Manuel Igreja

Manuel Igreja

O Meu Tio Benjamim, a Televisão e o Padre

Se bem me lembro, como dizia o “outro”, o meu tio Benjamim, irmão da minha avó Filomena, uma dama, e uma seda de senhora, era um autêntico galã. Não do cinema mudo, pois já não era esse o tempo, mas um cavalheiro com ar distinto, apesar de viver numa recôndita, mas altaneira aldeia, nos meus tempo se menino e moço. 

Era um homem muito à frente, distinto, que se distinguia, porque era pessoa de saber com havia outro mundo para lá das serra e do rio Douro que, cá em baixo, depois de lambiscar as margens da Régua, seguia com os afluentes encavalitados até ao mar, lá longe, no Porto, onde as lampejos da civilização possível se iam fazendo sentir. 

Filho do meu destemperado bisavô, Zé do Genésio, homem que nunca soube o que é escorrer suor sobre as novidades a brotar e a tratar, porque tinha mais com que se entreter com os comparsas de ramboia, cedo teve de se fazer à vida para ganhar sustento. 

Liminarmente, recusou a vida de se vergar a cultivar leiras e vinhedos, num árduo trabalho por pouco dinheiro e estabeleceu-se como comerciante na pequena aldeia, pressentido que o universal pode e deve ser o local sem paredes. 

Estabeleceu-se com loja de porta aberta, para as pequenas precisões, comprou uma carrinha pequena, de caixa aberta, algo pouco frequente na época em que as estradas eram meros caminhos de brita, e rodou na vida que sempre recusou que lhe fosse quase parada, sabendo que as mudanças, como a morte, tardam, mas não falham. 

No entanto, naquele aldeia, pardacenta, como o resto do país que vivia o quotidiano sob os mandos da cruz e do governo da nação enclausurados em palácios sem arejamento porque urgia e penumbra, para que nos galinheiros, a “bicharada” continuasse sem desejos de arejo e de coisas novas, como era exigido aos caminhantes rumo ao paraíso prometido, por troca de padecimentos e de bons comportamentos. 

Ia bem, até ao dia em que o meu tio Benjamim, comprou uma televisão e um gira-discos com altifalante para o seu estabelecimento. Com a caixa com imagens, seduziu beatas e beatas, ou nem por isso, para a loja. Com a música, seduziu rapazes e raparigas, que num ápice, começaram a trocar as tardes de domingo de rezas na igreja, por umas horas de dança no largo junto à capela de Sto. António, pois a alegria por mais que se prenda, logo se desprende no primeiro motivo que faça o sangue ferver.

Com a televisão, foi o mesmo. Entre terços rezados em monólogos entre as imagens ocas dos santos, e o ver-se animação a rodos e imagens de lá longe, de terras tidas como quase do fim do mundo, pois eram muito para além do arco-íris, não foram necessários grandes pesares de consciência, para que a troca de cada um, virasse a de muitos, pois a vida são três dias e dois já passaram, como bem se sabe. Mais a mais, a curiosidade, comeu-a o gato, como diz o povo.

Esvaziou-se o templo, e encheu-se a loja e mais o largo. Quem não gostou nada, foi o padre Alberto, homem latagão de corpo, mas cristalizado e minguado de mente. Vendo que lhe não bastava ameaçar com o fogo do inferno até ao fim dos tempos e com a lança pontiaguda do mafarrico utilizada nos misteres do churrasco eterno, arranjou o que pensou ser uma solução. 

Se bem o pensou, assim o fez. Comprou os aparelhos da maldição ao meu tio Benjamim, para que assim, ele os não pudesse utilizar como instrumento de perdição das almas. Finório, ele, vendeu-lhos. O problema, é que de imediato, comprava outros iguais para usar de igual forma. Entrou-se pois então num ciclo de comprar e de vender sem que as almas temessem a bom temer pela perdição num tempo sem medida.

Domingo de tarde, não era horas de terços e de novenas na terra. Só folguedo, bailaricos e namoricos. Os homens mais feitos deitavam um olho para a televisão enquanto procuravam os trunfos nas cartas, os rapazes viam filmes de aventuras, e as raparigas que não estavam para estar sentadas, arejavam para ver o que lhes trazia o vento. 

Pelo que sei, a coisa durou, mas o padre não desistiu. Convencido da sua força de guardião da moral e dos bons costumes, não se deu por vencido, indo ao ponto de denunciar o meu tio à tenebrosa PIDE, dizendo-o um perigo para a nação e para o estado morrinhento das coisas. 

Como é óbvio, o meu tio Benjamim, foi incomodado. Mas pelo que deduzo, não se deixou convencer nem vencer. Durante mais anos, na aldeia não faltou televisão na venda, nem música diária no altifalante, para que se soubesse que quando uma pessoa quer, ninguém lhe cala os acordes, mais não seja, porque um cão, é um cão, e um homem, é um homem. Siga o baile!                 

               


     

        

 



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