Ao longo da nossa vida, vamos calcetando o caminho que nos pertence percorrer com vivências e com experiências que nos vão moldando e nos vão fazendo ser aquilo que vamos sendo, até ao dia em que lhe encontramos a linha de chegada - a meta, com cujo cortar de fita nos vamos para lá das nuvens - onde ficamos guardados na memória de quem nos viu e connosco sentiu.
Percorrendo vales e contornando montanhas, vamos fazendo coisas e loisas, vamos aprendendo e ensinando, vamos errando e acertando, vamos procurando, vamos achando, vamos perdendo e vamos ganhando num saber fazer que se vai acrescentando, numa procura, que não cessa, daquilo que supomos ser o absoluto que se afasta cada vez que nos surge quase ao alcance da mão.
Não sabemos porque o não podemos saber, porque, se alcançado fosse todo o absoluto, logo deixaria de o ser, se é que alguma vez o foi. Seria catastrófico se cada um de nós, por vezes, alcançasse, ou mesmo se alguma vez sentisse que o alcançou, pois nada mais restava do que a inércia daí resultante. Cada alcance seria um grão de areia metido na engrenagem que faz girar a roda em que o mundo gira.
Por isso criamos, convenientemente, o relativo que saudavelmente aplicamos a cada instante, a cada coisa, a cada circunstância, cientes de que somente assim conseguimos colmatar a perda, minorar a dor, traçar e alcançar novos objetivos e adquirir outras e novas maneiras de aceitação e mesmo de rejeição.
Poderemos ainda não conseguir relativizar as crenças por ainda sermos crianças no evoluir da criação, mas um dia lá chegaremos. No entretanto, vamo-nos matando por causa da fé no nosso absoluto que temos como único e verdadeiro, para mal dos nossos pecados, sem remição, porque somente provocam destruição, dor e morte, chão fértil de ganância suportada das gavinhas da desumanidade.
Fora isso, relativizamos para fazer medrar a esperança. Por exemplo, quando alguém de nós se encontra em estado de coma, um mero mover dum dedo do enfermo faz repicar os sinos da nossa alma, porque o péssimo, quase supremo, ganha então contornos do momentâneo quase absoluto, que é o sobreviver, no quotidiano em que somos abrigados a ser, a aceitar, a rejeitar, a viver e a deixar viver.
Por isso, tudo é relativo. Até o tempo, que nos habituamos a ver e a pensar como absoluto, diz quem sabe, que é relativo porque não passa para todos da mesma maneira. O genial Albert Einstein, com uma singela fórmula matemática, quase atingindo o absoluto, ensinou-nos que, dependendo da velocidade e da massa, é possível fazer com que o seu passar seja diferente.
Entre duas pessoas, que estejam no mesmo local, se uma delas viajar durante algum tempo com a velocidade de um raio de luz, quando ali se reencontrarem, haverá uma grande diferença de idades entre si. Não esmiuçando, o tempo no seu passar não influencia da mesma maneira em circunstâncias diferentes e, apesar de ser um grande mestre, não deixa ensinamentos iguais em cada qual por mais parecidas que sejam as condições físicas, dado que o saber que fica se acomoda, antes de mais, no ninho feito com os enlaces cívicos e morais.
No ser e no estar vamos olhando e vamos sentindo e pressentindo. Sem querer, vamo-nos rodeando de coisas a que acrescentamos, com o olhar feito de saber, um maior ou um menor valor. Com civilização teremos cada coisa para nós com a importância que cada um lhes dá. Superiormente, poderemos conseguir que o núcleo que somos seja rodeado de um tudo em que, nada sendo absoluto, tudo é relativo porque contém as humanas emoções.
Na desenfreada demanda pelo absoluto, que marca a modernidade que nos cabe, urge, pois, que o nosso estar vivo não seja eterno, porque é uma chama, mas seja tolerantemente infinito enquanto dura, como escreveu o poeta acerca do desejavelmente absoluto que se chama amor.