Vão-nos faltando ambos. O tempo e o silêncio. O tempo, esse malandro com enorme substância, a toda a hora se faz sentir com o pó branco que nos derrama sobre o cabelo, sem se fazer sentir, e o silêncio, essa coisa preciosa que teima em soprar sons que só se ouvem bem cá dentro, bem no fundo, por entre as cortinas da alma que esvoaçam com o seu bater.
O tempo, que se nos vai acrescentado à medida que passa num ritmo que nem é bom pensar, porque cada dia a mais significa um dia a menos, dizem os cientistas que está sempre ali com as mesmas milimétricas medidas, mas, no entanto, uma pessoa sente que não será bem assim.
É inevitável a passagem inexorável do tempo, sentida de diferentes formas consoante as situações vividas. É como quando estamos a aguardar pela chegada de alguém muito cá do peito, onde horas parecem dias e os minutos, instantes que nunca mais acabam. É como quem está dentro de um elevador com gente desconhecida. Por outro lado, quando estamos onde muito queremos e gostamos, o tempo parece ir-se quem nem cavalo espantado e desabrido ausente de freio.
Nem toca no chão, pensamos nós na nossa ânsia pontuada com cada salto no ponteiro do relógio, sentido como martelada na cabeça desassossegada, perante a impotência de estancar o seu pular. A mim, quantas vezes me apetece colocar um ferro por entre a engrenagem cósmica para se ver quem manda. Coisas muito minhas e, por certo suas, que está agora neste ponto da leitura no seu cantinho do universo.
Resta-nos a consolação de saber que é com o seu passar que a gente vive mais e aprende sobre os contornos e os desenhos da vida, no processo que faz de nós o resultado daquilo que vamos sendo. Por isso, gosto que o tempo passe, curioso por ver até onde ele me leva, somente querendo que ele acabe comigo a ser jovem e a contar muitas folhas no calendário que inventamos para o medir.
Não fora o seu escoar-se por entre os ralos que nos cabem, bem poderia dizer que o silêncio é de ouro para irmos a ele que vai sendo tempo. Contudo, quando ele é feito no sussurro das palavras dos poetas, escritas na parede, na eternidade de umas horas, ele é de platina, porque nos sentimos inteiros e completos quando é dentro dele, e ele dentro de nós.
Acontece então a simbiose perfeita que nos permite expressar tudo aquilo que as palavras não dizem, num perfeito comunicar acontecido num breve lampejo através duma troca de olhos que não dura mais do que um ai, imensa de conteúdo e sublime de forma, visíveis exclusivamente por quem bem se quer. Não há vento algum que leve o que assim se diz.
Diziam os antigos que o tempo Deus no lo deu de graça para nosso uso e proveito, se calhar, observando-nos para testar a nossa mestria em lidar com ele. Diga quem saiba se dele fizemos ou fazemos bom uso, pois eu tenho muitas dúvidas, apesar de ir aprendendo a dar cada vez mais tempo ao tempo, tentando colocar cada coisa no seu devido lugar, segundo o meu entendimento exíguo acerca das manigâncias que resultam do estar vivo, e, espero, de se recomendar.
Quanto ao silêncio, sobre esse só sei que nada sei, como dizia um sábio filósofo quase da época em que os animais falavam, quando havia tempo de sobra para se pensar até que o cérebro ficasse rubro e a fumegar. No entanto, consigo saber dele e de mais o que ele permite. Não me incomoda, uma vez que sei que pousas também são música.
Por isso, lhe não fujo. Sei que ele é meu e seu e de quem o apanhar.