O corpo do Maestro Jan Novak flutua no espelho de água do parque de Vidago e o pânico instala-se entre a elite transmontana. Quem será o verdadeiro culpado?
Capítulo II: O Acorde Interrompido
O grito que esgaziou a noite de Vidago não partira de uma criada sobressaltada, mas sim da boca habitualmente imperturbável da Baronesa de Vila Pouca. Madame Joséphine, cujo instinto transmontano raramente falhava, precipitou-se pelas portas de vidro do hotel em direção ao parque botânico, com os saltos a ecoar ritmados no pavimento de pedra. Antoine seguiu-a de perto, estreitando o bloco de esboços contra o peito como se empunhasse uma arma de defesa.
A escassa iluminação dos candeeiros de ferro fundido desenhava silhuetas fantasmagóricas nos caminhos ladeados de sequoias e cedros seculares. Junto ao pavilhão da icónica Fonte Vidago II, a Baronesa encontrava-se petrificada. A sua valiosa caixinha de rapé, em ouro lavrado, jazia esquecida na lama. Com uma mão enluvada que tremia violentamente, a aristocrata apontava para o espelho de água.
Lá dentro, flutuando entre os reflexos da lua outonal, repousava o corpo do Maestro Jan Novak. O seu casaco de veludo escuro assemelhava-se a uma enorme mancha de tinta na água outrora límpida. Tinha os olhos abertos, fixos no céu estrelado de Trás-os-Montes, e as mãos — aquelas mãos virtuosas que tanto encantavam Paris e Varsóvia — encontravam-se rigidamente contraídas, com os dedos retorcidos num último espasmo de agonia.
— Mon Dieu... Jan! — sufocou Antoine, empalidecendo ao reconhecer o amigo de longa data.
Madame Joséphine aproximou-se da margem com passos medidos. O seu olhar analítico captou imediatamente um pormenor perturbador: embora as extremidades dos dedos estivessem azuladas pela cianose, a pele do rosto mantinha uma tonalidade estranhamente rosada. Ao inclinar-se, um subtil aroma a amêndoas amargas misturou-se com o vapor tépido da água.
— Não lhe toques, Antoine — ordenou Madame Joséphine. A sua voz, firme e fria como o gelo, cortou o pânico que ameaçava instalar-se. — Isto não foi um acidente. O Maestro foi envenenado.
O rebuliço no parque atraiu os restantes hóspedes e funcionários. Minutos depois, o silêncio da vila era quebrado pelo galope apressado de duas montadas. O Cabo Maximino, da Guarda Nacional Republicana, surgiu na alameda principal, ajustando o seu severo chapéu de três bicos e exibindo o fardamento solene de gola fechada, com botas altas reluzentes. Homem da terra, habituado a resolver tricas de gado e disputas de estremas em Chaves, o Cabo desmontou com uma rigidez militar que tentava camuflar o evidente nervosismo perante a elite ali reunida.
— Alto lá! Ninguém se mexe! — exclamou o Cabo Maximino, ajustando a bandoleira da sua carabina e batendo com os calcanhares. — O que se passa aqui, Senhor Diretor?
— Um drama sem precedentes, Senhor Cabo! — balbuciou o Diretor do Hotel, limpando o suor da testa com um lenço de seda. — O Maestro Novak... faleceu nas nossas águas!
O Cabo Maximino aproximou-se do cadáver com aspeto severo, retirando do bolso um pequeno caderno e um lápis de grafite. Olhou para o corpo na água e, depois, para os presentes.
— Afastem-se todos. Por ordens da autoridade, o hotel fica selado até ordem em contrário. Ninguém entra e ninguém sai de Vidago — decretou o militar, ordenando ao seu soldado que guardasse a entrada do parque. — O Senhor Doutor José Martins, como consultor clínico do estabelecimento, faça o favor de examinar o finado para lavrarmos o auto de notícia.
Madame Joséphine deu um passo em frente, cruzando os braços com uma elegância cortante. O seu olhar fixou-se no Dr. Martins, que acabara de chegar ao parque, tentando passar despercebido atrás do Dr. Acácio Brandão.
— Receio que o Doutor Martins não seja a pessoa mais adequada para tocar no corpo, Senhor Cabo — declarou Madame Joséphine, fazendo com que todos os olhos se voltassem para ela.
— E por que razão diz isso, minha senhora? — perguntou o Cabo Maximino, franzindo o sobrolho, desconfiado daquela mulher de sotaque e trajes parisienses.
— Porque minutos antes do crime, o Doutor Martins esteve envolvido numa acesa discussão com a vítima no ofício do hotel. E, se o Senhor Cabo examinar as mãos do médico neste exato momento, verá que elas tremem mais do que as da Baronesa.
O Dr. José Martins recuou um passo, com a face lívida.
— Isso é falso! É uma calúnia! — gaguejou o médico, ocultando as mãos nos bolsos do casaco. — Eu... eu apenas lhe dei a sua medicação habitual para o reumatismo antes do serão!
— Uma medicação que ele nunca chegou a tomar no salão, mas cujos efeitos parecem ter sido fulminantes aqui no parque — retorquiu Madame Joséphine, implacável.
O Cabo Maximino, pressionado pela lógica evidente da escritora, confrontou o clínico:
— Senhor Doutor, acompanhe-me imediatamente ao seu gabinete. Vamos revistar os seus frascos e poções. Se a senhora escritora tem razão, o assunto passará para o foro do Juiz de Instrução de Chaves.
O passado sombrio do Dr. Martins em Alvites e a discussão no ofício apontavam a autoria do crime diretamente para o consultor clínico. Contudo, uma hora mais tarde, enquanto o Cabo Maximino revistava metodicamente as gavetas do consultório sob o olhar atento de Madame Joséphine, o soldado da GNR entrou apressado. Não vinha do gabinete do médico, mas sim dos aposentos particulares da Baronesa, nas traseiras do hotel.
— Senhor Cabo! Veja o que encontrámos escondido no cesto de lixo dos aposentos da Baronesa de Vila Pouca — anunciou o soldado, estendendo um pequeno frasco de vidro escuro, com um rótulo francês onde se lia claramente a palavra Cyanure.
O Dr. Martins respirou de alívio, enquanto a Baronesa, ao fundo do corredor, soltava um suspiro sufocado. As certezas do Cabo Maximino desvaneceram-se num piscar de olhos. Se o veneno estava com a aristocrata, quem era, afinal, o verdadeiro monstro de Vidago?