Manuel Igreja

Manuel Igreja

O meu Bisavô Genésio

Não devia ser de se recomendar, o meu bisavô Genésio. Não o conheci, mas, segundo o que dele contam as minhas tias, era um alma do diabo truculento mais desordeiro que mil diabos.

Sempre que bebia de mais, coisa que nele era habitual, contam, tornava-se num vendaval à solta, capaz de levar tudo à frente do seu fueiro, fiel companheiro de idas e de vindas, feitas de brigas constantes, nem que fosse por “dá cá aquela palha”.

Ensandecido pelos vapores e sabores etílicos, eram um homem do vinho, mas também, um homem de vinho. Era proprietário de uma quinta, mas dedicava às coisas da lavouro pouca ou nenhuma importância. Diariamente, puxava-lhe para se meter com alguém ou com alguma coisa, nem que fossem os companheiros de desatino ou as pedras do caminho.            

A coisa era de tal forma, que a minha bisavó Maria, foi elevada pelo povo ao patamar de Santa, por causa dos tantos padecimentos que ele lhe causou. Oriunda de uma família com algum de seu da cidade de Lamego, casou com ele, e sofreu pacientemente as agruras provocadas pelo fistor.              

Como disse, era pessoa com consideráveis posses o meu bisavô, sob a forma de uma propriedade agrícola que, não sendo um “marão” de terra, dava para proporcionar uma vida afastada da miséria mais imediata, num tempo em que a fome campeava por entre o campesinato que mourejava de sol a sol.                                                                                                               

A Quinta de S. José, era e é assim que se chamava e chama, fica à entrada da aldeia na extrema do Douro vinhateiro com a Beira Alta. Naquele tempo, granjeava-se nela o vinho, semeavam-se e colhiam-se as batatas, o milho, o trigo, a cevada, e tudo o mais de que são feitas as hortas.

Ainda existe, agora em ruínas, como sempre a vi. Pelo que sei, quando foi a arrematação pública, para saldar dívidas, foi adquirida por um outro proprietário que teve o gosto de a oferecer à sua esposa como prenda de casamento. Quando lhe passo em frente, não há vez em que me não venha à dia o meu desatinado bisavô, por quem apesar de tudo, sinto um certo encanto pro o ver como alguém próprio das páginas de um romance.         

Como já perceberam, não lhe dava para o trabalho, assim como a mais uma boa meia dúzia de compinchas de “vida airada” e de ramboias. Acordavam curados, famintos e sedentos, ao ponto de a sua primeira conversa, fosse para decidir onde ir petiscar pelo meio da tarde. Julgo eu, que de manhã, deviam dedicar-se a ouvir o canto dos melros de bico amarelo, como eles.

Pela tarde, faziam-lhes aflição as pipas com vinho e os salpicões e presuntos pendurados nas lareiras ou guardados nas lojas. Seria sentido como uma sina, mas não descanavam enquanto não os faziam desaparecer, possivelmente entre jogatinas e outras coisas que tais.

No entanto, não deviam durar muito estes entretimentos. Vinham para rua para fazer pandemónios. Arranjavam pretextos para andar aos socos e ponta pés em quem se lhes aparecesse pela frente. Aliás, ouvi mesmo dizer que, na falta de terceiros, batiam neles próprios, entre si, para que a morrinha se não instalasse e se não ouvissem as moscas e os moscardos.                                                                                                                                            

Não sei o que lhe dava, mas era assim. Dizem que um certo dia, vindo da feira quinzenal da vila, a cavalo ou a pé, não sei bem, decidiu parar na aldeia de entremeio para entrar na taverna. Deu a devida saudação aos presentes, bebeu o que lhe apeteceu, enquanto olhava e era olhado de soslaio. A sua fama já viria de longe, digo eu.

Num sem que se não adivinhasse, trancou a porta, arregaçou as mangas, e desatou a bater neste e naquele como se lhe devessem dinheiro ou lhe houvessem espalhado má fama. Supunha, dava como certo, e pagava-se pela difamação imaginada ou feita pretexto para lhe acalmar o sangue fervente.

Um contra vários, o seu corpo não deve ter ficado em bom estado, mas o chamamento era mais forte do que ele. Fosse como fosse, no dia seguinte era outro dia, pelo que outras aventuras e desmioladas desmandas, haveriam de acontecer, para que dar mais um pouco de sal ao viver.

Por exemplo, e esta não pode passar sem menção, são as jornadas à arqui-inimiga aldeia vizinha situada a meia encosta do outro lado, com o rio Varosa a correr lá ao fundo ao encontro do rio Douro, para seguir nele seguir encavalitado até ao mar, com o ponto de encontro no Porto.

Dava-lhes para isso e iam correr à pedrada, os vizinhos que sossegadamente estavam em suas casas ou na rua. O doutor Silva, um advogado ladino com casa de residência na aldeia, incentivava o guerrear prometendo o seu apoio em tribunal, e não paravam as escaramuças enquanto não vissem os desafetos a correr até ao vale com se fossem molhar os pés nas águas do rio.           

Eram os entretantos em que não respeitava nada, este meu antepassado. Muito menos a minha bisavô Maria, que também já não conheci. Mas pelas fotos, posso jurar que era uma linda senhora, assim como a minha avô Filomena, sua filha, que conheci bem e muito amei. Não duvido que ambas, eram de encher a alma com a sua bondade.

À minha visavó, como referi, causou-lhe mil martírios. Quando regressava ébrio até mais não poder, a casa, punha-se aos berros para que ela fugisse dele. Tinha para ele que não se controlaria, e que lhe daria um sova. E dava, o estupor. Só para verem o jaez do senhor Genésio, uma certa vez que a sua mulher se atreveu a considerar que o vinho tinha si vendido muito barato, foi-se ao lume e queimou as notas, dizendo que assim é que o preço era mesmo barato.

Como se depreende, não acabou bem este meu bisavô, que, diga-se já, agora para alguma justiça perante si, que teve ímpetos para se envolver na turbulenta política daquele tempo. Era um republicano convicto, que nunca hesitou em participar em reuniões e em comícios, eventos que, como se sabe, eram quase sempre capazes de causar raios e coriscos como o meu bisavô gostava.          

Desbaratou tudo e mais o que houvesse. Acabou os seus dias em casa de um filho, o meu tio Benjamim. Perante o facto de haver em casa algumas pipas com vinho, não passou sem convidar os amigos para de oras em quando, irem matar a sede à pipa que estivesse mais ao jeito.

Finos, arranjaram uma artimanha para que se não percebesse. Com palhas, abriam o batoque na parte de cima da vasilha, chupavam e o vinho escorria a bom escorrer, parecendo à primeira vista que tudo estava intacto. Entrava ar e saía vinho, mas não parecia.                                                                                                        

Por parecer. Sei bem que o meu bisavô Genésio assim pintado parece um maltez e um valdevinos, mas, não sei, sinto que lá no fundo, era boa pessoa, só que a andava em constante luta com os demónios que lhe atazanavam a cabeça e o não deixam sossegar, numa época fria e bruta em que o sol ainda não despontava para brilhar e deixar ver aquilo que a alma sente, mas a vista não alcança.             


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