Antigamente, ainda não muito, havia os largos. Cada aldeia, cada vila, cada cidade e cada país tinha o seu largo, isto, obviamente, podendo considerar-se que, num determinado país, poderia haver mais do que um. Desde as primeiras cidades, desde as primeiras urbes criadas na Mesopotâmia e na Grécia, muitos anos antes de Cristo, muitos mais do que depois Dele para cá, os cidadãos começavam por construir um templo, um edifício do Poder comum e oficial, exercido pelos poucos escolhidos ou impostos, e tudo o resto florescia em círculo a partir desse núcleo.
O crescimento era feito de forma centrífuga, dando lugar a aglomerados construídos ao redor, mas sempre com a influência de forças centrípetas que faziam com que tudo confluísse para o centro. O largo criado em volta do largo sugava para dentro de si todas as pessoas que viviam ou que estavam ocasionalmente na cidade, chamada Pólis pelos sábios gregos que nos legaram boa parte das estruturas da nossa civilização.
Por essa via, e durante séculos, se foi criando e fortalecendo a noção de pertença e as competências da cidadania, com direitos e com deveres. Os humanos elevam-se — e elevam-se muito — para além do básico e material, sentem necessidade de, individualmente, se identificarem com um coletivo efetivo ou simbólico e, por isso, arranjaram e arranjam símbolos unificadores que permitem a noção de grupo, conforme as ideias, os desejos, as raivas e os objetivos, derivadamente disso, comuns. O simples facto de se passar ou de se parar no largo era o cimento estruturante da cidadania. Era ali que se conversava, que se sabia da vida de uns e de outros, mais ou menos próximos, mas, essencialmente, era no largo que se aprendia e se ensinavam os temas e os assuntos abrangentes.
No largo, podia suceder entrar-se com uma opinião e vir-se de lá com mais umas tantas. Discutia-se, dissertava-se e apelava-se. Como um rio subterrâneo, o saber fluía, as novidades ancoravam e, que nem peixes, vinham para a tona, para maravilhar ou para chatear. Os assuntos comuns, nomeadamente os políticos, eram analisados, criticados e/ou aplaudidos. Havia confronto, havia escuta, havia a possibilidade — ainda que nem sempre aproveitada — de alguém sair dali com uma ideia diferente daquela com que tinha chegado.
No entanto, como comecei por aludir, nas voltas e nas mudanças advindas das dinâmicas, em Portugal já não é assim. Este retrato já está nas gavetas das recordações, sem que faça efeito. No delineamento das nossas cidades, não se soube ou não se quis, porque valeu mais assim para certos e mais imediatos interesses, respeitar a existência do largo. Os aglomerados de prédios mal feitos, mas plenos de pretensões de modernidade saloia, aumentaram sem ter em conta o garantir da simbologia e da concreta influência dos ditames de construção sabidos pelos nossos ancestrais, que sabiam muito acerca do que lhes estava ao pé para fazer nascer ou para fazer crescer. Viam com olhos que não tinham limite, apesar dos contrafortes por entre as muralhas.
A nós, portugueses, calhou-nos a má sorte de, nos anos oitenta do século XX, na época do enorme empurrão por causa dos fundos europeus que jorravam diariamente a bom jorrar, termos ao leme gente encantada com as novas realidades, mas curta de visão e de discernimento. Os campanários das paróquias mentais, a tocar rezas a cada quarto de hora, nunca deixaram de se ouvir entre os montes e os vales que nos desenham o ser. Crescemos, construímos, modernizámo-nos, mas, no meio dessa pressa, fomos deixando cair algumas das coisas que não pareciam necessárias à modernidade e que, afinal, eram essenciais à vida em comum.
Ficando-nos pela região que nos faz estremecer a alma, a nossa, facilmente podemos ver que, nas aldeias e nas vilas, não existem largos, aqui no sentido figurado. Quando muito, existe um ou outro café que, entre os tremoços comidos e as cervejas bebidas, faz tenuemente esse papel, entre discussões infrutíferas porque cada um é dono da opinião exclusivamente certa. Já não existe o espaço onde se chega sem pressa, onde se fica porque se encontrou alguém, onde uma conversa começa por coisa nenhuma e acaba, muitas vezes, por falar de tudo.
Deixaram de existir pontos de encontro. Nada flui para nada, mas tudo, pode dizer-se, para o centro comercial de Vila Real, onde aporta e onde se passeiam pessoas dos quatro cantos dos limítrofes sitos em Trás-os-Montes, no Douro e na Beira mais próxima do rio Douro. O problema é que de nada adianta no que concerne ao efeito do “largo”. Ali se trocam uns olhares e se dão umas mãozadas ou uns beijos em jeito de cumprimento, mas nada mais, a não ser saber acerca da saúde de cada qual e das pequenas voltas que a vida dá. É um lugar de passagem, de consumo, de encontro ocasional. Falta-lhe, porém, aquilo que fazia do largo uma coisa diferente: a permanência e a conversa.
Quem não colocou de lado a noção de largo foram, por exemplo, os espanhóis, que cada vez mais sabem aproveitar aquilo que temos de bom. Todas as cidades espanholas mantêm o seu largo, que é diariamente frequentado, faça chuva ou faça sol. Aqueles fulanos e fulanas pelam-se por ir, depois da labuta, até ao largo da terra, para conviver, para merendar, mas, antes de tudo, para falar. São uns tagarelas. No entanto, sabem com quantos paus se faz uma canoa e conseguem sentir uma noção de pertença e de patriotismo que está muito para lá da mera emoção nascida nas voltas que o esférico dá nos relvados.
Talvez seja isso que nos falte. Não necessariamente o largo de pedra, com a igreja, o pelourinho, a fonte ou os bancos de jardim. Falta-nos o lugar onde uma comunidade se reconhece como comunidade. O espaço onde as pessoas se encontram sem terem necessariamente alguma coisa para comprar, para vender, para resolver ou para consumir. O lugar onde a palavra circula e onde, por vezes, uma opinião pode encontrar outra e, desse encontro, nascer uma terceira.
Digo eu.
Não sei, não me indo sem deixar de dizer que essa emoção vale muito, mas advém de algo que é o mais importante entre as coisas com pouca importância.