Dizem-nos que o sacrifício de Trás-os-Montes é o preço inevitável da "Transição Verde". Dizem-nos, com a frieza dos burocratas, que sem o lítio de Montalegre e Boticas, ou sem o volfrâmio da Mina da Borralha, a Europa colapsa. Mentem. É uma falácia dourada. A ecologia sem respeito pela terra não é ecologia. É apenas o velho colonialismo disfarçado de verde.
Desmonte-se o primeiro facto: cerca de 90% do lítio explorado no mundo não vai salvar hospitais [FP Analytics AI & Minerals]. Não vai alimentar energias limpas [FP Analytics AI & Minerals]. Destina-se, sim, à indústria automóvel privada [FP Analytics AI & Minerals]. O lítio serve apenas para alimentar as baterias gigantescas de SUV elétricos privados, gerando lucros colossais à custa da obsolescência programada. O objetivo nunca foi salvar o planeta; é manter intacto o vício do consumo desenfreado. Querem apenas trocar o cano de escape por crateras a céu aberto no coração de um Património Mundial Agrícola. Limpam-se as consciências nas avenidas de Paris ou de Berlim à custa da água contaminada e da terra destruída em aldeias como Covas do Barroso, Dornelas ou Romainho. Isto não é ecologia. É egoísmo geográfico. É crueldade
A injustiça torna-se obscena quando olhamos para o dinheiro. Enquanto as populações locais enfrentam a usurpação de baldios, o despejo e o fim da sua subsistência, adivinhe quem paga a destruição? Nós. Está lavrado em contrato: o Governo português aprovou um apoio estatal, a fundo perdido, de cerca de 110 milhões de euros à Savannah Resources [Savannah Resources Official PDF, Público, Expresso] — a multinacional que quer retalhar o concelho de Boticas com a extração massiva de lítio na "Mina do Barroso". Sim, leu bem. Financia-se o ecocídio com os impostos do próprio povo que eles esmagam. E mesmo ao lado, no concelho de Montalegre, a empresa Lusorecursos avança agressivamente com a concessão da "Mina do Romano", também para arrancar o lítio, fechando o cerco de destruição a este território sagrado.
Dizem que o lítio é o único caminho, mas a ciência e a indústria global já desmascararam essa mentira. Na China, os carros elétricos movidos a baterias de sódio — feitas à base de sal comum — já saíram dos laboratórios e estão a circular nas estradas, produzidos em massa por gigantes como a CATL. Na Alemanha, cientistas e consórcios industriais liderados pela Varta e pelo prestigiado Instituto Fraunhofer desenvolvem baterias de sódio em estado sólido, livres de lítio, mais baratas e seguras. Até marcas como a Volvo já se renderam à mudança. O lítio do amanhã não tem de ser arrancado às nossas entranhas; está no sal da terra e na reciclagem obrigatória do que já circula. Escavar as nossas serras agora não é futuro. É ganância criminosa e atraso civilizacional.
O perigo, contudo, esconde-se ainda mais fundo. Quem melhor nos avisa são os que já carregam o luto na pele. Antigos mineiros de urânio portugueses deslocaram-se a Boticas para deixar um alerta desesperado: debaixo do lítio que cobiçam, o subsolo guarda urânio e terras raras. Estes homens viram os seus camaradas de armas morrer com cancros fulminantes causados pela poeira invisível. Eles sabem o que vai acontecer quando as escavadoras da Savannah Resources começarem a rasgar as entranhas da terra nos três gigantescos cortes a céu aberto planeados para Covas do Barroso — as frentes de extração do Grandão, do Reservatório e de NOA —, ou quando a empresa Lusorecursos fizer o mesmo na Mina do Romano.
O horror estende-se a Salto, onde a empresa Minerália quer avançar com a expansão agressiva na histórica Mina da Borralha para extrair volfrâmio. Tudo serve o lucro corporativo: a Minerália extrai o volfrâmio, um metal ultra-denso cujo fim principal é alimentar diretamente a indústria bélica e de armamento, fabricando ogivas de mísseis e munições de guerra. E ao triturar milhões de toneladas de rocha antiga, vão desenterrar o urânio — cujo único destino é o complexo nuclear, servindo de combustível para reatores e para o fabrico de bombas atómicas. O urânio adormecido vai espalhar-se pelo vento na forma de poeira radioativa. As terras raras e os metais pesados infiltrar-se-ão na drenagem ácida, envenenando irremediavelmente os rios Covas, Rabagão e Cávado.
Essa água contaminada e essas poeiras venenosas não vão ficar isoladas na montanha. Entrarão diretamente na cadeia alimentar através de um processo silencioso de bioacumulação. O veneno invisível infiltrar-se-á nas pastagens. Será absorvido pelas raízes dos produtos hortícolas que brotam da terra transmontana. Contaminará o mel puro das colmeias locais. Passará para o gado, envenenando a carne barrosã certificada e o leite que alimenta crianças e adultos. Este cocktail tóxico vai viajar nos camiões de distribuição, espalhando-se tanto pelas mesas dos portugueses de norte a sul do país, como pelos mercados internacionais através da exportação. Ninguém estará a salvo. O prato que serve na sua mesa pode, amanhã, carregar o cancro da nossa destruição.
Se o automóvel elétrico precisa de assassinar o Barroso para se dizer verde, então ele já nasce manchado de sangue e injustiça. Defender o nosso chão não é um capricho local. É defender a nossa própria saúde. É defender a nossa sobrevivência.