Manuel Igreja

Manuel Igreja

Os Estreitos

A língua portuguesa é muito traiçoeira, como costuma dizer o nosso maior cómico, Herman José. Fá-lo através da atitude e da atividade de nos pintar o quadro social com aquilo que temos e com os desejos daquilo que queremos parecer ser.

Como exemplo da complexidade e da enorme possibilidade de um termo dito ou escrito na língua que nos cabe falar — fruto do seu longo percurso e da sua raiz no latim, que nos serviu para rezar sem perceber o significado, mas que também fundamenta e enriquece o idioma —, socorro-me da palavra “estreito”.

É um maná de significados. Um verdadeiro cardápio, para nos entendermos melhor. Um estreito, por definição, é algo não muito largo. Pode ser um buraco por onde passa uma agulha; pode ser um beco que nunca chegou a ser rua, porque não lhe deram oportunidade; pode ser algo com medidas exíguas em relação ao que o rodeia. Mas pode também ser um sítio com extensão de quilómetros que, ainda assim, é pequeno relativamente ao quase imenso que o circunda.

O Estreito de Ormuz tem andado na baila, por causa de desaguisados impensáveis e sem nexo, protagonizados por certas figuras do mundo que, por fanatismo e ganância, se tornam verdadeiros figurões, desinquietando-nos e causando enormes perigos e prejuízos. O mar do Golfo Pérsico vê-se ali esganado, mas, sendo a única rota marítima para o petróleo que naquela região esguicha, transforma-se em arma de arremesso e de chantagem.

Coisas deste nosso mundo, sem jeito e sem nexo, apesar da modernidade e da inteligência que nos leva a inventar instrumentos dignos de espanto — verdadeiros milagres aos olhos de outrora. Convém, no entanto, dizer que a utilização do Estreito de Ormuz, conforme mais convém, não é nova: há quatro séculos, quando eram donos de meio mundo, os portugueses já o faziam com proveito.

Poderíamos ir a outros estreitos como exemplo, mas não valerá a pena. Não podemos, nem queremos, deixar de falar de outro tipo de estreitos: os mentais. Pois, embora pareça que os seres humanos se equivalem nas capacidades mentais — já que o tamanho da cabeça não varia muito —, cada um de nós tem a sua própria dimensão em termos de inteligência, visão e discernimento.

No processo de construção de cada qual, vai-se alargando, alterando e solidificando a capacidade intrínseca de ver o que os olhos não enxergam, de sentir e registar o que a alma vê, de olhar muito para além do ponto do umbigo, de criar empatia, de aumentar a bondade, e de ter prazer com a maldade, com justificações difusas e escusas.

Invariavelmente, nestes últimos casos, a mente entaipada pela arrogância, faz campear a ganância, que por sua vez, solidifica as margens do caudal do discernimento num devir permanente que estreita aquilo que porque nunca foi alargado, se vai transformando num estreito que se vai afunilando até que quase nada passe e se veja.

Por exemplo, vivemos apreensivos nestes dias em que cabem os nossos dias, porque líderes com a cabeça pouco mais que oca e em campos divergentes no semear e no garantir os interesses, por causa do estreito que é o seu modo de pensar, não hesitam em fechar um estreito natural, mesmo que isso prejudique tudo e todos, com exceção dos seus correligionários que ganham milhões.

Tenho para mim, que o louco da nossa aldeia, que anda desvairado nos corredores do poder na América, ainda vai tresloucar e achar que supera Cristo e que não admite que alguém O equipare a si, por tão grande ser a sua magnificência, que, estou em pensar que lhe foi ventilada pelo mafarrico que não para de se rebolar a rir dele e de nós.

Podia um não findar de referir estreitos, aqui nesta folha que se vai estreitando, mas não vale a pena. No entanto, não posso deixar passar em claro, uma certa senhora que brilha na televisão pavoneando o seu estreito discernimento, para gáudio de bastantes, não propriamente alargados no saber, que não conseguiu exprimir uma ideia que julgou o distinta e diferenciadora.

Sobrou-lhe, como sempre, a língua, e com o seu estreito modo de processar, meteu-se em alhadas porque fez com que pudesse ser tida como alguém que tenta defender execráveis violadores de uma jovem ainda quase menina que teve o azar de estar no sítio errado na hora errada.

Convenhamos, pois, que, quanto a estreitos, há muito que se diga. O problema, é que se os fixos e naturais, estão fixos, os outros, os que se movem, surgem cada vez mais em todo o lado. Até entre nós.



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