Bragança vai receber cinco milhões de euros para requalificar o rio Fervença, mas continua a ser dos raríssimos municípios do país sem uma única praia fluvial oficial. Entre passadiços e repuxos de oxigénio que funcionam como perfume em doente sem consulta, uma reflexão acutilante sobre a urgência de usar a ciência local para limpar a água antes de se decorar a moldura.
O Banho que nos Negam: Entre a Cosmética das Margens e o "Olha mas não Biques"
Diz o povo, com aquela sabedoria típica que não se aprende nos livros, que não devemos julgar um homem pelo fato, nem um rio pelo verde das suas margens. Antigamente, os rios de Bragança eram como a palavra dada: limpos, transparentes e sem letras pequeninas. O Fervença, o Sabor e o Maçãs eram o nosso parque aquático natural, muito antes de inventarem o cloro. Mergulhávamos de cabeça, a água lavava-nos a alma e ninguém precisava de um manual de instruções ou de um repuxo artificial para saber que a corrente era boa. Tinha a limpidez da verdade.
Hoje, a nossa praça pública digital e os comunicados oficiais preferem focar-se na engenharia da ilusão. E bastaram vinte e quatro horas de notícias, em meados de setembro de 2026, para assistirmos a um autêntico choque frontal de realidades que daria uma excelente comédia de costumes, não fosse o caso de envolver o erário público.
O Choque dos Milhões e o Balde de Água Fria
Primeiro, veio o anúncio com pompa, circunstância e muitos zeros: quase cinco milhões de euros para requalificar 3,7 quilómetros do rio Fervença. Prometem-nos passadiços novos a passar pela Universidade de Bragança, zonas de lazer e um "refúgio climático" no Parque Verde da Coxa para quando o termómetro decidir imitar um forno e roçar os 42 graus. Um milhão vem da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e quase quatro do Norte 2030. Ficámos logo a imaginar-nos a passear elegantemente sobre a madeira tratada.
Mas eis que, no dia seguinte, o presidente da mesma APA decide estragar a festa e lançar um desafio que nos caiu como um balde de água fria (pena não ser do rio): lembrou, com toda a frontalidade, que Bragança é dos raríssimos municípios de Portugal que não tem uma única praia fluvial oficial.
A contradição é tão saborosa que merece ser mastigada devagar. Vamos gastar cinco milhões de euros no nosso rio urbano, mas a senhora Presidente da Câmara já veio admitir que, para fazermos uma praia fluvial a sério, teremos de fugir para o rio Sabor ou para a barragem da Castanheira? Ou seja: no Fervença podemos passear, mas não podemos mergulhar. É a institucionalização da velha política do "olha, mas não biques"!
Turismo do Suor e Perfume em Cuidado Intensivo
Estamos a especializar-nos em criar um turismo contemplativo único no mundo: o turismo do suor estival. Nós passeamos ao calor abrasador, olhamos para a água ali ao lado, mas se tivermos a ousadia de nos querermos refrescar, o melhor é levarmos um borrifador de casa. Gastamos milhões na moldura dourada, mas deixamos a tela em branco. Instalamos "arejadores de oxigénio" e repuxos luminosos nas águas do Polis — o que, convenhamos, equivale a pôr um perfume caro e maquilhagem num doente que precisa urgentemente de uma consulta de gastroenterologia. O repuxo é bonito, sim senhor, mas não cura o mal de fundo.
O próprio presidente da APA confessou que o rio tem "sintomas" de que não está bem. E nós, amparados pela ciência da nossa terra, sabemos perfeitamente que diagnóstico é este. Não se trata de adivinhação; trata-se de dados documentados. Os relatórios de monitorização e os estudos sobre o Índice de Qualidade da Água (IQA) do Rio Fervença, desenvolvidos por investigadores da Universidade de Brgança, são uma lição de realismo.
A ciência diz-nos, a preto e branco, que enquanto a água que corre a montante da cidade mantém uma qualidade assinalável, o cenário desaba por completo assim que o rio abraça a malha urbana. O colapso do índice de qualidade atinge o seu expoente máximo no infame "Ponto 5" das amostragens científicas: precisamente na zona a jusante, afetada pelas descargas da Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) e pelas pressões ocultas dos coletores da cidade.
São as velhas feridas que a comunidade aponta há anos: as descargas clandestinas feitas à luz da lua (porque o fel destila-se melhor na penumbra da cobardia) e uma rede que, de vez em quando, teima em pregar rasteiras ecológicas ao caudal.
A Honestidade da Paisagem
Uma praia fluvial com a almejada Bandeira Azul não nasce com passadiços de pinho nórdico nem com relva sintética. Nasce com água limpa. De que nos serve um "refúgio climático" de milhões se a única coisa que podemos fazer é olhar para a corrente e abanar a cabeça com saudades dos mergulhos da infância? Estaremos a construir passadiços suspensos só para conseguirmos ver a poluição urbana passar com uma melhor perspetiva aérea?
Exigir um rio limpo na sua essência não é má-fé; é amor a Bragança e uma elementar exigência de higiene pública. A senhora Presidente da Câmara, Isabel Ferreira, sublinhou convicta que, se tivesse de escolher um "projeto-bandeira" do seu executivo neste início de mandato, seria este. Contudo, não deixa de ser uma estranha acrobacia burocrática ver o município assinar uma verba de um milhão de euros com a APA e admitir, em simultâneo, que ainda não há um calendário claro de prazos ou datas de execução para a obra avançar. Ficamos num limbo: temos o donativo carimbado para a fotografia oficial, mas as soluções reais correm ao ritmo lento do caudal.
Para a bandeira não ficar manchada, o foco não pode ser apenas a cosmética das margens. O investimento a sério tem de ir à raiz do problema técnico: rastrear as origens dos efluentes, fiscalizar as linhas de água e garantir que o saneamento básico faz jus ao nome — ou seja, que é básico funcionar bem.
Nós gostamos de passear, claro que sim, mas gostamos ainda mais de honestidade na paisagem. Não queremos apenas um cenário bonito para tirar selfies ao calor de agosto. Queremos o rio por inteiro: na terra e na água. Que os cinco milhões limpem, de uma vez por todas, a alma do Fervença. Caso contrário, teremos os passadiços mais caros do país para ver passar um doente que, em vez de nos refrescar, só nos serve para dar um desgosto.