Para lá das competências mais básicas comuns a todos os seres vivos que se movem — como comer ou deslocar-se — existe uma outra, tanto quanto sabemos, exclusiva dos seres humanos: a capacidade de criar simbolismos e de encontrar formas de construir e agir em função de objetivos comuns.
Assim que os nossos ancestrais começaram a organizar o quotidiano em grupo, desenvolveu-se naturalmente a noção de pertença a algo que ultrapassava o umbigo de cada um. Primeiro por instinto e, mais tarde, muito lentamente — ao longo de centenas de milhares de anos — o imediatamente material foi deixando de ser o único horizonte, por ter surgia capacidade de desejar mais e melhor e, sobretudo, a faculdade de desmaterializar, isto é, de conceber soluções e explicações para além do tangível.
Quando começaram a surgir as primeiras cidades, fruto do abandono da errância na busca de alimento e de melhores condições de vida, por necessidade e por inteligência aplicada à organização, a primeira coisa a ser desenhada, a régua e esquadro, foi o espaço comum: o largo. Ladeavam-no o templo, o edifício do poder, o recinto das celebrações e outras infraestruturas de uso coletivo.
Deram-se assim os primeiros passos na organização urbana, na construção da pólis, num caminho que nos trouxe até aos dias de hoje. Um caminho que, infelizmente, nas últimas décadas, entre nós, em Portugal, tem vindo a ser esquecido, vítima da ignorância e da ganância que alimentaram um construir quase ao deus-dará, sem se olhar ao que é invisível aos olhares mais imediatos.
Mercê da sabedoria acumulada ao longo de séculos, as pessoas — porque partilhavam espaços e compreendiam que um assunto de interesse comum era, inevitavelmente, um assunto de interesse individual — foram formando, quase impercetivelmente, a noção de cidadania, conceito que não existe se não se alicerçar num conjunto de regras não impostas, a que chamamos civismo.
Convém, no entanto, recordar que houve um longo interregno nesta evolução. Grosso modo, do fim da Antiguidade Clássica até ao Renascimento, as noções de cidadania que reconhecem cada ser humano como tal, com o devido lugar na sociedade, foram sendo esquecidas e substituídas por modelos sociais de classes estanques, inamovíveis e profundamente desiguais.
Nos dois últimos séculos, porém, em algumas sociedades mais depressa e noutras mais lentamente, o conceito de cidadania foi sendo restaurado. Fê-lo de forma desigual, como sempre acontece, mas evolutiva, ao ponto de se alargar à quase totalidade da sociedade em causa.
Em Portugal, infelizmente, esse processo foi particularmente lento quando comparado com os países mais próximos. O comboio da modernidade avançou devagar, travado pela teimosia de quem mandava e que, obstinadamente, quis manter parados os ponteiros do relógio nas estações da vida. O século XIX entrou pelo século XX dentro, carregado de valores e noções já fora de texto e de contexto.
Na primavera de 1974, numa dessas madrugadas inteiras e luminosas, escancararam-se as portas do “convento”. A luz entrou, a liberdade floresceu e o sol raiou de tal forma que, no vasto canteiro junto ao mar, se abriu a possibilidade de desenvolver a cidadania a par do desenvolvimento alcançado e por alcançar.
Não me parece, contudo, que tal se tenha concretizado plenamente. Evoluímos no essencial: o patamar mínimo subiu e somos, sem dúvida, mais livres. Mas talvez porque o salto foi demasiado rápido, não conseguimos fortalecer a coluna que sustenta o civismo — essa que nos permite ver-nos como utilizadores responsáveis de infraestruturas comuns e como parte de objetivos que são de todos e, por isso mesmo, benéficos para cada um.
Diria até — quiçá com alguma ousadia, e talvez sem inteira razão — que já estivemos melhor neste domínio. Basta observar como muitos peões atravessam as passadeiras sem olhar nem parar; como, nos edifícios coletivos, se tratam os assuntos dos condomínios; como as filas são frequentemente encaradas como algo facultativo; como barafustamos de imediato com tudo e com todos; como desconhecemos quem mora ao nosso lado. E poderia continuar a enumerar exemplos.
Mas, sobretudo, basta ver como aceitamos, com inquietante naturalidade, que a sociedade seja dividida entre “nós” e “os outros”, esquecendo que só juntos — todos — podemos ser fortes perante os desafios que enfrentamos e os que ainda hão de vir.
Não nos deram, nem soubemos conquistar plenamente, a noção de cidadania. Por isso, cada vez mais, tudo parece ser “nosso” e moldável ao jeito de cada qual. Resta saber se ainda iremos a tempo de nos afirmarmos como uma nação forte em civismo. Nem que seja à semelhança do futebol — essa coisa que, sendo a mais importante entre as coisas de pouca importância, ainda assim nos galvaniza e nos enche de orgulho.