Manuel Igreja

Manuel Igreja

O Vírus e os amanhãs que cantam

Confinados. Andamos para aqui confinados, prenderem-nos em casa, impedem-nos os passeios aqui ou ali, roubaram-nos os convívios e coisas que tais, mas não vale a pena, não é necessário, podemos agora concluir.

Segundo a lógica e a postura dos lutadores pela classe operária exaurida, explorada e roubada, o que conta é a intenção. Parece que em face dos grandes desígnios o vírus se encolhe e escolhe. Arreda-se e não afeta, não se introduz e não se espalha.

Digo isto, por exemplo porque a Intersindical obreira e vezeira nas grandes manifestações achou por bem celebrar o Dia do Trabalhador com ajuntamento de pessoas arreganhadamente lutadoras por garantia de direitos sem esquecer, digo eu por simpatia, os deveres.

Ordenou e colocou os intervenientes em quadrados de distanciamento, dando de barato a proximidade inevitável no antes e no após, no ir e no vir, a pé de carro ou de camioneta. Mas tudo vale a pena, pensarão quando se quer bradar aos céus e se quer dar nota do que se exige com justiça efetiva ou suposta.

Agora, o partido político que lhe anda na ilharga, ou vice-versa, o vetusto, mas lutador PCP, não quer abrir mão de levar a termo a anual e celebrada Festa do Avante, onde não faltam cantorias e braços no ar em significado arrebatador de ideias, de convicções e de pretensões. Na festa que é fixe, se juntam anualmente multidões e dela resulta uma apetecível receita já desde a era dos cifrões.

Num tempo em que se proíbem e evitam grupos de mais de dez pessoas, questionados e confrontados, os organizadores não vêm mal, não topam qualquer problema na inevitável aglomeração. Correm-se riscos de contágio noutros eventos em que estejam mais que uma mão cheia de pessoas, mas nestes seus, não. Obviamente. Dizem.

Não lhes estou dentro da cabeça, nem lhes leio os pensamentos, mas tenho para mim que no seu ajuizar, no seu supor, o vírus que nos atormenta hoje em dia, não se atreve a interromper eventos de tão altos desígnios em que radiam os amanhãs que cantam para honra e glória vá lá saber-se de quem, uma vez que a História não correu de feição em semelhantes alvoradas.

Não se trata aqui de ideologia para cá ou para lá, nem de elevação ou mesmo nobreza na luta, pois nisso cada um pensa o que pensa. Trata-se tão somente de bom-senso. Trata-se de ler por antecipação as ondas na água após queda de pedra no lago. Resume-se a ter-se noção de que havendo momentos imensamente profundos que nos foram roubados e que havendo beijos e abraços adiados, não faz qualquer sentido semelhante e mera hipótese.

Não sabe ler o que não está escrito quem se propõe tais propósitos. No entanto deixo uma nota. Se houver Festa, depois da outra em que uma senhora teve o dia sua epifania que foi pífia, também quero noutros sítios e estou a lembrar-me da minha aldeia.

Sucede que se festa lá o São Pedro. Quando era moço espigadote, ouvi dizer que em ano em que não haja celebração do padroeiro, ele de zangado fechará as portas do céu durante uns tempos e ninguém entrará. Mas pior, é “menino” com o devido respeito, para dizer ao mafarrico para também fechar as portas do inferno. Acreditem.

Vão ser bonito, vai. Morre uma pessoa, e de depois anda por aí pelo ar sem norte e sem poiso. O que vale é que não há aviões a voar. Há coisas que são piores que o vírus. A sério.

Depois não digam que eu não avisei.


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