Manuel Igreja

Manuel Igreja

A Democracia Esbardalhada

                                             

Quando uma pessoa pensa que aqueles que querem fazer a nossa democracia esbandalhar-se, para que se torne uma memória, à semelhança de outras de tempos idos, como na Grécia e em Roma, já caíram no fundo por tantas maldades que lhe fizeram, chegamos à conclusão de que, afinal, existe sempre mais um alçapão.

Por exemplo, nos Estados Unidos da América, durante quase um século um farol impulsionador e orientador das democracias liberais do mundo ocidental, estão a passar-se por lá coisas que raia[m] a muita maldade, e mesmo a insanidade mental, por mor dos desvarios de um presidente sem tino, mas muito fino para o que lhe convém, pois atinge sempre, sem olhar a meios, os seus objetivos.

Aquilo por lá, com consequências maléficas para todo o lado, tem sido um autêntico circo, com o palhaço convencido e cheio de si mesmo a ocupar o palco, fincando os pés para que lhe dure a festa até que o pano caia, ao que tudo indica, infelizmente, sem que haja tempo para aplausos.

Em desespero de causa, por estar a ver o chão a fugir-lhe debaixo dos pés, por via da derrota eleitoral que se avizinha e de que se adivinha o desfecho, tantos são os desmandos e tão visível está a ser a sua condição de taralhouco, num comício, perante os seus tão ou mais alienados apoiantes, prometeu dar cinco mil dólares a cada americano em caso de vitória do seu partido. Mas, melhor ainda, garantiu a ida inquestionável para o inferno daqueles que não se derem ao trabalho de ir votar, recomendando mesmo que se fizesse batota.

Como será bom de ver, para quem isto afirma e para quem isto aplaude, a democracia são balelas, orientadas por regras escritas com giz num quadro de ardósia, facilmente esquecidas e apagadas, porque a memória e o conhecimento acerca do que significa a sua ausência são cada vez mais uma realidade nesta nossa época em que não há tempo para dar ao tempo.

No entanto, não é somente a questão do conhecimento e da memória aquilo que explica o avanço das ervas daninhas no campo da democracia. Infelizmente. Pelo que se está a ver, quem a tem e dela usufrui não cuida dela, unicamente porque tem mais em que pensar e porque vive com as prioridades trocadas, devido à falta de condições de presente e de futuro condignos. A visão que antes se estendia pelas pradarias da vida esbarra agora nos muros que cerceiam as ambições e aumentam os medos.

Não vale a pena queimar pestanas e consumir tempo a procurar explicações. Pura e simplesmente, a democracia liberal deixou de dar e de garantir respostas para os anseios e para a segurança nos modos de vida. A sociedade do bem-estar, a nossa, demorou cento e cinquenta anos — desde a Revolução Industrial até aos anos cinquenta do século passado —, mas não soubemos, ou não quisemos, encontrar respostas para os desafios que começaram a surgir no dealbar deste século.

Olhando em nosso redor, em Portugal e na Europa que nos couberam em sorte para viver, pressente-se o perigo. Pode estar a despontar um novo mundo, em que a liberdade de pensar e de votar não contam, desde que nos digam que nos asseguram o modesto viver, vociferando contra ventos e marés e prometendo os novos amanhãs que cantam.

Não mais despontaram líderes cientes e coerentes, Estadistas convictos de antes quebrar que torcer, nem políticos com ideias e cientes do caminho a seguir, sem considerar as bússolas ilusórias das sondagens diárias. Estes, por serem gente de poucochinho, tratam-nos como tolos a quem prometem bolos.

Por isso, e não só, a democracia mirra. Não acredita? Atente e olhe em volta.



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