No Douro, já se lavam os cestos. Como sabemos, muito mais cedo, porque o calendário agora conta menos no processo de amadurecimento das uvas e, dado isso, acabado que é de tomar a sua vez no passar das estações, o outono encontrou os mostos a fermentar para que se transformem em vinhos de exceção. A natureza ajudou, e os homens lá foram comprimindo, a custo, nos granjeios.
No entanto, pela primeira vez desde sempre ou, pelo menos, desde há décadas, pouco se sentiram e sentem os festejos próprios da época. Os rapazes e as raparigas pouco cantam e redopiam e, aos homens dos cestos e aos patrões, falta-lhes o pavio que faz reluzir o brilho nos olhos.
Nas tarefas de se cortarem e recolherem os cachos, não faltou o som do silêncio, entrecortado pelo barulho dos cliques das tesouras de vindima, agora modernas do mais que existe, ao percorrerem-se as valadas com gestos rápidos de afago no produto final, que urge separar das vides condutoras de alimento, para sustento de quase todos nós.
Pelo que notei, noto, senti e sinto, a Vindima deste ano da graça de Deus Nosso Senhor de 2026, quase tricentenária desde que o Douro foi organizado, foi uma vindima sorumbática, porque, ao pé de cada videira, se sente que o chão foge e porque, ao cheirar cada mosto no lagar, se sente um desânimo e uma inquietação perante o caminho que se estreita, ao imaginarem-se veredas que vão dar a lugar nenhum.
Se fosse possível transformar a falta de esperança em líquido, quase não seria necessária muita água para se lavarem os cestos e os demais vasilhames utilizados na safra desta campanha do nosso descontentamento, apesar do sol que teima em brilhar como se fosse dele o comando das coisas nas dinâmicas de mudança das condições atmosféricas.
Bem sabemos que, nas últimas três décadas, não tem havido vindima em que se não tenha dito que não faltavam motivos para aperreios e que a atividade não dava para os gastos do granjeio, mas, desta vez, parece-me que batemos cruelmente na realidade que, por heroicidade, por paixão, por recusa consciente das coisas e das loisas, por tradição e por teimosia, nos temos escusado a discutir e a encarar.
Temo-nos limitado a queixar. Ou são “os outros” que são gananciosos, ou são os governos que nos esquecem. Continuamos a empobrecer alegremente, dando razão a quem disse que, para se atingir uma pequena fortuna no mundo do vinho, tem de se começar por uma que seja grande. Tendemos, por razões que a História explica, a querer que alguém haja, que legisle e que resolva.
Ao mesmo tempo, teimamos em não nos organizarmos como classe que produz, seja implementando um organismo que congregue, que pense, que encontre soluções para as diversas situações, que disponibilize serviços, que receba e canalize reivindicações, que exija que todos cumpram o seu papel dentro da fileira, ou fora dela, através das competências legais estabelecidas.
Custa-nos a perceber que estamos todos no mesmo barco, inclusivamente aqueles que não vivem diretamente da vinha e do vinho. Custa-nos a entender que não vale mais sozinhos do que mais ou menos mal acompanhados; custa-nos a concluir que, num mundo em que a escala é essencial, não se pode andar a correr para vender uma ou duas dezenas de milhar de garrafas, em que cada rótulo faz de capa ao melhor vinho do mundo.
Nem se percebe sequer por que é que, com teimosia, com sobranceria ou com falta de noção, continuamos a menosprezar as cooperativas, vendo-as como próprias para os filhos de deuses menores, sem dimensão ou sem desejos de subir nos patamares da vida, apesar de elas serem a mais inteligente maneira de se ganhar dimensão pessoal e coletiva pela soma das partes.
Neste ponto, e com muita pena minha, vou fechar a torneira por onde escorre a tinta para o escrito, pois não convém estender-me por aí além, para não abusar do espaço e da paciência de quem faz o favor de me ler. Mas continuaremos até que nos doam os dedos e enquanto houver estrada para continuar, pois diz-nos o sentir que não podemos parar.