O André Ventura, advogado, professor universitário e praticante da arte da esgrima — em que as palavras são ferretes — diz-se pessoa de ventura e de virtudes, assentando o seu discurso no facto de ser de missa diária, à maneira de um beato falso que se congratula em papar hóstias consagradas.
Ciente disso ele estivesse — se é que não está — de que tudo o que afirma defender e combater na arena política, na sua forma e substância, vai ao arrepio de tudo quanto é ensinamento cristão, por não condizer com a postura assumida por Jesus Cristo há dois mil anos, quando enfrentou os fariseus e aqueles que apenas olhavam para o próprio umbigo, fazendo da disponibilidade para com os mais necessitados a raiz dos seus ensinamentos.
Tenho para mim que o dito senhor, que nos ocupa boa parte da televisão por estar constantemente em bicos de pés, sabe bem que assim é. No entanto, como é fino na arte de ler os anseios alheios e muito treinado na habilidade de dizer, com eficácia, tudo o que lhe interessa dizer e atingir, criou uma personagem que diariamente ateia labaredas nas nossas searas.
Sabe ao que vem e ilude. Arrasta, convence e maravilha. Indica onde dói e onde aperta, brada aos céus, mas não indica — porque não lhe interessa, não sabe, ou não é esse o seu fito — as soluções e os caminhos mais convenientes a seguir, de modo que os males se espantem e as mentes, sossegadas, cantem ou, pelo menos, sorriam.
Plagia congéneres na arte do propagandista de feira, vindos de outras bandas, e — com o devido respeito pelos verdadeiros comerciantes de tudo e mais alguma coisa — solta freneticamente palavras ao vento, sabendo que, através do ritmo apressado, ainda uma não pousou nem repousou e outra já esvoaça, fazendo ruído e alarido, sem que quem ouça possa sentar-se a ponderar.
Tem vindo a utilizar com mestria uma técnica eficiente: arregimenta quem está à espera de ser arregimentado, porque se sente incomodado; roça, ao de leve, os assuntos que em crescendo desassossegam quem apenas quer viver e espairecer, e está a conseguir. Qual íman que atrai anseios cerceados, convence e vence.
Tendo iniciado o exercício da política num dos dois partidos fundadores da democracia, germinada mas descuidada há meio século, sentiu que não seria aí que encontraria o galho da árvore que desejava — e deseja — escalar até ao cimo, ninho dos melhores frutos. Decidiu, então, enveredar pelos trilhos mais extremos, onde, em cada parede e em cada curva do caminho, medram os medos, o ódio ao diferente e a intolerância.
Vai à missa e diz, mas não nota que entra no templo com cinco pecados e sai dele com dez. Tem sorte. Se algum dia inventarem hóstias que queimem todos os que as tomem em pecado, ficará com a garganta mais queimada do que um torresmo ou um pedaço de carne esquecido no brasume. Nem um copo de vinho, daquele bom, o salvará.
Julgará ele que é bem-aventurado por ter frequentado o seminário e por rezar muitas vezes o terço, mas engana-se. Não bate a cara com a careta, como dizia o povo, porque se arreda dos Mandamentos e dos verdadeiros ensinamentos que estruturam, pelo menos em teoria, a religião que jura defender e que pretende afirmar como a única séria e a seguir no seu — e nosso — mundo, sem dó nem piedade. Essa religião indica quase tudo aquilo que ele não segue, mas ele jura que respeita e cumpre.
O político André, Ventura de sobrenome, reivindica para si a condição de líder da direita em Portugal. No entanto, não pode. Que exista alguém que lhe diga que, quando muito e enquanto os interesses escusos de alguns o permitirem, é chefe da extrema-direita — o que é diferente, porque uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.
A civilização não se confunde com a barbárie; a tolerância não se confunde com a intolerância; os valores sérios não se confundem com valores não recomendáveis; a liberdade não medra na presença de machados que cortam a raiz ao pensamento; e a democracia não vinga quando se afirma que quem pensa diferente assume a forma do mafarrico.
No fundo, bem se pode dizer que a desventura política — não a pessoal — de André será a ventura do nosso país.