Teresa A. Ferreira

Teresa A. Ferreira

Madame Josephine: o Enigma de Vidago (CAP I)

Após o aclamado sucesso de "Madame Josephine: Casamento em Alvites", publicado nas páginas deste jornal, a nossa arguta e elegante escritora transmontana radicada em Paris está de regresso. Depois de desvendar os segredos e as falsas aparências que ensombraram o solar de Alvites, em Mirandela, Madame Josephine e o seu fiel consorte, o pintor Antoine, procuram o repouso merecido nas prestigiadas termas do Vidago Palace Hotel. Contudo, o passado recusa-se a ficar sepultado. Acompanhada por algumas figuras cujos caminhos já se cruzaram na intriga anterior — como o ambíguo Doutor José Martins —, a nossa protagonista ver-se-á envolvida num novo e sofisticado quebra-cabeças no coração de Trás-os-Montes. Preparem os vossos espíritos: o Enigma de Vidago está prestes a começar, e neste cenário de luxo, cada sorriso esconde uma heresia e cada silêncio, um crime.

Capítulo I: Correntes Turvas

A viagem de Paris até Portugal fizera-se com a pompa e a minúcia que a educação irrepreensível de Madame Josephine exigia. O imponente descapotável — um topo de gama Jaguar XK120 Drophead Coupé de um brilhante tom creme — fizera o percurso europeu resguardado num vagão-plataforma atrelado ao Sud Express [SUD EXPRESS de PARIS a LISBONNE et ESTORIL], cruzando a fronteira de Vilar Formoso enquanto o casal desfrutava do conforto das carruagens-cama. Contudo, fora ao desembarcarem o automóvel na estação ferroviária de Peso da Régua que a verdadeira aventura começara. Antoine assumira o volante e o motor de seis cilindros rugira ao enfrentar as curvas exigentes da Estrada Nacional 2, subindo as encostas escarpadas do Marão e cruzando Vila Real em direção ao Norte. O Jaguar cruzara finalmente os portões de ferro do Vidago Palace Hotel ao final de uma tarde outonal, rasgando o tapete de folhas douradas que cobria a alameda dos bosques.

— Ah, mon amour, regarde! — exclamou Antoine, ajustando os óculos de leitura e apontando com o seu pincel de bolso para a fachada imponente do palácio. — Que arquitetura feérica! A luz que bate nestas colunas tem a tonalidade exata de uma aguarela de Monet. Os médicos de Paris tinham razão: estas águas vão curar a minha estafa e o meu espírito irá rejuvenescer na tua terra natal!

Madame Josephine sorriu com o canto dos lábios, o seu olhar de lince registando cada detalhe do pátio: as bagagens de cabedal dos hóspedes ilustres, a postura engomada dos jovens bagageiros fardados e o sussurro contido das matronas na varanda. Envergava um conjunto de viagem em tons de verde-musgo, desenhado na Maison Chanel, luvas de pelica imaculadas e um chapéu que desafiava a severidade da província com um toque de audácia parisiense.

— Fico feliz pelo teu entusiasmo, Antoine — respondeu Josephine, a sua voz musical e firme captando a atenção de um grupo de académicos que conversava perto da entrada. — Mas lembra-te das recomendações do Dr. Lambert: o tratamento termal exige rigor. Nada de pintar até altas horas da madrugada, medicação antes das refeições e as tuas caminhadas diárias no parque botânico. Vim a este Congresso de Letras para proferir o discurso de abertura sobre a virtude no romance, não para cuidar de um pintor rebelde.

— Oui, ma reine, serei um santo... um santo com uma paleta de cores! — prometeu Antoine, beijando-lhe a luva com a sua habitual ternura e um sotaque parisiense que ainda derretia a esposa ao fim de tantos anos de cumplicidade.

O Vidago Palace fervilhava. A Academia de Letras de Portugal organizara ali o mais exclusivo conclave literário daquela conturbada metade de século. O pretexto oficial era a elevação moral e cultural da literatura ibérica, mas a prática, como Josephine bem sabia, era uma passarela de vaidades e tricas políticas de um regime que vigiava cada palavra.

Ao entrarem no salão nobre, o Diretor do Hotel, um homem de uma fidalguia polida, desfez-se em vénias:

— Madame Josephine! É uma honra sem precedentes receber a nossa mais ilustre escritora radicada em Paris. A sua suíte com vista para as fontes já está preparada. Permita-me apresentar os vossos companions de tertúlia para este serão.

Madame Josephine ajeitou a sua postura aristocrática, elevando suavemente o sobrolho esquerdo. O tabuleiro de xadrez estava montado e as personagens daquela corte requintada começavam a revelar-se:

• O Dr. Acácio Brandão: Um influente alto funcionário de um Ministério lisboeta, homem culto mas de uma soberba cortante, que usava o congresso para vigiar os intelectuais e garantir o alinhamento com o Regime. Olhava para o progresso com olhos de ganância.

• O Maestro Jan Novak: Um pianista polaco de renome internacional, cuja pátria ficara agora do outro lado da Cortina de Ferro. Amigo de longa data de Antoine, viera a Vidago "passar as águas" para tratar o reumatismo nas mãos, carregando no olhar a melancolia de um exilado.

• A Baronesa de Vila Pouca: Uma aristocrata transmontana da velha linhagem, que exibia uma rigidez moral severa e vigiava a sala de chá com o rigor de um tribunal — uma pose altiva que muitos sussurravam ser a sua armadura contra os velhos falatórios da província. Trazia sempre consigo uma caixinha de rapé de ouro e um colar de pérolas que pertencera à última rainha de Portugal.

