Manuel Igreja

Manuel Igreja

O reflexo de Pavlov e a Política

Ivan Pavlov, cientista russo do século XIX, premiado com o Nobel de Medicina em 1904, ficou célebre, entre outras coisas, por ter provado que há situações em que existem reações associadas a estímulos provocados por circunstâncias propícias.

Chegou a esta conclusão fazendo experiências, utilizando um cão como cobaia no tempo em que teve sorte, pois não corria o risco de ser acusado de provocar diabetes no bicho ou de o utilizar sem consentimento dado. Mas também não foi nada por aí além em termos de danos. Nem os houve sequer. Acho eu.

Pavlov, sempre que dava um doce ao cão, que se perdia por doçuras, tocava uma campainha. Ao ouvi-la, o Nero (chamo-lhe assim para homenagear um cão que em tempos tive) saliva-se todo. Acontece que, a partir de dado momento, o cientista fazia tocar a sineta e, mesmo sem o doce, acontecia, à mesma, o salivar no animal. Existia uma associação feita entre uma coisa e outra.

Pois bem, neste instante em que o leitor isto lê, talvez ainda não tenha percebido que raio de ideia ou de ligação existe entre o título supracitado e o que vou, a partir de agora, expressar, se para tal tiver engenho e arte, pois essa coisa de se colocarem letras umas atrás das outras, fazendo sentido, nem sempre é tarefa fácil.

Agora, e entrando no campo da política, direi que, a partir dos meados do século XIX, se forjaram essencialmente dois tipos de ideologias, não entrando em pormenores por aqui e agora não valer a pena. Tudo assentou na relação e na dinâmica entre quem vendia a força do trabalho para ganhar a vida e quem disponibilizava capital com o intuito de o fazer render. Como agora o sentimos e sabemos.

Ambos os campos se tinham como inimigos. Os mais à esquerda, como costumam identificar-se, acusavam os capitalistas de gente insana e sem compaixão, e os outros quase não viam os assalariados como dignos de consideração e merecedores de remuneração justa e capaz de lhes dar dignidade para viver.

Dando-se um salto no tempo, com a largura de cem anos, após a Segunda Guerra Mundial e mercê das negociações políticas que desenharam novos países no mapa, uns houve que se acomodaram e eram liderados pela então União Soviética e outros, pelos Estados Unidos da América, faróis alimentados a demoníaco enxofre, conforme o campo ideológico em que nascia a opinião acerca das coisas.

A partir do dealbar do século XXI, deram-se grandes modificações no contexto politicamente global, mas, em boa parte, as mentes ficaram cristalizadas. Os maus serão sempre péssimos e os bons serão sempre ótimos. Nem se coloca sequer qualquer análise das circunstâncias que, como é óbvio, mais do que nunca se alteram rápida e concretamente.

Por exemplo, em relação à criminosa invasão russa da Ucrânia, bastou e basta que a NATO, a aliança militar do Ocidente, tida como infame, esteja na barricada do lado de cá, do nosso, e logo os supostos herdeiros ideológicos do império dos amanhãs, que cantam, não são capazes de condenar, inequivocamente, o invasor, devido a reminiscências dos tempos que já foram.

No outro lado, por sua vez, basta que se aluda à ideologia contrária e, de imediato, se vislumbra o diabo chifrudo em todo o lado e a toda a hora e se apela para que se ascendam as fogueiras purificadoras e castigadoras das almas que pecam, entre muitas outras coisas, porque comem criancinhas ao pequeno-almoço.

Antes que se me acabe o espaço e porque o texto está com a medida certa, passo a aludir ao que se passa neste nosso Portugal, no que concerne à política diariamente perpetrada, onde existe um certo ator fino que nem o alho, ladino que nem uma raposo, que todos os dias, estrategicamente, se dedica a deitar para o ar estrondosas frases sem nexo e sem substância apenas para que se fale dele.

Sem que se perceba onde anda a lucidez de todos os outros, todos caem na esparrela, na armadilha sorrateiramente colocada. Reagem e tentam desmontar e debater aquilo que pelo anoitecer se esfuma, porque é lume que não tem por onde arder.

Não sou especialista nem fui doutorado nestas coisas em Coimbra, mas tenho para mim que toda esta gente age e reage por causa do reflexo de Pavlov que, sem darem por isso, os condiciona.

Estarei errado, mas é o que acho e o que vejo. Ou vejo mal? Já nem sei.



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