graça Moura disse que, na atualidade é dos mais importantes poetas ligados ao Douro, e com ele temos um “clásico no Nordeste” Atingiu outras conceituadas distinções com obras, quer de poesía, quer de ficção: o Prémio Circulo de Leitores, o Prémio D. Dinis, o Prémio de poesía Miguel Nava, o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco e outros.

Entrevista cedida por Concha López Jambrina no ElTrapezio


Pires Cabral distinguido com o Prémio de Tributo Consagração Fundação Inês de Castro





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