Teresa A. Ferreira

Teresa A. Ferreira

A Ilusão do Chão Limpo

A revelação de que as limpezas de terrenos são a maior causa de incêndios nas Terras de Trás-os-Montes deixa a nu o falhanço das políticas centrais. Entre multas cegas e motorroçadoras ao sol, uma reflexão acutilante sobre o erro de ignorar o mestre Gonçalo Ribeiro Telles e o saber dos antigos para rapar as nossas matas à força. Uma crónica para rir por fora, recordar por dentro e pôr, finalmente, as culpas nos cartórios da capital.

O Deserto das Lâminas: O Ministério que Ignora Ribeiro Telles

Conta-se nas aldeias da Serra da Nogueira e do Planalto Mirandês uma história antiga sobre um velho pastor que, ao ver um engenheiro da capital descer do jipe com mapas novinhos em folha, o ouviu criticar o aspeto "sujo" e bravio de uma encosta coberta de urzes, estevas e caruma acumulada. O técnico, imbuído de zelo burocrático e perfume de centro comercial, sentenciou: "Isto tem de ser tudo rapado até ao osso, senão arde". O velho, que guardava o gado naquele monte desde que se lembrava de ser gente, olhou para a terra, espetou o cajado no chão e respondeu-lhe com a calma dos antigos: "Se o senhor tirar a manta à cama no inverno, a cama não fica limpa; fica fria. E se lhe tirar a manta no verão, o sol racha a madeira".

O Paradoxo Transmontano: Quando a Lei Ateia o Fogo

A sabedoria cega dos gabinetes de Lisboa continua, contudo, a preferir o jipe e a caneta bic. Os dados recentemente revelados pela Proteção Civil deixam a descoberto um paradoxo tão cómico quanto trágico: nas Terras de Trás-os-Montes, a maior causa dos incêndios de verão já não são os incendiários de perfil patológico nem as trovoadas secas. São os próprios trabalhos agrícolas e as limpezas mecânicas de terrenos. Lemos bem: o território arde, repetidamente, por causa da fúria cega de cumprir leis de limpeza aplicadas sob o fantasma de coimas violentas. É a consagração do "limpou-se o doente, morreu o paciente".

É preciso colocar, de uma vez por todas, os pontos nos is e as culpas nos cartórios. Este desastre ecológico e humano tem responsáveis diretos com morada fiscal nos gabinetes do Campo Pequeno, no imponente Campus XXI: o Ministério do Ambiente e da Energia e as secretarias de Estado que tutelam as florestas. Há décadas que estes decisores políticos escolheram ignorar o maior especialista que o país já teve nesta matéria: Gonçalo Ribeiro Telles.

A Manta da Terra: A Natureza Não Pede Orçamento

O mestre cansou-se de repetir que a "limpeza total das florestas é um mito" perigoso, provavelmente inventado por quem acha que o leite nasce nos pacotes de tetrabrik. Ribeiro Telles tentou ensinar aos sucessivos governos que o mato, os arbustos e a folhagem em decomposição cumprem funções vitais na nossa matriz mediterrânica: servem como uma esponja natural para armazenar a água da chuva no subsolo e, ao apodrecerem lentamente, agem como o adubo orgânico que fertiliza a terra de forma gratuita. Ou seja, a natureza faz o trabalho de borla, mas o ministério prefere pagar para destruí-lo.

Quando o Estado emite decretos cegos e obriga um idoso de uma aldeia isolada de Bragança, Chaves ou Vinhais a acelerar uma motorroçadora sob um sol de 40 graus na cabeça, o que está a fazer não é prevenção. É um atentado biológico à mão armada. O embate inevitável de uma lâmina de aço numa fraga transmontana gera a faísca que dita a desgraça. E mesmo quando a máquina não incendeia o restolho na hora, cumpre o plano destrutivo dos gabinetes: raspa o solo até ao mineral, destrói a "manta" de que falava o pastor e deixa a terra num autêntico escaldão solar. Sem matéria orgânica para segurar a humidade, as chuvas de outono escorrem pela rocha fora sem nunca se infiltrarem, transformando Trás-os-Montes num pavio gigante à espera do próximo fósforo estival.

Menos Burocracia, Mais Sabedoria Rural

Substituímos o mosaico agrícola tradicional e o dente dócil e ecológico do gado — que geriam a biomassa com inteligência secular — pela violência mecânica ditada por burocratas que parecem confundir uma mata transmontana com os relvados aparados da Fundação Calouste Gulbenkian. Tratamos o mato como se fosse lixo de vão de escada, esquecendo que ele é a única barreira que nos separa de virarmos um deserto.

Bô! Se o Ministério do Ambiente continuar a desenhar políticas florestais assentes no terror da caça à multa e na esterilização dos solos, vai continuar a dar com as ventas num sedeiro a cada verão que passa. É tempo de parar de combater a biologia da nossa terra. A burocracia de Lisboa precisa, urgentemente, de largar os manuais de Powerpoint, reler Ribeiro Telles e, acima de tudo, aprender a ouvir os pastores que ainda sabem ler o chão onde põem os pés. Se continuarmos a arrancar a manta à terra para a manter "limpa", não nos queixemos de passar o resto da vida a lamber as cinzas.

Ⓒ Teresa do Amparo Ferreira, 25-09-2026 
Escritora e Poeta.



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