Manuel Igreja

Manuel Igreja

O outono

O mundo está muito bem feito. É de mestre. Apesar de todas as suas imperfeições, cada vez mais notórias, por causa do paradoxo que nos mostra que continuando e acrescentando o saber, recuámos ou mantemo-nos no ponto de muito antigamente quando os nossos ancestrais descerem das árvores, a sua sincronia é absoluta.

Nada existe pela primeira vez. Tudo se renova e tudo se interliga. O infinitamente pequeno funciona e é de forma igual ao infinitamente grande. Dizemos que o sol todos os dias nasce, mas ele está sempre aí, a fazer contrapé com a lua, que se retira para depois voltar pela alva depois de surgir ao lusco-fusco, num bailado sem parar e de presença constante.

Com as árvores e tudo o mais que enfeita a natureza, acontece precisamente a mesma coisa, num ciclo concretizado desde o tempo sem medida, e até um quando que ninguém sabe. Nas próprias rochas que se nos afiguram como estáticas e imutáveis se não forem britadas, acontecem alterações em períodos de anos que se medem por milhões.

Cada uma é feita de cedimentos de milhares de coisas, coladas e solidificadas por ação de outros elementos com o efeito do tempo que passa sem ser visto, mas que é sentido desde que se olhe para ele mesmo que não seja com olhos de ver, pois é com o seu leve tocar que ele desenha tudo o que a vista alcança.

Foram muito sábios os primeiros homens que usufruindo do seu ócio, um luxo, olhando para o céu estrelado, concluíram que as estrelas no céu não são meras candeias acesas, e que cada astro se move em esquadria permanente e equilibrada de modo a universo não tombar e tudo estar no seu devido lugar.

A perfeição é tanta que girando o nosso planeta a uma velocidade de milhares de quilómetros por hora, nem eu, nem vossas senhorias se sentem tontos e com tudo a andar à roda. Nunca o vi a girar como um enorme pião, mas se quem sabe o diz, eu acredito, pois sou pessoa de boa-fé.

Nunca me debrucei diretamente sob o tema que é de grande complexidade e exige muito estudar e muito saber, mas também tenho para mim que é de esse rodopiar que resultam as estações do ano. O outono, o inverno, a primavera e o verão, cada uma com o seu encanto para todos os gostos e todas as coisas, ora tidas como mais saborosas, ora tidas como de menor agrado, conforme o momento e o espírito de uma pessoa.

São as chamadas estações da vida no caminho que vamos percorrendo querendo que o ponto de destino se vá afastando enquanto vamos fazemos isto e aquilo. É o caso deste escrito nado e criado numa delas. No outono, praticamente com o trem ainda a mover-se por estar acabadinho de chegar. A paisagem que é uma obra de arte perfeita, começa a travestir-se e a ganhar novas cores, encantando como é próprio quando pelas janelas da alma ela nos entra em todo o seu esplendor.

Quando o nosso ciclo do viver o maior desejo que podemos ter, é que nos seja dada a possibilidade de termos o nosso outonecer para que a viagem seja inteira. É então que começamos a olhar para dentro, procurando o amor para vencer o medo na noção de que um dia o envelhecimento nos toma nos braços.

O saber acumulado permite-nos o encanto dos dias vividos entre arestas, mas também entre rios de mel. Permite-nos saber que o melhor é vermos poesia em todo o lado, mesmo nas rosas que nos picam com os seus espinhos, sabendo que o mundo é a perfeição mais imperfeita.



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