• O Dr. José Martins: Para surpresa de Madame Josephine, o médico que outrora passara os placebos a Filipe em Alvites reaparecera ali, agora como consultor clínico das termas de luxo de Vidago. O homem empalideceu ao cruzar o olhar com a escritora.

— O mundo é deveras pequeno, Doutor Martins — comentou Madame Josephine, com um humor fino e certeiro que gelou o médico. — Não sabia que as águas de Vidago também atraíam especialistas em... maleitas invisíveis.

— A ciência evolui, Madame... — balbuciou o médico, retirando-se apressadamente em direção à copa.

O serão literário daquela noite seria dedicado a um concerto privado do Maestro Novak, seguido de um debate sobre a honra na arte. O clima era de uma elegância soberba, mas Madame Josephine, dotada de uma inteligência fora do comum, sentia que por trás dos sorrisos falsos e dos brindes com água termal gasosa, corria um enredo sombrio. Havia pedras nos sapatos daquela alta burguesia. E ela estava ali para ler nas entrelinhas.

O salão de leitura do Vidago Palace, com as suas sumptuosas paredes revestidas a painéis de madeira rica e veludo bordeaux, exalava o aroma aristocrático do tabaco de cachimbo e do papel timbrado. Sentada numa imponente cadeira de baloiço perto da lareira, Madame Josephine folheava as notas do seu discurso de abertura. Adotara aquele nome em Paris para harmonizar com o do seu Antoine, mas a verdade é que, sempre que desembarca o carro na Régua e subia a EN2, o sopro agreste daquelas montanhas recordava-lhe a infância no solar de Alvites, em Mirandela. Aquela dupla identidade — o requinte parisiense e a têmpera transmontana — dava-lhe uma vantagem única: sabia ler a alma humana como ninguém.

Antoine, instalado numa mesa circular ali perto, debruçava-se sobre um bloco de esboços, tentando captar a curvatura exata das janelas neoclássicas do hotel.

— Mon amour — murmurou ele, sem levantar o lápis —, reparaste como o Dr. Acácio Brandão não para de olhar para o relógio de bolso? Um homem de cultura não mede o tempo com tanta avareza durante um serão literário. É... bizarre.

Madame Josephine fechou o seu caderno com um discreto clique de mola. O seu olho vivíssimo já tinha registado a inquietação do político de Lisboa.

— O Doutor não procura a cultura, Antoine, procura a aclamação — respondeu ela, com o seu humor fino e certeiro. — E, se a minha intuição de escritora não falha, ele traz na pasta de couro algo mais pesado do que meros discursos sobre a moral do Estado.

Nesse instante, a Baronesa de Vila Pouca aproximou-se, o seu longo vestido de seda preta a sussurrar contra o tapete persa. Erguendo a sua caixinha de rapé de ouro, olhou para a escritora com uma admiração reservada, típica da velha fidalguia regional que não se entrega ao primeiro cumprimento.

— Madame Josephine — começou a Baronesa, com uma elevação moral na voz que impunha respeito. — Li o seu último romance-mistério editado na capital francesa. Devo dizer que a sua capacidade de expor as fraquezas da burguesia sem perder a compostura é... admirável. Mas diga-me, o que a traz verdadeiramente a Vidago? Uma senhora do seu gabarito não viaja semanas apenas para ouvir os enfadonhos discursos da Academia.

Madame Josephine sorriu, uma expressão de pura inteligência iluminando-lhe as feições.

— Venho em busca da verdade, Baronesa. A literatura é apenas o espelho que uso para a refletir. E parece-me que as águas termais de Vidago, embora puras, estão a esconder correntes muito turvas este outono.

Antes que a Baronesa pudesse responder, o som de um acorde dramático ecoou do salão nobre adjacente. O Maestro Jan Novak subira ao palco para testar o piano de cauda antes do concerto da noite. No entanto, a melodia de Chopin foi abruptamente interrompida por uma discussão em tom sussurrado, mas ríspido, vinda dos corredores da copa, envolvendo a voz rascante do Dr. José Martins.

Madame Josephine estreitou os olhos. Levantando-se num movimento fluído e silencioso, deixou cair as notas do discurso sobre a cadeira de baloiço e caminhou em direção à penumbra do corredor, guiada pelo seu instinto infalível.

Ao empurrar a pesada porta vaivém que dava acesso à zona de serviço, o sussurro cessou de imediato. A copa estava deserta, exceto pela silhueta do Dr. José Martins, que apoiava as mãos trémulas contra a bancada de inox, com o rosto pálido como o mármore das fontes. Ao ver a escritora, o médico deixou escapar um suspiro sufocado.

Segundos depois, vindo do exterior, do coração do parque botânico onde as fontes murmuravam na escuridão, um grito agudo de mulher cortou o silêncio da noite transmontana. No palco do salão nobre, o piano de cauda permanecia aberto, mas o Maestro Jan Novak desaparecera sem deixar rasto, deixando sobre as teclas uma única mancha fresca de sangue.

Continua...

Ⓒ Teresa do Amparo Ferreira, 25-09-2026
Escritora e Poeta.


Nota: Este texto é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência. 

Créditos da foto: José Gonçalves, Wikimedia Commons (Licença CC BY-SA 3.0).




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