Manuel Igreja

Manuel Igreja

Ventura e a Técnica da Colher de Trolha

André Ventura é fino … muito fino! Leu, ou alguém lhe ensinou que, para se atingir e se exercer o poder, mais importante do que o mérito, ou a via da sucessão, é a capacidade de construir uma imagem, de controlar a narrativa e de manipular a opinião massificada.

Seguiu o livro e deu-se ao trabalho. A dado momento conclui que, no seu partido de filiação, pouco mais teria a atingir ou que jamais teria a oportunidade de vir a ser figura cimeira e, assim sendo, não hesitou e fundou um novo partido à sua imagem e semelhança. Como um submarino de águas profundas, capaz de se desenvencilhar por entre o lodo, ergueu o periscópio para ver o lado dos ventos.

De imediato se apercebeu de que eles estavam e estão de feição para os discursos que acenam com os espantalhos dos medos e dos degredos. Sem pejo, assumiu o desejo de conquistar e de se elevar até ao patamar dos que efetivamente influenciam e contam, de ser o primeiro entre os primeiros … o chefe.

Em nada o demoveu o facto de tentar legalizar a sua agremiação política, na primeira tentativa, com assinaturas falsas. Passou sobre o assunto como raposa por vinha vindimada, como diz o povo, e sem estorvo avançou com nova tentativa de legalização nas regras da Constituição que não respeita. Pretendendo passar a ideia, absolutamente recetiva, de que estava farto das coisas e das loisas do sistema, de que até aí fez parte, veio a leilão dando o nome de “Chega” ao seu partido. Enfático, rápido, sonante e convincente.

Eficiente, disse ao que vinha e não enganou ninguém. Dizendo-se paladino da moral e da honradez, jurou qual cavaleiro andante, pronto para lutar contra monstros visíveis e invisíveis. Homem com muito traquejo no argumentar, no inventar e no tecer tapetes com linhas que se não cruzam, pessoa que faz da língua o que quer, como se fosse pau para toda a colher, percebe o que as turbas querem ouvir e fala com primor como quem jura pela alma da mãe, afirmando ter a solução para todos os males que nacionalmente nos atormentam e nos desiludem.

Naquilo que pode ser considerado como um fenómeno da política, pela rapidez da implementação, o seu discurso atraiu e convenceu. O seu partido cresceu e engrossou com aderentes e com votantes. Tornou-se disruptivo, mas nada evolutivo. Saberá disso, pois é inteligente, mas para si é esse o caminho a seguir em frente. Conhece a técnica dos demagogos e usa-a com mestria. Coloca-se no ponto em que sabe que a multidão está, alude aos males, indica os culpados e afirma-se detentor da redenção.

Ciente de que os tempos são de muita pressa, de pouca convicção e falhos de vontades para ser dar a devida atenção, não aprofunda os temas. Como um afincado trabalhador da construção civil, um digno trolha que atira colheradas de massa de cimento contra a parede a reparar ou erguer, com refinado jeito, como se tivesse as frases dentro dum balde imaginário, pega nelas e atira-as contra o muro em que se foca quem o ouve.

Não olha a meios. Segue a agenda em voga que semeia ódio e intolerância pelo “outro”, na narrativa dos “eles e nós”, e vai conseguindo. Abomina as horas de silêncio em que não pontua e contraria o efeito. Faz um ruído que, mesmo que sem sentido e substância, consegue fazer eco. Sabe fazer-se notícia atirando ao alvo concreto que mexe e remexe. Os seus adversários dão pulos nas cadeiras, não se controlam. Contudo, mais não conseguem do que tentar refutar com argumentos válidos que poucos conseguem ou querem ouvir. Por sua vez, os meios de comunicação social fazem o seu papel de noticiar o que decorre no palco de que a política é feita, procurando pontuar na guerra das audiências.

Enrolados nos palavreados os que diretamente têm a função e o dever de lhe desmontar os gestos, quando atira frases ao ar com a técnica da colher de trolha, não lhe exigiram ainda que, logo de seguida, use a talocha para alisar e completar o serviço de forma enriquecedora e concreta.

Ganha um doce quem fizer com que ele diga qual a solução que tem para cada problema que indica, jurando que tem o remédio. Consegue distinção, com medalha no peito, quem lhe disser que ele não é o mítico mascarilha, o Zorro da banda desenhada, o justiceiro que, montado no seu cavalo negro, acaba com os maus e fica com a bela mulher que ama e por quem muito lutou.



Partilhar:

+ Crónicas

O Douro no Divã

Um Irmão

Os Estreitos

A Escola

Os Bolos Podres

Ir ao Cinema

O Presidente Improvável

Em Pantanas

O Civismo

A Desventura de Ventura