Fiquei ali deveras radiante porque, durante toda a minha vida, pela primeira vez estava a sentir-me alguém dentro da minha timidez. Pelo que dali em diante, incentivados pela aprovação dos nossos pais, começámos o namoro que, sempre vigiado e fugidio, durou um ano e meio. O Francisco vinha-me visitar todos os fins de semana. Costumávamos sentar-nos num banco corrido ao fundo da varanda, onde conversávamos muito sobre nós, como ele iria expandir o seu escritório de solicitadoria. Durante todo o nosso namoro, o Francisco nunca tentou mais do que segurar a minha mão e dar-me um beijo, escancarado e a fugir, na minha face aquando das caminhadas pela rua marginal da vila. Embora adiantado pró tempo, um beijo na face e rápido nunca o escondeu dos transeuntes por quem nos cruzávamos. No entanto, não dou minha fé de que o tenha tentado fazer quando estávamos a sós!
A minha mãe, sempre que podia, aproveitava pra destacar as qualidades do Francisco. Dizia ela que ele era um homem bem bonito, elegante; um cavalheiro que tinha estudos, trabalhador; que vinha duma família prestigiada, sempre muito direita e sem nada que lh’apontar. Por isto, que eu não devia deixar escapulir-se esta excelente oportunidade! Com o qual eu ia concordando sinceramente. Estava apaixonada pelo sonho do casamento, de ter a minha própria casa, enfim o nosso cantinho.
Enquanto isto, o Francisco, segurando a minha mão esquerda, pediu-me pra casar com ele. Recordo-me bem, era um domingo. Ele, de resto como estava escrito nas entrelinhas da tradição, já tinha falado com o meu pai sem eu ter disso conhecimento, como acho que devia ter. Contudo, naqueles tempos eu não achava nada; aliás, nem poderia ser doutra maneira, mas então com aquele autoritarismo que a meu pai lh’era reconhecido!...
Um dia, lembro-me bem que era um sábado, o Francisco apareceu na nossa casa todo janota e em frente de mim meio ajoelhado, na mão com um lindo anel de noivado, disse-me ali então: – Genoveva, aceita receber este anel que com muito carinho e amor o comprei pra si, como compromisso do nosso futuro enlace matrimonial –? Aqui fiquei tão feliz, tão feliz que, confesso a toda a gente e mui sinceramente, chorei de tanta felicidade ali assim surgida de repente!!! Mas então ao ver toda a família ali aplaudindo-nos, que coincidia exatamente com o que eu mais queria, não consegui dizer uma única palavra. Apenas puxei o Francisco pra cima e, abraçando-o ansiosa e fraternalmente, o meu sim foi um beijo nos seus lábios meio fugidios. Finalmente – eu iria realizar aquele meu sonho de ser uma mulher feliz – apaixonadamente casada. Sim, sim, a futura Dona Genoveva!!!
Nos preparativos do nosso casamento, durante cinco longos meses, provava vestidos de noiva. A minha mãe acompanhava-me sempre, sempre com o que ela julgava serem os seus melhores conselhos pra mim. Até que finalmente encomendámos o vestido numa localidade na vizinha Galiza. De magas compridas, colarinhos bordados à mão. O véu, que já fora da minha avó paterna e estava religiosamente guardado numa caixa forrada de veludo como valor sentimento-familiar, foi um grande orgulho que sentia está-lo eu agora a usar. Escolhemos um lindo chapéu que, entretanto, iria ser bordado por mim e foi mesmo.
Quanto ao Francisco, na encantada qualidade de meu desejado noivo, sentia-o um pouco estranho! Quando estávamos sozinhos por algum tempo as suas mãos, quando lhas tomava por uns momentos, pareciam-me suadas, mas ele tratava logo d’arranjar maneira de as despegar das minhas. Também nas nossas conversas um pouco mais íntimas, ele parecia que estava com o seu pensamento noutra coisa muito longe de nós. Uma vez tentei dialogar com ele sobre a nossa Lua-de-mel e como iria ser aquela futura e tão desejada noite. Ao que ele parecia quedar algo preocupado, mas a minha falta d’experiência nesse sentido não me levava a pensar nada de mal, achando que ele era envergonhado a falar dessas coisas, pelo que passei a evitar dialogar com ele sobre tais assuntos. Mas um dia, aquando lhe relembrei que brevemente iriamos ser marido e mulher e viver e dormir juntos, ele restou vermelho como um pimento, mudando d’assunto rapidamente, dizendo que isso deveriam ser coisas para se conversar depois do nos casar, continuando doutras coisas a falar.
