Manuel Igreja

Manuel Igreja

Atrás dos Tempos, Outros Tempos Hão de Vir

O ano da graça de dois mil e vinte seis, como se costuma dizer, ainda mal abre olhos, acabadinho de nascer, e já é para nos ver, tal como canta a canção que nos pode e deve embalar. Estamos todos contentes, mais não seja porque é um dos anos que teremos para viver, a correr bem, pois, como alguém disse: isto de se estar vivo ainda um dia vai acabar mal.

Viramos a última folha do calendário do mais recente ano que passou, por obra e graça do Papa Gregório XIII que, em 1582, instituiu esta forma de contar dos dias com que nos entendemos. Entre o muito que nos quer, almejamos que assim continue a ser, ao som do alegre chilrear dos passarinhos, pois essa coisa de se desejar o bem ainda não ocupa lugar - e, felizmente, ainda não paga imposto.

Como sempre, no último entardecer, antes do primeiro minuto do último dia do ano que se vai, sentimos um certo temor quanto aos meses ainda por vir. Mas, assim que chega o minuto zero, surge em nós um sentir esperançoso de contentamento, que nos permite olhar em frente e acreditar: não há bem que não acabe, nem mal que perdure para sempre.

Recuámos, tomámos balanço e seguimos em frente, tentando crer que, a cada curva, se segue uma imensa reta. Digo, não sei se é comum a vossas mercês, que tiram uns poucos minutos dos que lhes cabem em sorte para dedicarem às linhas que aqui traço, num tecer que mais se afigura um rendilhado, mas comigo assim sucede, e sucederá, se para tal me não faltar o tino, cuja medida não me apoquenta, por ter para mim que não vale a pena.

O raiar de cada Ano Novo põe-me um breve fixar no olhar, que tento evitar, mas não consigo sem sentir um pouco de preocupação; contudo, esforço-me para que logo passe, por achar que tudo se repete. Legítima e inconsciente maneira de me defender, quiçá, pois sinto que as coisas más do mundo persistem como se não houvesse remédio, enquanto as boas parecem esconder-se, murchando como flores bonitas num campo privado da abençoada chuva.

A insanidade parece campear, espalhando-se pelos habitantes desta esfera redonda que é o nosso planeta - sem esquinas nem esquadria, porque é redondo -, ainda que alguns tresloucados, convencidos da sua plena opinião de asno, que julgam valer mais do que a de qualquer cavalgadura que nos derruba, afirmem que ele é plano, como provam os areais que não terminam, de tanta ser a areia dentro das suas cabeças.

Uma vez mais, em nosso redor, tudo parece estar no ponto de ebulição, temendo-se que as manzorras dos gananciosos, arredados do bem-fazer, continuem implacáveis a abrir os caminhos do mal, como lhes dá na real gana e para o seu imenso, mas insano proveito, tal como sempre foi, mas num contexto agora muito pior, e um desfecho que nos é absolutamente desconhecido.

Pelo nosso país, oásis desejado e usufruído por quem de longe nos vê e de perto de nós desfruta, o discurso, com o eco dos corredores do palácio do poder, fala-nos de maravilhas acontecidas e a acontecer, escamoteando realidades vividas e sentidas, como se mais valessem promessas ao vento do que realidades adivinhadas na tempestade perfeita que se desenha no cume da montanha, limitando a pradaria em que pasta o rebanho.

Sabemos que negros diagnósticos atraem raios e coriscos, provocando mais patinares do que avanços, mais pânico, que impede o agir claro, do que atitudes profícuas pautadas pela clarividência e pela calma que sustenta a eficiência. No entanto, nada há melhor do que as palavras certas, no momento adequado e na medida certa.

Por um lado, garantem-nos que tudo está bem e que não vale acabar mal. Sugerem-nos atitudes de muito lutar e de muito crer, de grande esforço e ambição pessoal que, na soma, se tornariam coletivos. Um discurso primário, dirigido a quem não distingue o que realmente importa daquilo que é apenas importante entre coisas de pouca importância – se é que me entendem.

Por fim, resta-nos saber que, como diz a canção: atrás dos tempos, vêm tempos, e outros tempos hão de vir. Obviamente, sempre melhores e para a frente, pois para trás mija a burra. Digo eu.



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