Estrada Agrochão-Murçós: 50 anos de promessas por cumprir
Escrevi sobre este assunto em 2021. Voltei à carga em 2023. Estamos em 2026 e o cenário mantém-se inalterado: a estrada que deveria ligar a aldeia de Agrochão, em Vinhais, à vizinha Murçós, em Macedo de Cavaleiros, continua a ser uma miragem de terra batida. A pedido dos habitantes, que carregam o fardo de uma promessa arrastada há 50 anos, volto a pegar na caneta. Não por capricho, mas por profunda indignação perante meio século de um isolamento forçado que exige respostas urgentes.
A insustentável matemática do isolamento
Para quem não conhece a realidade do interior transmontano, a matemática deste esquecimento é tão simples quanto cruel. Agrochão e Murçós são localidades contíguas, separadas por uma curta distância de apenas 5 quilómetros de terra batida. Uma ligação alcatroada resolveria a vida de dezenas de pessoas em escassos minutos.
Em vez disso, a falta de concretização desta obra obriga os moradores a contornar o mapa pelas vias secundárias. Este bloqueio rodoviário ganha contornos dramáticos quando transformado em histórias de vida: há familiares que são forçados a percorrer cerca de 50 quilómetros (contabilizando a ida e a volta) apenas para visitarem os seus idosos institucionalizados no Lar de Agrochão. Uma distância absurda e penosa que separa famílias que estão, geograficamente, ao lado uma da outra.
O imposto invisível sobre quem resiste no interior
Fazer estas dezenas de quilómetros para comprar pão, abastecer o veículo, aceder a cuidados de saúde primários ou abraçar um familiar no lar é incompreensível. No atual contexto económico, com o custo de vida e os combustíveis a sobrecarregarem o orçamento das famílias, esta lacuna nas acessibilidades representa uma punição financeira para quem escolheu resistir e viver na sua terra natal.
Em Murçós não há mercearia nem posto de combustível. Em Agrochão, o comércio local beneficiaria fortemente com a vinda dos vizinhos. A sinergia económica é evidente, mas continua sem tradução prática no terreno. O alinhamento institucional e as "boas intenções" demonstradas pelas autarquias de Macedo de Cavaleiros e Vinhais em períodos anteriores revelaram-se insuficientes. O que as populações enfrentam, na prática, é um impasse crónico.
O grito da diáspora contra o abandono da terra
Esta injustiça territorial ressoa muito além das fronteiras de Trás-os-Montes. A nossa vasta comunidade de emigrantes — a diáspora que anseia pelo regresso, que apoia os seus idosos à distância e que investe as poupanças de uma vida inteira nas suas origens — assiste com profunda tristeza e revolta a este abandono programado. É doloroso para quem está longe ver as suas famílias separadas por meros 5 quilómetros de pó e lama.
Ano após ano, multiplicam-se os discursos públicos sobre a coesão territorial e o combate ao despovoamento. Contudo, a verdadeira coesão edifica-se na dignidade do quotidiano. Assegura-se garantindo que duas aldeias vizinhas se possam ligar sem que os seus habitantes sejam obrigados a desperdiçar tempo e recursos financeiros. Quando a gestão pública falha na mobilidade elementar, acelera-se o processo de despovoamento.
Meio século de espera sem fim à vista
As promessas feitas a Agrochão e Murçós já prescreveram há décadas e a paciência dos munícipes, residentes e emigrados, esgotou-se. As autarquias de Vinhais e de Macedo de Cavaleiros precisam de demonstrar a coragem política necessária para desbloquear este processo.
Estas populações não reivindicam uma obra faraónica; exigem apenas os 5 quilómetros de alcatrão que lhes são devidos há meio século. É tempo de agir, de calendarizar a obra e de colocar as máquinas no terreno. O interior transmontano não pode continuar a esperar de braços cruzados.
Ⓒ Teresa do Amparo Ferreira, 27-08-2026
Imagem colhida no Google Maps: percurso entre Murçós e Agrochão