Adelino Martins

Adelino Martins

5º Capítulo (4ªsaida)

(Nota prévia:

Acho que é meu dever, elucidar quem isto vier a ler: Pensei contar esta história em duas crónicas. Todavia, aquando da segunda, vi que tinha de fazer a 3ª. Ao fazer a presente, concluí que precisa 90/100 páginas de livro para, em novela e em papel, muito melhor a contar, optando então por esta via. Assim, continuá-la-ei a contar aqui, mas também irá sair em livro. Ora, na verdade, já revi as crónicas aqui publicadas, melhorando-as, com esta finalidade. Já agora, aproveito para divulgar que, quando esta sair, já estará uma novela, com base real e observação direta do narrador, nas livrarias. Cujo narrador, que neste caso sou eu, é uma testemunha ocular e personagem secundária. Eis então o seu Título: “QUE MORAL? É PRECISO TER CORAGEM”! 203 páginas.  O livro já saiu a 4 de Dezembro e  a venda ao público vtem um custo de 12 euros).

A cozinha era grande. Tinha uma mesa retangular, em cujo seu total perímetro se podia, muito à-vontade, dez adultos assentar. A Mariquinhas sentou-se na cabeceira e desejou-nos bom apetite e sem cerimónias. Comigo á direita e o Antoninho á esquerda, começámos então pelas estradas. Pedaços de presunto da zona de Vinhais, camarão e uma santola grande esquartejada e a carapaça com recheio à vista, em que a Mariquinhas era especialista! Foram pescados, na véspera, por um dos pescadores da nossa Vila Praia d’Âncora. Sequenciados pelo prato principal: Um arroz de cabidela, com um frangalhote de oito meses, criado no quintal deles – que estava simplesmente uma delícia – acompanhado por um vinho verde branco da vinha do Manuel Casimiro, no lugar de Sermonde e da freguesia de Portuzelo – concelho de Viana. Enfim, uma pinga merecedora de se lhe tirar o chapéu!

Almoçámos tranquilamente, enquanto fomos conversando informalmente sem inclusão de nenhum tema particularmente relevante. Passada uma hora e tal, a Mariquinhas recebeu um telefonema, que depois disse que era um caso especial. Virou-se então para o Antoninho, dizendo-lhe que o Salvador e a Elizabete, estavam a precisar d’apoio psicológico, continuou a dizer que tinha d’ir a Ponte de Lima e que ia demorar bastante com eles. Pediu-me desculpa e, fazendo questão de que ficássemos à nossa plena vontade, meteu-se no carro e lá seguiu ela.

Pelas 10.00 h, a Elizabete, telefonara-lhe, mas a Mariquinhas disse-lhe que estava ocupada e pediu-lhe que voltasse a ligar às 15.30, o qual ali se verificou. A Elizabete, que fora sua colega no liceu, era uma das suas melhores amigas, mas ali estava completamente por fora de tudo. Assim, pelos vistos, a Mariquinhas, só nos queria ali proporcionar ficar sozinhos e completamente à nossa vontade; por isso, ela fez logo questão d’adiantar que ia com a intenção de se demorar.

Depois, no sofá da sala, o Antoninho, segurando a minha mão esquerda, disse que lhe parecia que a sua Marquinhas, descobrira alguma coisa a meu

respeito que ele ainda não sabia. Segurei a outra mão dele, apertei-lha e, levando-me os olhos ao chão, quedei ali estremecida! imóvel! muda e quão entristecida! O Antoninho, abraçou-me, aconchegou-me contra ele e, como era seu timbre, acalmando-me carinhosamente, pediu-me que desabafasse com ele nem que só fosse para o tratar mal, que da sua boca em tempo algum sairia alguma coisa a meu desfavor, que era um homem que muito se queria destacar do normal…. Confesso sinceramente que senti uma emoção tão grande, tão grande, que só queria que ele m’abraçasse e sentir aqueles braços a cingir-me! aquela boca a beijar-me!

Então, com a minha voz trémula e meio embargada, disse-lhe: Ainda estou como nasci, sem ter a honra de ser virgem; e isto para uma mulher casada, há um ano e meio, é uma coisa muito pesada!!! Porém que o que mais me completaria era desejar, sentir-me desejada, amar, ter filhos, enfim ser amada e ser feliz! Aqui, ele fitou-me e, muito sério por um ligeiro momento, possivelmente estupefacto d’admiração, notando-se bem que muito lhe custava a isto entender….

Eu quero ser mãe, Antoninho, quero ter filhos e ser feliz! pois já não consigo suportar este fardo d’estar casada com um Fingimento – uma pura inutilidade – apenas e tão simplesmente para agradar à sociedade! Aqui o Antoninho, acalmou-me e aconchegou-me novamente contra ele, enquanto ia afirmando que muito queria e se punha no meu lugar, pois que estava em condição parecida com a minha, dizendo-me que a Mariquinhas – que ele muito amava – não podia ter filhos nem ocupar o seu lugar na intimidade normalmente, mas que isso não invalidava que ele lhe fosse sempre fiel e a amasse desmesuradamente!

Tudo que ele ali afirmava era certificado pelos seus atos, que bem podiam falar per si. Pelo que lhe respondi logo que o entendia perfeitamente – uma vez que eu também tinha casado apaixonada completamente – todavia que durante um ano e meio tinha vindo a diminuir, cada vez mais, o meu interesse pelo meu fingido marido. Então abraçámo-nos mais uma vez, aconchegámo-nos e confortámo-nos um ao outro; considerando que cada um de nós tinha o seu próprio fadário! Assim, aqui fomos unanimes a pensar no respeito que a ambos merecia aquela boa Mariquinhas. Precisamente por isso e, outrossim, pelo respeito que nutríamos um pelo outro, ali não passámos daquilo mesmo.

Entretanto a Mariquinhas regressou. Eu aproveitava para me despedir deles e subir para a minha casa, quando olharam um para o outro e então logo a Mariquinhas, disse que, como não estava o Francisco, eu não tinha pressa nenhuma e que, por isso, podia muito bem ali continuar e, depois, com eles cear. E, assim, efetivamente ali aconteceu. Depois de cear a Mariquinhas disse que tinha um assunto para debater entre nós os quatro. Assim, que era realmente uma pena que não estivesse ali o Francisco, outrossim.

Dali a uns momentos e na continuação, ela disse que já tinha conseguido descobrir o nosso problema, não fosse ela psicóloga!... Contudo, que nunca o disse a ninguém, nem mesmo ao seu bom Antoninho; adiantando que o Francisco estava casado comigo para se esconder da sociedade, mas que ele não precisa de mulher nenhuma, mas sim de um homem! Claro que só podia concordar logo com ela, acrescentando-lhe que o Antoninho já sabia, pois que eu lho tinha contado enquanto ela fora apoiar os amigos deles. Aqui o antoninho, disse que ele também já andava um pouco desconfiado de que algo se passaria comigo e o Francisco.

Então ela disse que não sabia se o Toninho já me dissera, mas que ela tinha um cancro incurável e que os médicos foram unanimes no reservado prognóstico, achando que a sua esperança devida era muito curta, três, quatro e o máximo cinco anos; que lho haviam dito, a seu pedido, porque era psicóloga; que, portanto, ela não podia ser a mulher completa do homem que ela tanto amava e pelo qual vinha sendo tão amada; que, por conseguinte, o Toninho, tinha um problema, como eu! Embora por motivos completamente diferentes.


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