Manuel Igreja

Manuel Igreja

Homens Sem Lei

Não sei se é o seu caso, senhora ou senhor leitor, mas a mim, o título que me ocorreu para este texto ainda a escrever abordando alguns acontecimentos que correm neste tempo neste nosso desatinado mundo, faz com que me surjam imagens do inóspito Faroeste americano, na época dos índios e dos cowboys.

Nos meus anos de rapaz, deliciei-me a ler e a ver filmes de heróis empenhados na luta pelo bem, mais rápidos que a própria sombra a puxar o gatilho contra os maus que eram malvados até mais não poder ser. O ambiente quotidiano era tão duro que a vida de qualquer um, não valia mais do que uma moeda furada. Era ficção, mas a semelhança com a realidade, não era coincidência.

Entre uns e outros, tentavam mediar os nem sempre garbosos xerifes, cientes que não morreriam velhos porque o perigo era a sua profissão. A conquista era tida como essencial, e o povoamento do território impunha-se porque se sentia que não pode haver terra sem gente, quando há gente a desejar terrenos que sinta como seus.

Foi lá, no velho Oeste, mas antes já tinha sido noutras bandas e noutras épocas, e continua a ser em todo o lado. A ganância superando a ânsia de construir, de evoluir e de sustentar desde há longo tempo provoca injustiças, maldades e crueldades porque como lhe é próprio, para se alcançar o que se quer, faz-se mais mal que bem sem olhar a quem.

Coisas que são exclusivas dos seres humanos, que sendo biologicamente a mais bela obra da criação, dizemos nós, conseguem ser em simultâneo, a pior das imperfeições, porque matam por matar e fazem muitas e diversas coisas pelo mero prazer de fazer.

No entanto, no seu devir, foi também a única espécie que soube e conseguiu definir regras de conduta e leis orientadoras cimentadas na noção do que é certo e do que é errado, do que é recomendável e de se louvar e, obviamente, de se condenar dentro dos limites da ética e da vergonha.

Até ao dealbar do vigésimo sexto ano do século vinte e seis, no ponto em que se vislumbram os inícios da era em que com a suas varinhas de condão, as máquinas sem alma reinarão, esfumam-se a ética, a moral e a vergonha, num processo de recuo que lembra os séculos idos em que se impunha o direito pela força e não a força do direito.

Não que se esteja a fazer algo muito diferente, ou que exista algo de novo, no que respeita ao modo como homens e nações interagem no seu modo de operar e de conquistar. Porém, novidade indesejável, é o facto de pela primeira vez, ao mais alto nível das Instâncias do poder, se cultivar e se praticar desatinadamente a política do esbulho, parecendo que é porque apetece, e porque quem manda, se julga com o rei na barriga.

O país mais poderoso entre os poderosos, apesar de ainda novo de três séculos, mais coisa menos coisa, nascido da migração de gente pobre e terrivelmente aflita, talhada por circunstâncias quase infernais, está sob o comando de camafeus que acham que podem fazer tudo e que os outros não podem nada.

Sobra-lhes em desfaçatez, o que lhes falta em nível e em decência. Sabem das minas onde está disponível o ouro, e não hesitam. Vão-se a ele, dentro delas proferindo palavras enganadoras com tom convincente que quase convence. O líder inchando e sem pudor autoconvencido, afirma que se quer antecipar aos rivais, que nos últimos anos, viram antes e agiram primeiro.

Faz teatro, numa peça representada por loucos, no palco que é global porque o universo já não tem paredes. O pano ainda não desceu totalmente, mas metade da sala bate palmas, apesar do enredo ser de guerras e de morte longe do bairro e dos nossos.

Nas pradarias do nosso descontentamento, veem-se bandos de bandoleiros engravatados a rondar as manadas. Deambulam sabendo que os xerifes estão ou estão ausentes, ou não sabem dar-se ao respeito como alguém que também conta.

No cume, os coiotes e as hienas, uivam e orientam. Contentes, pensam que são na medida que marca, pois desvirtuam e desrespeitam o sagrado que afasta os bárbaros acabados de chegar para pontuar.

Os homens sem lei, galopam a toda a brida. Os cavalos selvagens vão com o freio nos dentes. Desabridos e destemperados. Veremos como termina o filme.



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