Se com teus trinta e seis anos apenas, já nos deixas tamanho legado cultural; que faria se fosses como seria normal – que bem o merecias – sem tristezas nem penas. Sou teu fã! Ainda hoje os teus poemas estão invariavelmente atualizados e nunca mortos e jamais enterrados! Foram os teus, hoje são os nossos lemas. As tuas mágoas, incertezas, teu Amor; tua glória que sempre guardámos com o teu/nosso grandioso esplendor. Estou a escrever-te esta carta com muita raiva – pela tua curta estadia que herdámos – e quero que toda a nossa gente o saiba.
No dia que seria de festejar, feliz, sem guerras e com íntimos, o teu feliz aniversário, estavam eles a carpir o teu fadário, benzendo-te o corpo para a terra o dar. Seria o destino, sei lá! sabe-o quem? No coração daquele inverno nasceste, nos corações dos poetas não morreste. Os bons poetas, esses, nunca morrem! Um apagão deixou-me à luz desta vela. Ontem passei a noite a sonhar contigo: Estavas numa das jovens mulheres mais espertas; não espancavas ninguém, eras só uma Flor Bela a declamar sonetos de sentido e rimas certas! Hoje mui te quero a dormir comigo e quero que o saibam todos os poetas; e quero que saibam todas as mulheres o impulso que para a frente lhes deste e que, consciente, nesses então o fizeste. Sabe, Flor Bela querida, que já não são pau só para colheres! Elas sabem que os teus contos, os teus sonetos, a tua poesia – hão de sobreviver a muitos cem anos – porquanto são tão veros quanto humanos e têm o cheiro das flores com a maresia. Pelo grande avanço da tecnologia, acabo aqui mesmo agora de saber aquilo que realmente ainda desconhecia, sobre aquela tua inesperada partida. Notícia que menos queria receber – tal é o vão deixado pela tua curta vida.
Flor Bela Espanca, nossa poetiza destemida, se não nasceste quando quiseste, dona de ti, foste como tu assim o quiseste. Sinto partires tão cedo, tão ferida! Se, porém, estavas ferida de morte, se calhar foi menos doloroso assim. Fiz uma novela, com base real, e tenho para mim uma visão deveras especial do teu porte: A personagem principal, vencida, dá ali a sua triste vida ao Criador, ficando deste lado num corpo órfão de vida! Já lá vão sessenta e seis enganos: Tinha o seu coração cheiinho d’Amor e, sozinhos, contava dezassete aninhos!
Flor Bela Lobo, poetiza de longos então, Flor Bela d’Alma da Conceição Espanca, tenho ‘pelas duas’ algo que me manca; mas teus poemas alimentam-me o coração, que nunca se sacia de os saborear!... Está sendo longa esta carta aberta e póstuma, que te estou a escrevinhar, demasiado longa pra um poeta a prosar. Aí vai numa mescla de sonetos prosados pra t’homenagear. (doutra maneira não ficariam bem neste lugar) Ciente d’ainda muito m’estar a faltar; apesar deste oitentão, isto é notório, portanto pouco ou nada vou saltar. Vai-me voando o prazo de validade, qualquer dia serei mais um velório, que gostaria de levar com ele todo o que resta da maldade e eliminar o simplório!...
Um forte e sentido abraço espiritual deste teu grande admirador especial, que levar-to-ei aí num próximo dia qualquer, pois, bem ou mal, já vou no caminho, quase triplicado, da tua estadia deste lado. Até lá, dedico-te o poema que vou transcrever do meu quinto e último livro de poesia:
“Quem é o Poema?” O Poema é um fato de bom pano sem gravata / humano sem ser humano sendo humano / que muito quer que por sério o tomem / que só quer ser ele próprio sem bravata! E quando se vê nas teclas mentirosas / vai aos arames como soa dizer-se; / vai longe desce e sobe a inscrever-se / nos anais de façanhas com espinhos e cravos e rosas! – O Poema diz o que pensa ao que vem / sem fazer maus juízos de valor / pois se bom poema é fala-nos d’Amor / e dos espantos da história também! – O Poema tem corpo e sangue e alma; / o justo Poema quer ser sempre ele mesmo; / quer ser baixo e alto e ninguém a esmo / sem deixar de ter a sua justa palma. – Mas armado pela poesia sem Amor / só montará num acanhado tema / que nunca chegaria a ser bom Poema / pois seria incapaz de lutar pela Dor. – E assim seria logo órfão de pai também; / pois não iria haver nenhum poeta / que quisesse adotar poema pateta / que não seria capaz de lh’arranjar mãe! – Eu como poeta nem sequer quero pensar / adotar um poema sem Amor de mote! / Não quero ser cúmplice dessa morte! … / E por isso também não vou arriscar. – Quero ser o pai de poemas com dote / Poemas que falem pouco e digam muito. / Só fecundarei poesia deste intuito / e por isso não vou ejacular à sorte!