Entretanto, o nosso casamento foi marcado pró primeiro sábado de março de 1968. Pró qual pelo menos metade da vila estava convidada. A minha mãe tratou de tudo até ao último pormenor. O compromisso seria celebrado na própria igreja da vila e o respetivo banquete nos três grandes salões da Quinta do Cruzeiro. A ementa incluía vareadas e abundantes entradas, seguindo-se-lhes dois pratos de peixe pescado na véspera pelos pescadores de Vila-praia-d’ âncora, sequenciou-se-lhes o cabrito, o peru e a vitela, criados no campo e destinados àquele cardápio. Quanto a pudins, bolos e afins, encarregaram-se as mulheres da vila, que se combinaram prós variar. Portanto, diria que tudo estava a correr razoavelmente bem. O pior problema deve ter sido pró Francisco: Aquando do meio do banquete os convivas começaram a fazer barulho com os talheres a bater nos pratos, enquanto solicitavam que os noivos nos beijássemos. Eu levantei-me logo, mas estava a ver que o meu noivo se levantava com custo. Por fim o Francisco levantou-se beijou-me logo na testa, evitando assim de nos beijarmos mais intimamente como, aliás, não devia ficar mal ser ali o caso. Contudo, os comensais insistiram em que nos beijássemos também na boca. Levantámo-nos e ensaiamos ali de emergência um beijo técnico-artístico, que levou os convivas a gritar já chega, já chega, e terminámos, mas eu sempre néscia!... O padre Miguel, que nos conhecia desde pequeninos e acabara de celebrar o nosso casamento, onde fez questão de nos lembrar os valores e os deveres da família cristã, também estava ali sentado ao lado dos outros convidados. Na igreja, aquando nos dissera: – Agora, que já fostes declarados marido e mulher, já podeis dar um beijo como vos aprouver. O Francisco fingiu nada ouvir –. Contudo, foi na noite de núpcias que se começou a desmoronar tudo. Havíamos alugado um quarto numa pensão da própria vila, já que a lua-de-mel seria num sítio surpresa pra mim. Eu, apesar dos meus vinte anos, estava completamente às escuras. Ninguém m’elucidara, estudara pouco e nada sabia do que se iria passar! A minha mãe dera-me uns pequenos conselhos, como era ser mãe e esposa dedicada e obediente. Enfim, era um assunto que eu pensara muitas vezes como eu iria ser uma mulher completa?!
Na pensão da primeira noite, ele aproximou-se de mim dizendo: como está linda, e tocou no meu rosto. Eu fechei os olhos esperando que ele tomasse a iniciativa e me guiasse naquele momento que era novo pra mim. O Francisco ia-me tocando por cima da camisa de dormir, o seu corpo estava rígido, a sua testa transpirava. Assim tão longe e tão perto, haveria ali algo que não estaria a bater certo! Mas então, deitado ao meu lado, estava a tremer, com a descontrolada respiração, como se estivesse mui cansado! Aqui ele parou, sentou-se na beira da cama e disse com voz embargada: – Desculpe Genoveva, parece que não me estou a sentir bem, acho que estou nervoso demais, podemos tentar amanhã?! Eu fiquei confusa, magoada e desiludida, mas fingi que estava tudo bem comigo. Ele foi à casa de banha e demorou. Quando veio disse que foi tomar um comprimido prá dor de cabeça, mas que de qualquer maneira era melhor deixarmos pró dia seguinte. E assim passámos a nossa primeira noite de casados a dormir lado-a-lado sem que algo se passasse entre nós. Com o meu olhar fixado no teto, perguntava-me se seria isto possível, se seria mesmo assim!? E, com estes dados, passámos a primeiro noite marido e mulher junto-separados! No dia seguinte partimos prá lua-de-mel em Braga. O Francisco reservara uma suite num hotel de 4 estrelas com uma vista panorâmica prá Senhora do Sameiro, prós subúrbios e cume da cidade. Confesso que eu estava a gostar bastante, parecendo-me reanimada! O Francisco quedou no varandim a contemplar as luzes dos subúrbios e da cidade. Quando tentei combinar com ele para outros planos, parecia que estava noutro planeta muito distante do Terra. A suite era grande, linda, tudo veludado, com quadros de caçadas. No dia seguinte baixámos à sala de jantar pra tomar o jantar do meio-dia, já que o almoço nos fora servido na suite. Nessa noite o Francisco declarara-se definitivamente impotente, todavia prometendo que seria uma questão de tempo somente. Ao que eu, sem alternativa sequer imaginar, nem conhecimentos de como estas coisas se costumavam processar, acedi como esposa submissa e calada que me tinham ensinado. (Continuará a 2ª e última parte)