Manuel Igreja

Manuel Igreja

O Concurso Tomate Coração de Boi

O tomate chamado “coração de boi”, devido à sua forma, é uma das muitas coisas que me deixam com “água na boca” como costuma dizer-se quando um produto nos encanta pelo olhar e nos regala pelo paladar.

Como disse, há outras, mas esta, também pelo seu formato que num imediato, transmite aconchego e dá vontade de se lhe dar um afago, é sublime. Até o seu nome me causa um leve estremecer de ternura por causa do animal que lhe em empresta o nome, pois tenho deliciosas memórias dos corpulentos bois que nos meus anos de moço ajudavam nos trabalhos da lavoura sempre com olhos ternos por maior que fosse o esforço.

Mas chegando-me ao rego, que é como quem diz, ao tema do título, que não está ali só para “inglês ver” e interessa desenvolver, esperemos que com engenho e arte que bastem para o que se pretende, pois isto de lavrar linhas em papel em branco e semear letras que alinhadas dão conteúdo às ideias nem sempre é fácil.

Pois bem. O Concurso Tomate Coração de Boi”, é uma daqueles eventos levados a efeito na nossa região, o Douro, que merecem consideração, participação, apoio e divulgação. No último fim-de-semana deste mês de agosto que quase nos estorricou com a canícula e com os incêndios malvados e criminosos, foi concretizada a sua décima edição, com todo o sucesso e muita galhardia.

Nem podia deixar se ser, pois, pelo que conheço, a denodada organização é competente e não deixa o brio por mãos alheias. A prova é que há quase uma dúzia de anos teve a ideia, teve a ousadia e se calhar, muita teimosia, para desenvolver algo novo e de muito valor. Algo pioneiro que revela que o Douro, terra de rio e de gente, pode e deve ir além das vinhas no mister de se granjearem solos.

O vinho será sempre o principal e mais valioso produto, mas não pode e nem deve ser o único e muito menos o último. Sabemos e sentimos que a tendência irreversível de se diminuir o seu consumo por causa dos novos hábitos que apelidam como quase mortais alguns dos gostos que dão mais sentido ao viver, levará por certo a que se procurem alternativas no agricultar, para que se mudando algumas coisa, tudo fique quase na mesma.

Poderemos estar no ressurgimento das hortas nos terrenos que nos envolvem a casa e nos suportam as raízes. Nos solos arados da região e nas suas estremas, pode e deve vir um tempo em que tomates, alfaces, nabos (dos verdadeiros) e nabiças, pululem, agradem e proporcionem proventos a quem cultiva e a quem granjeia, numa escala considerável e eficiente.

A iniciativa a que me refiro, é pioneira nos fazer e no saber. Penso inclusivamente que, pode e deve ser aproveitada no âmbito pedagógico junto dos mais novos e dos mais da cidade, que pensam que os legumes e as frutas nascem nas prateleiras dos supermercados por obra e graça das luzes que brilham na publicidade que nos trata como tolos sem nos dar bolos.

Obviamente que um tema isolado se esgota em si mesmo sem que deixe fundura para se repetir. Para além de mote, tem de haver estacas complementares que permitam que se segurem as ramificações. Em cada acontecimento deste género, as pessoas devem interagir, dialogar, ouvir, ensinar e aprender. Devem mostrar o que se fez e dizer o que se pretende ainda fazer, como foi o caso.

Cada um perante o outro e todos perante cada qual. Qualquer experiência singularmente tida, não passa de uma florzinha que logo morre. Daí a enorme importância da partilha dos gomos que nos cabem para nossa delícia.

Ao tomate coração de boi, não faltam. Experimente. Olhe, só não lhe dou este acabei de partir, porque não está à mão. Juro.



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