Adelino Martins

Adelino Martins

Casamento da Paixão e fingimento - 3ª Parte

(continuação da 2ª parte, 3ª saída)

O meu marido – acabou por me confidenciar, sob sigilo absoluto, a sua diferença sexual, coisa que eu nem sequer sabia que existia –. Enfim que estava virado apenas para o sexo masculino, excluindo o feminino para qualquer relacionamento íntimo; não deixando d’estabelecer amizades desde que não fossem de cariz sexual como, aliás, estava sendo ali o nosso caso. Portanto que ele gostava de mim como uma irmã e que não me queria perder, pois que eu era a sua única tábua de salvação!...

Ora, perante eta situação, eu estava assim a ser usada para ele esconder a sua sina que provavelmente não a escolheu. Mas como é que eu iria ter um marido que nem sequer se sentia bem a dormir comigo na nossa cama de casal – que ele fizera questão de a encomendar mais larga do que o padrão habitual?! O que eu, depois, interpretei que ele não se sentia bem a tocarem-se os nossos corpos! Ali restaria o justificado divórcio que, nessa altura, era proibido falar nele! Seria uma escandaleira que, a ter lugar, nos arrumaria prá vida inteira! Com ajuda dos nossos pais, principalmente dos dele, compráramos uma casa na parte mais alta da vila, com uma vista prá serra d’Arga, pró Santuário natural no Monte do Calvário, pró Mar, passando pela maravilhosa praia que ali temos – cujo seu enorme areal se estende desde o Forte da Lagarteira à foz do rio Coura, com as águas deste a dividi-la, ajudando a um pequeno belo estuário. Víamos os pecadores a regressar do mar com a sua pesca. O Francisco, não deixava faltar nada em casa. Portanto, eu tinha então tudo para ser feliz – se não houvesse o grande senão – tinha um marido especial que só precisa de mim para fingir que era um homem normal. Eu reconhecia que a culpa não era dele. A natureza assim o quis. Mas consoante o tempo ia passando, o meu sofrimento ia aumentando e a ponto tal que não vislumbrava, à minha volta, saída para a falta d’amor real; enfim d’estar casada com um marido fingidamente normal! Mas então com o conservadorismo que lhe vina sendo reconhecido ao meu pai!!!?... As nossas famílias, que já antes se vinham dando bem, passaram a aproximar-se ainda mais. O meu pai, que começara a trabalhar como agente técnico de engenharia civil aos 19 anos, já vinha estudando muito antes do nosso namoro; vindo a licenciar-se em engenharia civil quando começámos ali o nosso desejado e aplaudido namoro por ambas as partes, tendo sido posteriormente convidado para sócio diretor duma grande empresa de construção civil, para a qual já tinha trabalhado como encarrado d’obras. Isto para justificar a situação socioeconómica dos meus pais, consideravelmente melhorada. Ele continuava com a sua forte personalidade, às vezes exagerada! Mas, como nos ensina o proverbio popular, quem nasce torto tarde ou nunca endireita!

Eu estava ali entre a espada e o paredão, com um problema que não era meu e pró qual não vislumbrava solução, sofrendo até às entranhas, por culpa daquelas cabeças de mente tacanhas! Hoje, só posso mesmo aplaudir as grandes mudanças neste aspeto! Que deixassem casar os homens uns com os outros! para que estes deixassem as mulheres em paz a seguir pelo normal em frente, que elas também a merecem com a felicidade daí inerente. Sim, porquanto um casamento para toda a vida só pode ser se às duas partes lhes fizer sentido e à minha em tempo algum o fazia. Este martírio durou-me cinco anos! Cinco anos casada com um Fingimento – para quem estava a contar ser pró resto da vida – não foi muito. Todavia pra mim, digamos, os dias eram semanas; estas meses e estes anos!!! Mas então quando lh’ouvia dizer ao meu pai que – entre marido e mulher não se devia mete a colher – até m’arrepiava toda!!!

