A sabedoria popular tem destas coisas. Numa simples e curta frase de meia dúzia de palavras alinhadas, ou nem tantas, espelha-se uma enorme sabedoria acerca de todo e qualquer assunto, ensinando-se mais um pouco a todos, durante todo o tempo, num perdurar sem acabar.
Não sair da cepa torta, eis um ditado, que nos chega da lonjura dos tempos, ouvido em toda a parte. Lembro-me dele desde sempre, num esforço constante de evitar que se aplique a mim e aos meus, incluindo nestes os meus amigos e qualquer pessoa que, na minha vida, se cruze com intenções de bem fazer e de bem querer.
Sempre ouvi dizer que não sair da cepa torta é condenação certa para quem não age e só reage, para quem não sabe a hora de fazer acontecer, para quem não se ergue porque não apetece, para quem se acomoda, porque se não incomoda, para quem não está muito certo do que é o viver, que é feito de muitos desacertos, enfim, para quem não quer aprender porque acha que sabe estreler e só pode ensinar.
Ao longo dos séculos, a cepa torta era como uma condenação sem apelo nem agravo, aplicada mal algumas pessoas abriram os olhos, acabadinhos de nascer. Os pobres, na sua maioria, que era imensa, já vinham com o destino traçado. Filho de pobre é pobre e neto de pobre continuará pobre. Em servidão instituída, ou em liberdade agrilhetada, o destino parecia inquestionável e inevitável.
No entanto, as coisas mudam. Atrás do tempo tempos vêm e outros tempos hão de vir, como se diz na canção. E aconteceu vai para coisa de dois séculos e meio quando, com a evolução da técnica aliada à evolução das ideias, um mundo novo começou a surgir por entre os canaviais dos ideais e das vontades, antecedidas dos sonhos a concretizar.
Nascer e morrer, sem sair do mesmo sítio, deixou de ser imperativo. Os anseios impeliram e as pessoas decidiram ir, deixando as verças na procura das luzes da cidade, inicial e frequentemente madrasta, à espera de ser requisitada e conquistada em cada degrau das escadas que se lançavam em direção ao limite com a forma de céu.
Em Portugal, como não podia deixar de ser, devido à periferia e à falta de sabedoria, o fenómeno deu-se mais tarde. Ali, pelos meados do século XVIII, o ouro no Brasil brilhou e encantou. Aos milhares, os portugueses foram-se a ele, penando e sofrendo o pão que o diabo amassou. Passaram pela situação horrenda de escravos brancos antes de terem algo de seu, mas saíram da cepa torta.
Dando um pulo por cima do relógio castigador, cujos ponteiros não param de tecer novelos da linha que nos prende, nos anos sessenta do século XX, foi grande a atafona de partir de qualquer jeito para a Europa para além dos Pirenéus, fugindo de condições de vida indignas na era da modernidade, levando-se unicamente um ror de saudades e de amargura. Grande mesmo era somente a esperança e a vontade de vencer, de querer sair da cepa torta recusada como destino.
Depois veio abril numa madrugada esperada, num dito dia inteiro e limpo. Parecia mais que certo o fim da cepa torta. Mas não foi. Nunca o será em definitivo, porque o querer e o acreditar, tendo de ser individual antes de ser coletivo, assume-se arredio e de difícil concretização harmoniosa com a soma das partes.
No país que temos, muitos há que não saem da cepa torta. Seja porque não a veem como defeituosa, seja porque lhe não ensinaram a sonhar a desejar e a fazer, seja porque as oportunidades lhes fogem da mão como manteiga em focinho de cão. Se o destino lhes não marca a hora, pelo menos não lhes melhora a montar a vida com espora nos pés e rédeas na mão.
Diria mesmo, e para me ir, que, no seu todo, Portugal está cada vez mais enlodado e enredado nos vinhedos de cepas tortas. Falam-nos nos amanhãs de brilho prometido, dizendo-nos que o nevoeiro é falso. No entretanto, mesmo sendo estruturantes, faltam-nos habitações porque uns poucos as arrebanham para ganharem muito. Os preços dos bens essenciais escaldam porque alguns ganham milhões sem rei nem roque, e vai faltando a educação e o civismo porque tendemos a usar o pé que está mais à mão.
Sair da cepa torta é preciso. Upa! Cortem-se as gavinhas num golpe de asa.