Baptista Jerónimo

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Bragança não pode viver do mesmo

Parte I — O esgotamento do modelo atual

Fala-se de Bragança como um território de história, identidade e resistência — e com razão. O concelho e o distrito carregam um património cultural e humano singular, feito de comunidades enraizadas, paisagens únicas e de uma relação profunda com o território.

Mas essa riqueza convive hoje com um sentimento difícil de ignorar: o de um interior que vai perdendo centralidade, população e oportunidades, enquanto o litoral concentra investimento, emprego e decisão.

Este não é um fenómeno novo. A assimetria entre interior e litoral tem décadas. Mas o facto de ser antiga não a torna inevitável e muito menos uma fatalidade. Apenas demonstra que o conformismo e as respostas até agora encontradas foram insuficientes, ou mal orientadas, para inverter a tendência.

Durante anos alimentou-se a ideia de que o Instituto Politécnico de Bragança seria o motor decisivo de transformação regional. E é justo reconhecer o mérito: o IPB trouxe internacionalização, conhecimento, juventude e dinamismo.

Mas acreditar que, por si só, conseguiria inverter tendências estruturais tão profundas foi talvez uma expectativa excessiva. Sobretudo porque nunca existiu um verdadeiro ecossistema económico capaz de reter talento, gerar massa crítica e transformar conhecimento em desenvolvimento sustentável.

A pergunta que hoje se impõe é simples: quem pode mudar este rumo?

O Governo central dificilmente assumirá um papel verdadeiramente diferenciador. Não necessariamente por falta de vontade política, mas porque está condicionado por uma lógica de equilíbrio, equidade e igualdade territorial, por constrangimentos financeiros e administrativos e por uma cultura política excessivamente centralizada.

Privilegiar claramente um território implica, quase sempre, deixar outros para trás e isso raramente encontra espaço nos decisores políticos.

Resta, por isso, a capacidade de liderança local.

Mas é precisamente aqui que surge outro bloqueio. A política local vive demasiadas vezes presa ao calendário eleitoral. Isso gera prudência excessiva, projetos fragmentados e, pior ainda, uma lógica de concorrência entre municípios vizinhos que deveria ser de construir estratégias conjuntas.

Em vez de complementaridade, há concorrência..

Em vez de visão integrada, multiplicam-se iniciativas avulsas e recursos dispersos, quando deveriam traduzir-se em investimento estruturante.

Em vez de estratégia territorial, prevalece muitas vezes a lógica da obra isolada.

E, no entanto, a dimensão do desafio exige exatamente o contrário: visão de longo prazo, cooperação supramunicipal e capacidade de construir prioridades comuns.

Bragança, enquanto território, continua a possuir ativos que muitos outros perderam: recursos naturais, capacidade académica, identidade cultural forte, segurança, qualidade ambiental e uma posição geográfica que pode deixar de ser vista como periferia para passar a ser entendida como ponte ibérica.

O problema nunca foi a ausência de potencial. Foi, antes, mas a incapacidade de articular estrategicamente esse potencial.

Falta ambição?

A população tem mostrado precisamente o contrário. Continua disponível para projetos diferentes, novas ideias e iniciativas que devolvam perspetiva ao território. Esse é, por si só, um capital social e político raro.

Então, o que falta?

Falta diferenciação com propósito.

Não basta repetir, de forma genérica, que é necessário atrair investimento. É preciso escolher prioridades, assumir riscos e definir uma identidade económica e territorial clara.

Sem foco, não há escala.

Sem escala, não há impacto.

Bragança não pode querer ser tudo ao mesmo tempo. Precisa de ser reconhecida por aquilo que consegue fazer particularmente bem e de forma verdadeiramente diferenciadora.

Ainda há margem para inverter o ciclo? Sim. Mas essa margem não espera por milagres.

Exige liderança política que vá além do calendário eleitoral.

Exige conhecimento transformado em estratégia.

Exige cooperação entre municípios e rejeição da lógica de concorrência permanente.

Exige uma narrativa comum capaz de mobilizar instituições, empresas e cidadãos.

E, sobretudo, exige coragem para abandonar a lógica do “mais do mesmo” ainda que revestida de novas “nuances”.

Porque o verdadeiro risco não é falhar tentando algo diferente.

É continuar lentamente a definhar, insistindo exatamente no mesmo caminho.

A questão, agora, já não é saber se Bragança precisa de mudar. É perceber onde pode construir uma identidade própria. É essa reflexão que desenvolverei no próximo artigo.

(continua)

Baptista Jerónimo, 25/06/26



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