Adelino Martins

Adelino Martins

Casamento da Paixão e Fingimento!

(História real)

– Eu… ó minha mãe mais amada – começou a Genoveva, com a sua voz meio embargada – necessito muito de falar com a senhora sobre uma coisa que há tempos me traz deveras embaraçada! –. A mãe, que estava a pendurar a roupa lavada pra secar, deixou logo as molas e a roupa ficar, para se virar prá filha, e, já um pouco assustada – o que é que se passou contigo Vévinha, minha querida, que estás com cara tão empalecida?! – Mãe, eu ainda estou virgem!!! – Ela, a mãe, quedou imobilizada e entraram rapidamente ambas prá cozinha e junto ao lava-loiça a olhar para Genoveva, d’alto-a-baixo encostada ao aparador, parecendo não querer acreditar no que acabara d’ouvir pronunciar, ficando deveras chocada com tal inesperada nova, ali repetida pela Genoveva. Mas então a dona Umbelina, que a qualquer momento esperava e ansiava por ser avó!... – Como pode ser isso, Genoveva, minha querida?! Se estás casada e junta com o Francisco, há mais dum ano?!!! – Interrogava-se então ali a mãe, estupefacta d’admiração!

Meus queridos Leitores, hoje o nome dela é Dona Genoveva, tem 75 anos e quer compartilhar convosco, através de mim, uma das suas experiências mais complicadas e difíceis da sua vida. Uma história que guardou por longos anos, mas que chegou a um ponto tal em que agora, quiçá mais pedagogicamente, sente vontade, mesmo ganas, de que seja contada. Versa sobre o seu primeiro casamento aquando dos seus bonitos vinte anos. Os nossos atentos Leitores perguntar-nos-iam se porventura o pudessem aqui fazer: “Dona Genoveva, como é que o seu marido, durante um longo ano a dormir consigo, não lhe conseguiu retirar a sua preciosidade que tinha guardada direitinha pra ele-mesmo?!”

Pois bem, então foi assim: Em 1968, eu vivia numa pequena vila à beira-mar plantada. Vila Praia d’Âncora se chamava, do concelho de Caminha e do distrito Viana, onde todas as pessoas se conheciam e, mesmo não se conhecendo, sentiam-se no dever ou mesmo obrigação de se cumprimentar umas às outras; cujos usos e costumes, a esse tempo, também eram por ali sagrados e, às vezes, bem duros! A nossa casa, como todas as restantes da rua, era de pedra da zona encimada de telha vermelha. Tínhamos um pedaço de terreno, que ficava nos fundos das casas, onde a minha mãe plantava algumas hortaliças e semeava outras coisas. Tínhamos um quintal onde criávamos galinhas, coelhos e, às vezes, um porco, tudo para nosso consumo. Enfim, levávamos uma vida pobre, sim, mas condigna outrossim. O meu pai, o senhor António Barreiros, que era tio do conhecido cantor-entretiver, Quim Barreiros, um homem rijo quanto bastasse; um homem daqueles que laboravam de sol-a-sol. Ele trabalhava, por ali e por outros algures, como encarregado d’obras na construção civil, havia tirado um curso técnico nesta área. Costumava ajudar a minha mãe, depois do seu horário laboral e principalmente aos fins de semana, no cultivo dum campo que possuíamos. Ele ainda era dos que pensavam que as mulheres tinham de casar cedo e serem as esposas exemplares. Tinha as mãos calejadas, o rosto marcado pelo sol e as aragens do mar, uma personalidade de tal maneira vincada que raro admitia contrariedade. Assim, para ele, o destino das filhas era estudar apenas o mínimo necessário; aprender cedo os trabalhos domésticos, casar virgens e serem as necessárias mães reprodutoras prá continuação da espécie humana. A minha, a dona Umbelina, era ali uma pobre coitadinha que, sempre muito submissa, nunca questionou o que quer que fosse! Casou-se aos 17 anos, gerou quatro filhos, três homens e uma mulher, em que eu era a mais velha de todos. Ela passava os seus dias a cozinhar, a lavar as roupas, a passar a ferro, a arrumar a casa, a cuidar de nós todos, das galinhas, coelhos e até dum porco, como já referi. Era uma mulher deveras bonita, doce, todavia sempre daquelas caladinhas que, tal como aprendera desde pequenina, as opiniões dos maridos eram sentenças de juízes nas barras dos tribunais! Enquanto eu, bom eu, era apenas e tão somente uma rapariguinha sonhadora, que bordava qualquer coisa, mesmo enxovais, desde os meus 14 anos em que supunha o dia do meu casamento como sendo o mais importante de toda a minha existência. Passava tardes na máquina de costura da minha mãe, a fazer croché, a bordar toalhas de mesa, lençóis e fronhas. Enfim, contava e até sonhava com um marido compreensível e amigo quanto bondasse toda a minha imaginária felicidade; uma casinha nossa, filhos a correr por todos os lados e eu a pregar educadamente com eles, a ensiná-los. Enfim, a querer desviar-me um pouquinho da severa tradição, e o resto.

