Baptista Jerónimo

Baptista Jerónimo

O idoso merece mais e melhor.

Não adaptar o idoso ao sistema — adaptar o sistema ao idoso

Há momentos do ano que nos convidam naturalmente à reflexão. A quadra pascal, com a sua mensagem de renovação, dignidade e esperança, é um desses tempos, cristãos ou não. E talvez não haja tema mais urgente do que a forma como “tratamos” os nossos idosos, sobretudo na fase mais vulnerável da vida.

Portugal é hoje um dos países mais envelhecidos da Europa. Vivemos mais anos, o que é uma conquista civilizacional e do SNS, mas nem sempre vivemos melhor quando já não depende apenas da autonomia do idoso. O envelhecimento traz frequentemente consigo dependência, fragilidade, doenças crónicas e, não raras vezes o flagelo da solidão. É precisamente aqui que o sistema começa a falhar e onde é urgente atuar.

Os lares de idosos, apesar do papel fundamental que desempenham, continuam em muitos casos presos a um modelo excessivamente institucional, centrado na gestão e na rotina, mais do que na pessoa. Profissionais dedicados fazem o melhor que podem, muitas vezes em contextos de escassez de recursos, mas o modelo em si precisa de ser repensado. Porque cuidar não pode ser apenas garantir segurança, cuidados e alimentação, tem de também garantir dignidade, identidade e “ainda” sentido de vida.

Um lar não deve ser um lugar onde se espera, deve ser um lugar onde ainda se vive.

A verdade é simples e desconfortável: ainda tratamos demasiadas vezes o envelhecimento como um problema a gerir, e não como uma fase da vida a viver. Há outro caminho. E outros países já o começaram a trilhar.

Nos Países Baixos, surgiram modelos inovadores como as chamadas “aldeias geriátricas”, pequenas comunidades desenhadas para pessoas com demência ou elevada dependência, onde o ambiente replica uma vida normal: há ruas, cafés, pequenos comércios, jardins. Os profissionais não são apenas cuidadores, são parte de uma comunidade. O objetivo não é “guardar e fiscalizar” pessoas, mas permitir-lhes continuar a viver, com o máximo de autonomia e significado possível.

Na Austrália, Dinamarca ou Noruega, multiplicam-se soluções semelhantes: unidades mais pequenas, integradas na comunidade, com forte aposta na relação humana, no espaço exterior, na liberdade de movimentos e na personalização dos cuidados. Em muitos destes casos, os resultados são claros: menos medicação, menos ansiedade, mais bem-estar e uma qualidade de vida significativamente melhor.

Estes exemplos, entre outros, mostram-nos algo essencial: não é inevitável que o envelhecimento seja vivido em fim de linha. É possível construir modelos onde o cuidado e a liberdade coexistem, onde a proteção não anula a individualidade.

Portugal tem vindo a dar passos, mas ainda tímidos. Temos boas práticas, profissionais de excelência e instituições que inovam, mas falta uma visão estruturada e ambiciosa. Falta assumir, de forma clara, que os lares do futuro não podem ser apenas espaços de assistência, têm de ser verdadeiras comunidades.

Isto implica investimento e sobretudo mudança de paradigma:

 Apostar em unidades verdadeiramente humanizadas.

 Reforçar a formação centrada na pessoa.

 Abrir as instituições à comunidade (família, voluntariado).

 Integrar cuidados de saúde, sociais e emocionais.

 Colocar o idoso no centro das decisões

Porque envelhecer com dignidade não é um privilégio: é um direito.

Nesta Páscoa, tempo de renovação, talvez seja o momento indicado para repensarmos o compromisso coletivo que temos com os mais velhos. Aqueles que hoje estão nos lares foram, em tempos, quem construiu o país que somos. O modo como os tratamos define, em grande medida, quem somos enquanto sociedade.

Não adaptar o idoso ao sistema — adaptar o sistema ao idoso. Eis o princípio simples que pode fazer toda a diferença. E talvez esteja na hora de o transformar em prioridade nacional.

Olhar, cuidar e melhorar hoje este segmento é, na verdade, investir em cuidados continuados, dignidade humana e qualidade de vida: é trabalhar no nosso próprio futuro coletivo.

E há uma verdade que não podemos ignorar: ao cuidar deles, estamos a cuidar de nós próprios, do nosso futuro, da nossa dignidade, da sociedade que queremos ser.

Porque a forma como tratamos os mais velhos não é apenas um reflexo do presente — é um ensaio do nosso próprio futuro

Baptista Jerónimo, 07/04/26



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