Teresa A. Ferreira

Teresa A. Ferreira

Mina da Borralha: O Barroso não se move pelo medo

O Barroso não se move pelo medo: move-se pela dignidade

Ler as páginas deste nosso jornal é, habitualmente, um exercício de cidadania e debate livre. Contudo, a recente crónica assinada pelo Diretor do projeto da Mina da Borralha exige uma tomada de posição que recuse a simplificação rasteira e o insulto velado. Classificar as legítimas inquietações da população de Montalegre como "mentiras", "alarmismo" ou "narrativas de medo" não é debater; é tentar silenciar quem tem a coragem de defender a sua terra.

Como cronista desta casa, recuso ver os meus conterrâneos e os movimentos cívicos tratados como uma massa desinformada. O debate sobre a mineração no Barroso não se faz entre o "progresso" e o "atraso". Faz-se entre a salvaguarda do futuro e o lucro imediato de entidades privadas. E as dúvidas da população não nascem de boatos: nascem da leitura atenta da nossa realidade.

Falemos de factos, então. Apresentar a exploração da Borralha como um projeto de "risco zero" para a água, baseado na infalibilidade de um circuito fechado industrial, é cientificamente incorreto. A própria Declaração de Impacte Ambiental (DIA) reconhece riscos e impõe condicionantes estritas para proteger as linhas de água. Se o risco não existisse, as exigências legais de monitorização não seriam necessárias. Manifestar preocupação com o destino da nossa água não é "propagar o medo"; é pura lucidez comunitária.

Importa também clarificar a narrativa do "altruísmo ambiental". O artigo a que respondo gaba-se de que o novo projeto vai recuperar o passivo ambiental deixado há 40 anos. Esquece-se de mencionar que a reabilitação das áreas afetadas é uma obrigação legal inegociável para a obtenção de licenças. A empresa não está a fazer um favor a Montalegre; está a cumprir o requisito mínimo legal para poder extrair o tungsténio e gerar o seu legítimo lucro empresarial.

Mas a questão central que o artigo omite é o saldo final que resta às populações quando as máquinas se desligam. O ciclo de vida destas explorações segue um padrão histórico bem conhecido: durante a fase de extração, os lucros legítimos vão para quem extrai e para os seus acionistas. Porém, quando o minério escasseia e a empresa se retira, o que fica efetivamente no território? Ficam enormes escombreiras à superfície, uma paisagem industrializada e cicatrizada pelas infraestruturas de apoio, além de riscos crónicos para a saúde humana e linhas de água que exigem vigilância eterna pelas escorrências de metais pesados.

Mais grave ainda: este modelo de desenvolvimento de curto prazo ameaça diretamente a economia sustentável que gera riqueza real em Montalegre todos os dias. O Barroso orgulha-se de ser Património Agrícola Mundial (FAO). A introdução de atividade mineira desta escala coloca em risco iminente esta classificação única, destruindo a reputação internacional que sustenta o nosso turismo de natureza e a venda de produtos alimentares locais de excelência. Quando a mina fechar e o desemprego regressar, os negócios tradicionais que foram asfixiados já não abrem as portas.

O interior de Portugal recusa ser sacrificado no presente sob promessas de um progresso que deixa a riqueza longe e os impactos ecológicos e económicos perto. A Borralha e Montalegre têm, sim, o direito de discutir o seu futuro com base na verdade. Mas na verdade inteira, e nunca na propaganda corporativa que tenta menorizar quem ama e defende a sua terra.

© Teresa do Amparo Ferreira, 10-08-2026

As fotos foram extraídas da página de Facebook de Clemência Barroso e referem-se à mina da Borralha, operada pela Minerália.





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