A nossa vila, que era dividida longitudinalmente pela linha férrea, por essas alturas tinha duas ruas. A rua mais central e, paralelamente, a marginal, com os pisos em paralelos, o resto eram ruelas, com os chãos à antiga e tradicional calçada à portuguesa – a contrastar com aquelas que ainda eram por ali em terra batida. Na principal rua estabeleceu-se todo o comércio, onde ficava a igreja, os grandes armazéns dos Afonsinhos, a farmácia, a padaria, a escola e a junta de freguesia. Pelas noites, a juventude reunia-se na praça do cruzeiro prás tradicionais cavaqueiras. Porém no concernente às raparigas, essas, estavam sempre sobre vigilância dos respetivos pais, ou então de quem eles delegassem essa importante tarefa! Era um sítio em que todos nos conhecíamos e donde qualquer novidade, mesmo insignificante que ela fosse, voava mais depressa do que as rajadas do vento das costumeiras nortadas, pois mesmo coisas simples eram casos pra semas e às vezes meses! A referida rua marginal, com uma enorme vista pró mar, com uma bela praia e restaurantes no lado oposto, era muito especial. Ainda não havia aquele portinho d’abrigo prós barcos dos pescadores que hoje ali existe junto ao forte.

Foi a partir dali que travei conhecimento com o Francisco, tinha então ele 25 anos, solicitador, moreno, elegante; que vinha duma família respeitada na região. Sempre muito bem-vestido, um pouco calado, com ar d’intelectual. Usava, quase sempre, camisas brancas sempre impecáveis, calças feitas por medida no alfaiate da família, sempre bem passadas a ferro; sapatos, castanhos ou pretos, sempre bem engraxados e, até, com um certo brilho! A sua família tinha uma das vivendas mais interessantes da vila. Ali uma duplex ajardinada na frente e com uma portada em madeira trabalhada. O pai dele, o senhor Afonso Vairão, era comerciante dono de três lojas na região, uma ali mesmo, outra em Caminha e a terceira em Ponte-de-Lima, esta hoje capital da gastronomia em Portugal. A mãe, a dona Antonieta, era uma senhora interessante, bonita, alta, elegante, que costumava participar nas atividades culturais da vila, nomeadamente das coisas da igreja. A senhora tinha, talvez por isso, considerável influência nas comunidades locais que, por sua vez, a reciprocavam com consideração e estima.

O Francisco, assistia às missas na mesma igreja que a nossa família. Pelo que todos os domingos lá estava ele, no mesmo banco da segunda fila, sempre só, ostentando um livro religioso na mão. Durante os atos solenes eu sentia aquele seu mirar-me, mas quando me virava pró ver, ele desvia rapidamente de mim o seu fixo olhar, fingido estar concentrado apenas no que o padre Miguel dizia. Entretanto, o meu pai depressa se foi apercebendo que ele me fitava, aparentemente, duma maneira interessada durante os cultos. Pelo que, na primeira oportunidade que teve, fez logo questão de nos apresentar formalmente. O que veio acontecer depois duma missa num domingo. Lembro-me bem daquele pretérito dia, eu usava um fato de saia e casaco azul-escuro que a minha mãe me fizera à minha medida e ao meu gosto. – Francisco – disse o meu pai, surgido ali do meu lado esquerdo, com aquela autoridade que lhe era particularmente reconhecida e respeitada – esta é a minha filha Genoveva, a mais velha de quatro…. Genoveva, este é o Francisco, filho do senhor Afonso Vairão, meu grande amigo de longos então –. O Francisco, mandou a mão direita ao chapéu e, alçando-o, fez-me uma vénia e disse – sinto muito gosto, Senhorinha Genoveva! A senhorita tem muito bom feitio e é muito bonita, com encantados modos, só espero que nos tornemos bons amigos, pois eu já a tenho vindo a observar, tanto dentro como fora da igreja, mas estava com algumas dúvidas de m’aproximar da Senhorinha, receando não ser bem recebido e, como sabe, nesta pequena vila, sobretudo no Cruzeiro, por tudo e por nada se corta na casaca. (Continua na próxima tiragem)



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