Teresa A. Ferreira

Teresa A. Ferreira

O Volfrâmio de Borla e a Ética Editorial

Uma reflexão necessária sobre o conflito de interesses que ameaça a independência da imprensa regional e a insistência promocional em torno do projeto mineiro no Barroso.

O Espelho de Volfrâmio e a Fragilidade do Púlpito

O espaço de opinião de um periódico regional constitui um património intangível dos seus leitores; um reduto de debate cívico e de confronto de ideias que se presume imune a amarras ou agendas. Quando este foro nobre passa a ser consecutivamente ocupado para servir de balcão de promoção a interesses corporativos privados, a liberdade de expressão não está a ser exercida na sua plenitude. Está, pelo contrário, a ser instrumentalizada para fins alheios à matriz jornalística.

A jogada ensaiada da distração

Recentemente, fomos confrontados neste portal com um exercício de prosa que importa analisar. Recorrendo a uma tática de distração que convoca a paixão nacional pelo futebol e as vicissitudes da Seleção Nacional, o autor logrou, num golpe de retórica, aterrar na apologia da Mina da Borralha e da sua recente classificação europeia. O cronista assina na qualidade de geólogo e diretor do projeto. Omitiu-se, todavia, a nota mais relevante para o escrutínio do leitor: a sua condição de quadro diretivo da concessionária, a empresa Minerália, cuja atividade legítima visa, naturalmente, o lucro e a viabilização dos seus interesses comerciais.

Esta constitui a quarta intervenção que segue idêntico figurino. O padrão discursivo repete-se com uma cadência que desfigura a essência da crónica de opinião: altera-se o pretexto do parágrafo inicial — seja a sociologia do desporto ou a geopolítica —, mas o destino final é invariavelmente o panegírico da entidade patronal. Transmutar um espaço de reflexão isenta num folhetim de relações públicas em episódios não consubstancia pluralismo. Representa, sim, uma ocupação editorial que confunde o debate de ideias com a veiculação de mensagens corporativas que deveriam estar confinadas ao espaço publicitário.

Os dividendos e a lama factual

Colar a extração de tungsténio em Montalegre a um suposto "golo nacional" pertence ao domínio da ficção económica. Pretende-se criar a ilusão de que os dividendos de uma operação mineira privada se transmutam em benefício direto para as contas das gentes transmontanas. Sabemos que não é assim. O que permanece no território são as marcas físicas e ambientais da exploração; a mais-valia financeira viaja para outras latitudes jurídicas.

Esta celebração retórica oblitera, pela quarta vez, a realidade factual do terreno. Discorre-se com solenidade sobre a autonomia estratégica europeia, mas silencia-se o facto — amplamente documentado e incontroverso — de que, ainda nesta fase preliminar de sondagens, ocorreu o colapso estrutural numa bacia de retenção de efluentes de perfuração e a perda de integridade da geomembrana no Barroso. Se o rigor técnico manifesta debilidades na contenção de resíduos químicos na fase embrionária, que garantias de salvaguarda restam para a bacia hidrográfica do Cávado? O silêncio sobre a evidência empírica é o que desmascara a natureza promocional do texto.

A falsa moeda do pluralismo

Invoca-se na praça pública, com uma bonomia que confunde os conceitos, que esta reincidência publicitária se abriga sob a capa do pluralismo democrático e da ausência de censura. Chega-se ao extremo conceptual de sugerir que a defesa desinteressada do território, sem qualquer ganho material, equivale a "fazer propaganda às próprias opiniões". O argumento claudica perante a ética mais elementar. A democracia consagra o direito ao pensamento livre; não valida o direito de uma corporação infiltrar a sua estratégia de comunicação nas páginas editoriais, usufruindo gratuitamente do alcance de um órgão digital para evitar os custos da publicidade formal. Há uma fronteira deontológica intransponível entre quem escreve por imperativo de consciência e quem o faz por inerência de funções laborais.

A complacência com que a direção deste jornal tem assistido a este fenómeno suscita uma interrogação legítima sobre a vulnerabilidade da nossa linha editorial. Quando um portal com este historial abdica de exibir o cartão vermelho deontológico perante um evidente conflito de interesses, somos forçados a indagar se a fragilidade institucional da imprensa regional se deve a uma errada interpretação do conceito de tolerância, ou se reflete as pressões invisíveis de um lóbi industrial que procura a legitimação social a qualquer preço. A capitulação ética não pode ser disfarçada de generosidade democrática.

O dever do rosto limpo

Colaboro com este diário há seis anos. Exerço a minha atividade profissional e remunerada no setor público, publico a minha obra literária, e nunca permiti que uma única linha deste espaço servisse para autopromoção ou para apelar ao consumo do meu trabalho. Faço-o por brio, por disciplina intelectual e por absoluto respeito pelo leitor que nos honra com a sua atenção no ecrã.

O Barroso e Trás-os-Montes não carecem de claques corporativas disfarçadas de cronistas, nem de uma moderação editorial que falha perante a conveniência económica. Se a Minerália deseja promover o seu plano de negócios ou gerir crises reputacionais, as páginas de anúncios comerciais estão disponíveis mediante a devida contrapartida. Nas páginas de opinião, a primazia pertence ao pensamento livre, descomprometido e de rosto limpo. Esse não se aliena, não se repete à quarta dose, nem se verga aos interesses do patronato mineiro.

Quem olha do Alto da Corneta, em Salto, e contempla o Gerês e o vale da Borralha, percebe imediatamente que o Barroso não é uma folha de Excel para especulação mineira. É um património vivo, de rosto limpo, que nenhuma cortina de fumo ou publicidade de borla conseguirá branquear.


©Teresa do Amparo Ferreira, 10-10-2026
Escritora e Poeta.



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