Manuel Igreja

Manuel Igreja

Oupa ! Douro Património da Humanidade

Entre as algumas e muito importantes coisas, ou atitudes, que ainda distinguem os seres humanos dos outros seres animados a quem cabe entre eles coabitar, está a faculdade de projeção para o mundo que fica muito para lá dos meros e básicos instintos de sobreviver.

Conseguimos sair dos limites do material que espartilha, elevamo-nos até ao infinito dos conceitos e do reconhecimento, unimo-nos em torno de símbolos unitariamente comuns, construímos, usufruímos, recebemos e distribuímos. Deste conjunto de competências, e não só, resultou que no dia 14 de dezembro do Ano da Graça de 2001, o Alto Douro Vinhateiro fosse reconhecido pela UNESCO, como Património da Humanidade.

Isto, não somente porque é uma região muito bela, mas essencialmente porque, a soberba obra que é, resultou e resulta do ajuizado facto de ser uma paisagem viva e evolutiva, circunstância e condição que se podem referir como muito raras. Foi dia de festa na aldeia que teima em ser periférica, metida que anda nos seus afazeres do granjeiro nas margens do rio de mel, e nas encostas dos montes bordados com linha feita de folhas de videiras plantadas em solos de xisto e de terra fabricada com fragas esmigalhadas.

Pensou-se então que a honra recebida, seria como que uma ajuda de braços no erguer para cima dos ombros fortes, os pesados cestos vindimos que urge acartar até aos lagares. Iludiram-se muitos, aprimoraram se para o festejo alguns, nunca acreditaram outros tantos e desinteressaram-se muitos mais, num contexto em que não existe absoluta razão.

Um quarto de século após o anúncio e a condição, podemos de todo em todo fazer o balanço possível e visível, que nos mostra que o fiel da balança pende para o lado da escala positiva. Não, não terá ainda situar-se fixo no ponto ideal, mas pode ir-se deslocando para a proximidade que é dinâmica e solta. Os que pensaram e pensam, os que mandaram e os que mandam, não tiveram ainda o cuidado de pensar nos que sendo os agentes principais, que como é óbvio, são os cuidadores dos vinhedos, para verificar se tinham e se têm as condicionantes no granjeio essenciais para que se não alterem os preceitos fundadores do enobrecimento e do galardão.

Com este, fez-se o mais fácil. Anunciou-se, esperou-se, mas não se lapidou a joia colocada na lapela, valiosa de tal maneira que possibilita a criação de vantagens e mesmo de riqueza que circundam, mas não abundam como é desejável e absolutamente possível. Neste outono quase inverno do nosso descontentamento, mais de dois séculos e meio, depois da demarcação e da regulamentação que fez do Douro Vinhateiro coisa única e digna de espanto quase universal, ainda falta cumprir o desiderato que a todos permita sentir que vale a pena continuar a fazer obra, a lutar e a estar na vida à volta das vides.

Os nossos antepassados que fizeram do vinho uma nada estranha forma de vida, sempre souberam que cuidar dos bens ao luar, não é coisa para quem se verga e não sabe resistir. Quantas vezes se não deram a fazer contas, porque a alma lhes dizia que os néctares feitos filhos, estavam acima do trivial, mesmo quando a este urge o essencial.

Por isso buscavam incentivo e forças a nascer em cada “OUPA” vindo com a voz nascida nas entranhas do ser para efeito nos homens que nunca foram meninos, pois ser “rapaz dos cestos” não é ser criança. Felizmente, agora não é bem assim. No entanto, a força em todos e de todos, é imprescindível para que o que eleva, não baixe.

Oupa! Douro Património da Humanidade.



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