O meu fingido marido, ia todos os dias pró seu escritório de solicitadoria em Viana, donde regressava sempre muito tarde e muito cansado, coisas do arco da velha que eu não entendia. Tínhamos uns vizinhos, o senhor Antoninho e a sua Mariquinhas, psicóloga de formação e doméstica de profissão, como eu. Ele trabalhava à noite na grande e única padaria d’então em V. P. d’Âncora, da qual era sócio-gerente. Vieram morar ao nosso lado. O Francisco trabalhava para a empresa dele e também pró casal. A dona Mariquinhas, uma bela senhora de 28 anos, elegante de lindas feições, tinha um cancro maligno, pelo que não pôde ter filhos, nem ser uma mulher completa a tempo inteiro…. O seu marido, de 30 anos, um homem bonito, seco, mas musculado, 1,72m/74kg, educado, que muito a amava e respeitava, nunca lhe tendo sido infiel, apesar de ela estar limitada para a intimidade entre eles. Com o qual casal dava gosto relacionamo-nos. Ele começava o seu trabalho às 20 h e regressava às 02.00. Eu, quando o via no seu quintal, aproveitava logo para ir pôr a roupa a secar e, claro, conversar com ele e a esposa. Já vinha progredindo a amizade entre os dois casais havia um tempo.

Eles perguntavam-me amiúde porque é que eu andava sempre tão entristada, até parecia que adivinhava! Por meu lado, dava-lhes sempre uma desculpa esfarrapada. No entanto, claro, ela era psicóloga!... Conversávamos, tanto fora como dentro dos respetivos lares. Um dia tirei a lâmpada central da sala e pus lá uma avariada e pedi à Marquinhas para dizer ao marido que, quando pudesse, me viesse ajudar a mudá-la. Este quando às 11.00 h se levantou, veio logo ter comigo. Eu já tinha a escada de três degraus debaixo do candeeiro e, com a lâmpada na mão, subi logo para o tampo, não dando assim ensejo que fosse ele a colocá-la, pois só que queria que m’amparasse se fosse preciso. Colocada a lâmpada, ao me virar, fingi desequilibrar-me e fui parar aos braços dele com os meus em posição d’abraçar o Antoninho por cima dos ombros e abracei-o, apertando-o contra mim, enquanto os dele me cingiam pela cintura, ficando assim pendurada nele. Senti-me tão bem tão bem, nos braços daquele homem que eu tanto o vinha por ali admirando, que não me apetecia soltar dele. Genoveva está tudo bem consigo? Desculpe Antoninho, isto é passageiro, respondi. Depois baixei com ele para cumprimentar a Mariquinhas, que me surpreendeu a preparar o jantar especial a contar comigo.

A Mariquinhas, que, como já se disse, era especializada em psicologia, costumava ler nas entrelinhas os problemas das pessoas. Pelos vistos, este almoço surpresa tanto para mim como para o Antoninho, já estava prevista havia uma semana, aproveitando o facto daquele dia ele não ir trabalhar, embora fosse uma 4ª feira, em que o Francisco fora em serviço ao Algarve com um cliente. O Antoninho começou a pôr a mesa, que foi rápido. Eram apenas três lugares. Enquanto eu estava junto à Mariquinhas a tentar ajudar, perguntando-lhe o devia fazer: – Genoveva queres-me ajudar? “Claro Mariquinhas!” respondi eu: – Então ide prá sala tu e o Antoninho, que quando estiver a mesa pronta, grito daqui para virdes. Fomos. Ela realmente era uma excelente pessoa, no entanto eu não estava bem a entender! Sentada lado-a-lado no sofá bem perto do Antoninho, este segurou a minha mão esquerda e disse: – Genoveva, creio que a Mariquinhas, sabe algo que nós não sabemos. Ato contínuo eu coloquei também a minha mão direita sobre a dele e apertei-lha com as duas. Senti ali uma emoção de repente que não me deixou dizer nada, encostei-me a ele e dei-lhe um beijo na face direita, largando-o de supetão: – Desculpe Antoninho, a Mariquinhas não merece nada disto. “Não se preocupe Genoveva isto não foi nada”. Entretanto a mariquinhas gritou da cozinha: – Ó pombos mansinhos, têm cinco minutos para fazer xixi, lavar as mãos e sentarem-se à mesa, meus queridinhos!... (Continuará a última parte)


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