O Café do ti Casca, a Minerália e os Dados Reais do Lítio
Quero começar esta crónica com uma proposta editorial ao Diretor do Diário de Trás-os-Montes. Sugiro que se abra um espaço regular de opinião ao ti Casca, proprietário do conhecido café da nossa terra. Imagino-o a assinar textos brilhantes sobre as sublimes qualidades da sua vitela assada, garantindo ao leitor que ali tudo é confecionado com os produtos caseiros da sua olga e com os animais criados ao ar livre pela tia Francelina. O ti Casca jura que o seu balcão é o verdadeiro motor do desenvolvimento local. Se o jornalismo moderno permite que qualquer um use o espaço de opinião pública para auto-promoção descarada, por que razão haveríamos de fechar as portas ao ti Casca?
A pergunta impõe-se após a leitura do recente artigo de Avelino Pinheiro, que elevou as Minas da Borralha a pilar do "futuro tecnológico da Europa". O leitor menos atento julgará tratar-se de uma análise macroeconómica isenta. Contudo, o autor esqueceu-se de incluir um detalhe de palmatória na sua assinatura: o facto de ser diretor da Minerália, a empresa privada que detém a concessão para explorar o tungsténio em Montalegre.
A diferença entre o ti Casca e o engenheiro Pinheiro é que o primeiro vende os seus rissóis às claras; o segundo recorre à engenharia social. Para quem não conhece o termo técnico, fazer engenharia social é, em termos simples, embrulhar um negócio privado numa narrativa bonita para fazer crer às pessoas que o produto é maravilhoso, manipulando-as para que o aceitem sem protestar. A omissão do cargo do autor não é um lapso; é precisamente esta tática deliberada: disfarçar os interesses de uma mina lucrativa com a bandeira da benemerência patriótica e do progresso europeu.
A Mentira dos Números: Portugal na Cauda dos Recursos
A engenharia social da Minerália adora inflacionar a nossa relevância geológica para justificar o sacrifício do interior. Mas contra factos não há argumentos, e contra dados estatísticos oficiais muito menos. Olhemos para os relatórios do prestigiado United States Geological Survey (USGS): nos recursos de lítio e minerais estratégicos na Europa, Portugal surge num modesto 6.º lugar, com apenas 130 mil toneladas. Estamos a milhas de distância da República Checa (1,3 milhões de toneladas), da Sérvia (1 milhão de toneladas) ou até de economias robustas como a França e a Espanha.
Se somos um ator secundário na reserva destes minerais, porque é que a propaganda corporativa insiste que o futuro da Europa depende do Barroso? A resposta é puramente económica: porque nos outros países europeus as exigências ambientais, a oposição jurídica e o custo de indemnização às comunidades travam estes projetos. Querem esventrar o subsolo transmontano porque acham que o nosso interior capitula mais facilmente ao canto da sereia do "progresso". Ao contrário do que Avelino Pinheiro apregoa, Portugal comporta-se aqui como um exportador primário bruto: nós destruímos a rocha, enviamos o concentrado mineral para ser refinado na Ásia ou na Europa Central, e ficamos com a paisagem lunar e o passivo ambiental.
A Revolta do Barroso: Resistência Cívica e Rejeição Municipal
Ao contrário do que a propaganda tenta fazer parecer, o projeto enfrenta uma contestação popular e institucional sem precedentes. As gentes da nossa terra recusam-se a ser figurantes nesta encenação. O Movimento Não às Minas – Montalegre tem liderado uma oposição firme, denunciando as manobras da Minerália ao criar um autoproclamado "Observatório Social" — uma mera tentativa de marketing para fabricar uma falsa aceitação na comunidade.
A rejeição está ancorada em ações duras: associações locais avançaram com ações judiciais contra a avaliação ambiental do projeto. Além disso, a própria Câmara Municipal de Montalegre desferiu um rude golpe na empresa ao emitir um parecer formal negativo à exploração na Borralha, sustentado num estudo independente que determinou impactos económicos e sociais profundamente preocupantes para o concelho.
O Risco Hídrico Ocultado e o Fantasma da EDM
Para justificar a lavra, o diretor da Minerália afirma que a mineração de hoje obedece a "exigências rigorosas". Esconde, todavia, o grave risco hídrico. O processamento de tungsténio requer volumes massivos de água e o uso de reagentes perigosos, gerando lamas que ameaçam as linhas de água locais da bacia do Cávado e albufeiras cruciais como a da Venda Nova. Na mina de San Finx, na Galiza, descargas semelhantes com metais pesados destruíram rios inteiros. Trocar a segurança da nossa água pelo lucro temporário de uma concessionária é um erro histórico.
Até porque o historial financeiro português prova que, quando as multinacionais partem, quem paga a fatura é o contribuinte através da Empresa de Desenvolvimento Mineiro (EDM). Nas últimas décadas, o Estado já gastou dezenas de milhões de euros públicos para limpar passivos ambientais e tratar águas ácidas de minas abandonadas — inclusive nas próprias concessões históricas da Borralha. O modelo proposto repete a velha máxima do capitalismo extrativo: privatizam-se os lucros e socializa-se a ruína ecológica.
Conclusão: Trás-os-Montes Não Se Deixa Enganar
O artigo de Avelino Pinheiro não é jornalismo; é um folheto comercial assinado sob o disfarce de opinião. Trás-os-Montes não é um armazém de pedra para alimentar indústrias estrangeiras. O Barroso possui uma economia sustentável assente no turismo de natureza e numa agropecuária de elite reconhecida como Património Agrícola Mundial da FAO.
O futuro da nossa terra constrói-se protegendo o que está à superfície: a água pura, a identidade local e a dignidade das comunidades. A opinião pública não está à venda. A engenharia social da Minerália não apagará os factos: ao menos no café do ti Casca sabemos sempre o que estamos a pagar; já na Borralha, a riqueza do subsolo privado corre o risco de ser a miséria do nosso futuro coletivo.
Ⓒ Teresa do Amparo Ferreira, 01-09-2026 Técnica Superior Especialista em Estatística (INE, I.P.), Escritora e Poeta.