Manuel Igreja

Manuel Igreja

O Palácio Que Virou Chiqueiro

 Naquele reino, não muito distante e não há muito, muito tempo, havia um palácio habitado por um rei e uma princesa que se deleitavam a ver o mar e outras coisas bonitas que não faltavam naquelas terras. Nesse reino não muito distante, uns viviam bem, ainda que poucos, outros viviam mais ou menos, a maioria, e outros viviam mal, alguns menos que os em maior número.

Não se poderá dizer que era tudo florido e com passarinhos a cantar, mas, ao que se via por esse mundo de Deus afora, estava-se bem. Pode dizer-se que, apesar disso ser muito relativo, conforme o que cada um acha e sente, estar-se ou não satisfeito tem muito que se lhe diga.

Como em qualquer reino, também havia animais de várias espécies e, inclusivamente, havia alguns que, de tão espertos serem, só lhes faltava falar para serem humanos. Um suponhamos, claro.

Obviamente que, como noutras bandas, também havia humanos que, de tão poucochinho serem, alturas havia em que se aproximavam da linha de separação entre racionais e irracionais, mas isso faz parte de outro conto. Ou se calhar, não, quem sabe? É o que veremos mais à frente se fizerem a fineza de me acompanhar, indo pelas linhas que se escreverão a partir deste ponto em que nos encontramos.

Uma pessoa quando dá por ela, chega a não saber quais as teclas que atraem os dedos comandados pelo cérebro, e não faltam ocasiões em que se é vítima de diabruras. Veremos.

Continuando. Naquele reino havia entre os seres vivos, à semelhança do resto do mundo, uma espécie a que deram o nome de porcos. Existiram sempre em todo o lado, umas vezes em número escasso, outras em número muito alargado, e só se davam bem a focinhar na lama, alérgicos à limpeza física e mental por ser de sua natureza e por ser disso que lhes advinha a força e a garantia de vida.

Não havia diferenças substanciais entre eles. Mais parecia que eram feitos em moldes cristalizados, desenhados com formato muito simples e muito básico, assim desenhado por alguém com propósitos concretos e muito bem definidos, escondido algures na floresta negra, por se dar mal com a luz do dia e ser amante da penumbra, por ser mais fácil esconder as verdadeiras intenções, o fito concreto, que era tomar de assalto o palácio do rei.

A dado momento, e devido a certas circunstâncias próprias da falta de visão e muita burrice por parte de quem cirandava pelos corredores do palácio, a vara, como se tivesse um íman, começou a atrair e atenções e as adesões. Foi engrossando a olhos vistos e, num repente, no seu caminhar, chegaram às portas do palácio.

Só queriam comer bolotas, mas não lhes apetecia trepar aos sobreiros que se espalhavam pelos campos. Ladinos e sedentos, deitando a língua de fora e espumando da boca por verem, em cada canto, frutos reluzentes e apetecíveis, escolheram o modo mais fácil de alcançarem o desejado.

Criaram realidades paralelas, repetiam mentiras muitas vezes até parecerem verdades. Com muito topete davam o dito pelo não dito, tocavam a música que os habitantes queriam ouvir, juravam até à morte tudo e mais alguma coisa, utilizavam a muita lata que tinham para rezar, para prometer e para convencer, e, um dia… entraram palácio adentro e sentaram-se nos cadeirões de dignidade feitos.

Era algo que não conheciam, obviamente. Nunca tinham tomado chá e faltou-lhes a noção. Ajavardaram tudo. Eles, e mais uns alguns, que lhes eram parecidos, mas disfarçavam. O que deles se dizia rei nunca o foi por o não saber ser, e o palácio não tardou a virar um chiqueiro.

Coisas de outros tempos ou, se calhar, não.



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