Manuel Igreja

Manuel Igreja

Em Pantanas

Durante muitos dias e muitas noites, copiosamente a chuva caiu do céu, o ventou desalmadamente soprou, e tudo desabou. Em Portugal, país de muitos planos feitos, mas sem efetivo planeamento, numa sua zona que é quase plana, tudo ficou em pantanas, como diz o povo.

Perante a desgraça, os políticos, politicaram, os “pulhíticos”, “pulhiticaram” como é próprio de uns e de outros, as pessoas atingidas e desprotegidas, afligiram-se e afligiram-se, sentindo que ninguém lhes acorde, boa parte das outras pessoas que isto viram, solidárias, ajudam, numa situação em que ainda se não vislumbram ténues sinais de bonança.

No meio da tormenta, houve e há, muitos pantomineiros, muito teatro e muitas peripécias, mas também existiu e existe, interajuda entre os cidadãos que sabem o seu dever e que sabem que ninguém está imune à desdita que prejudica e aflige. As pessoas comuns sabem que tudo vale a pena quando a alma não é pequena.

De um jeito de que não há lembrança, a natural força do vento muita coisa derrubou, e a água caída, soberana nos seus domínios, extensivamente alagou, derrubando as margens que a oprimem. A Natureza, soberana, imperou e humilhou quem se descuidou e se esqueceu do seu poder.

Perante a desdita, no imediato, faltou a visão do seu tamanho. Demorou, até que a destruição e o desespero local, se mostrasse e se fizesse sentir como algo mais alargado e de mais alargada realidade. O governo da nação demorou a concluir e a agir. Antes de haver cabeça fria, houve propensão para cuidar da imagem e da posição na fotografia.

Foi inconcebível, mas próprio de quem dentro da bolha do poder, não sabe que na prática, a teoria é sempre outra e que os sinais de fumo, aconselhados pelos especialistas em comunicação, são frequentemente ineficientes, devido à ignorância acerca do mundo real fora do círculo curto que delimita os palácios do poder. O chamado país real, onde a vida se desenrola.

Num ápice e sem apelo nem agravo, tudo ruiu. Como feita de papel, a rede elétrica, veio ao chão, muitos telhados voaram mais parecendo terem asas, muitas paredes tombaram como se fossem feitas de papelão, as ruas viraram chão para barcos, e as comunicações falharam por falta de caminhos para o ir e vir dos respetivos sinais.

Infraestruturas, planeadas e construídas há dezenas de anos, numa época em que os tempos eram outros, foram perdendo capacidade de resposta, crescentemente ineficientes por falta de modificação e de adaptação. Colapsaram não só, mas também por isso, como singelas cartas de um baralho com frágeis equilíbrios que são causa primeira para que tudo acabe muito mal por não estar adequadamente bem.

Não conseguimos planear e agir atempada e conveniente. Improvisámos e desenrascámos. Está-nos na essência. No sangue que nos ferve num repente, como se houvesse um fogo dentro de nós impedindo lucidez e humildade que evitem o sobrevalorizar da horta de cada qual.

Muito cheios de si mesmos, os delegados e titulares de cada organismo, impantes nas suas fardas com galões e com boinas, ilustres de pouco lustro, comandam e desmandam por falta de noção do total circundante numa pelo menos aparente guerra de capoeiras.

Por isso, parece-me que demorou a entrar em cena a tropa que não é fandanga e que está apta para agir e para utilizar eficazmente o saber da logística, dentro daquilo que é uma das suas superiores missões. Por isso existe. Por isso, o seu dever, não é só treinar o tiro e a posição nos hipotéticos ou reais terrenos de batalha.

Duas semanas após e ainda durante o inusitado e natural efeito devastador das condições atmosféricas, continuámos a bradar aos céus, sem que se veja o desanuviar que nos pode permitir um pouco de sossego e de paz de espírito depois da inclemência. Sentimos que muito há a fazer até que o remedeio e provisório se transformem em definitivo.

Nem sequer podemos almejar a vinda do verão, pois sabemos que então o vento e a água serão substituídos pelas labaredas que também causam desgraça. Parece fado. Estamos condenados a viver com tudo em pantanas.



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