Manuel Igreja

Manuel Igreja

O Doutor Balsemão

                                           

Há gente assim. Pessoas que se elevam, elevando enquanto arrastam e influenciam, no seu devir, toda ou quase toda a sociedade em que se inserem, como se fosse sua missão contribuir no alcançar do melhor possível, rumo à civilização que todos merecem.

Com eles, por via da sua ação, do seu jeito de influenciar, de aprender e de ensinar, só não se enriquece no saber quem não quer, quem é poucochinho por falta de estruturas mentais desbravadas que suportem o evoluir.

O Dr. Francisco Pinto Balsemão, quase acabadinho de morrer na hora em que se desenrola este escrito ainda a quente, foi uma dessas pessoas. Foi alguém que se agigantou sem se superar, porque ninguém é maior do que a sua estrutura em que se afirma, alicerçando e modificando a medida das coisas com que sonha e que concretiza.

Nascido em lençóis de cambraia fina, podia ter sido tudo o que lhe desse na real gana. Podia ter sido um afortunado e pueril dândi a quem mais não surgem desejos de esbanjar os recursos herdados, mas cedo lhe nasceu a noção de que lhe competia dar o ser melhor no que empreendesse. Soube assim que deixou de ser inconsequente rapaz que tinha a obrigação moral de deixar o mundo um pouco melhor.

Terá sido uma das suas missões. Encavalitado nos meios que lhe couberam em sorte e que soube aproveitar e potenciar, num objetivo obviamente pessoal, sem qualquer sombra de dúvida, soube levar a cabo até ao seu finar. Verdadeiro homem renascentista, que tudo vê e valoriza em redor, conseguiu ser um príncipe e uma cavaleiro que não se quedou perante moinhos de vento que nunca reconheceu como tal.

Seguro pelo arreata firme na sua mão, o ginete que cavalgou, galgou montes e vales, contornou obstáculos, viu antes, antecipou e fez melhor. Podia tê-lo conduzido pelos verdejantes campos do lazer, pelas vias da vida na boa-vai-ela, mas, corajosamente, seguiu pelas veredas dos desafios e da construção de coisas novas e de muito arrojo, ciente de que, neste mundo, vale quem faz diferente e melhor, e não quem diz que sabe mais.

Homem da pólis, no sentido clássico do termo, cidadão de primeira água, empenhou-se na política quando urgia que alguém se empenhasse porque os tempos eram de mudança; marcou e orientou, concretizou e ajudou a calcetar o caminho da democracia que leva ao palácio onde se pode viver um pouco melhor, independente da origem, da cor da pele e do estatuto alcançado ou a alcançar.

Cosmopolita visionário, homem dos jornais e da informação como deve ser, daquela que cumpre o seu papel de dar a conhecer e a questionar, fez nascer, ainda nos tempos cinzentos do Estado Novo, um jornal que continua a ser uma referência que dobrou o lápis infame da censura. Depois, já quando floria a democracia, soube ler nas estrelas e fundou uma estação de televisão que acrescentou e acrescenta riqueza ao quotidiano com o conteúdos que entram portas adentro de quem sintoniza os canais que nada retiram e tudo acrescentam. Abriu os cortinados do palácio escuro.

Foi um jornalista de corpo inteiro que conseguiu passar a paixão e o saber fazer bem a todos os que tiveram a oportunidade de com ele colaborar, como ficou patente nos depoimentos lidos e escritos por estes dias de desconsolo, advindo da sua partida de entre nós. Nunca tantos disseram quase o mesmo, mas de maneira tão diferente e tão completa.

Enquanto político, soube ser um dos pilares do regime democrático, soube utilizar a diplomacia para atingir os seus fins sem desrespeitar opiniões contrárias, soube escutar e soube tirar conclusões após formar a sua opinião também com a opinião dos outros. Essencialmente, soube levar a sua avante quando quase todos os outros iam noutro sentido.

Por exemplo, e no que mais respeita à região do Douro, foi em frente com a sua ideia acerca da abertura do canal de navegabilidade do rio que urgia abrir, não se deixando condicionar pela maioria que apelidou de megalómana a ideia de semelhante empreendimento.

Graças a isso, agora, na autoestrada feita sob a pele da água do rio, se vê um não parar de barcos cheios de turistas, de todos os cantos do mundo, que se deslumbram com o excesso da natureza, melhorado com o mourejar dos homens que ajardinam os patamares feitos vinhedos como que em louvor dos deuses do Olimpo. No rio, e perto dele, passeia um mar de gente que nos aproveita.

O Alto Douro, terra de rio, de vinho e de gente, deve-lhe, em boa parte, isso. Em circunstâncias que não vêm ao caso agora, há cerca de três anos, tive o privilégio de pessoalmente lhe dizer este preito que os durienses lhe devem e lhe fizeram no tempo devido.

Foi então que lhe ofereci o meu livro, Um Livro com Gente Dentro. Poucos dias depois, endereçou-me uma carta a agradecer, referindo que o texto seu preferido era “O Meu Tio Zé”, que dedico à memória do meu tio, amante de automóveis como ele, que, sempre que me levava de volta a casa, fazia um “pião” para me maravilhar.

Não sei se acredite piamente nisso, mas tenho para mim que, quando se conhecerem lá no céu, não descansarão enquanto não desencantarem uma nuvem para cada um a fim de fazerem umas corridas com um pião em cada volta, para se deleitarem e para nos mostrarem que nunca perderão o jeito para a brincadeira, pois isso de se estar vivo ou morto pouco monta.

Interessa são as recordações. Digo eu. Não sei.



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