Baptista Jerónimo

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Uma reforma eleitoral que merece debate

A discussão sobre a reforma do sistema eleitoral português surge ciclicamente, mas raramente avança para além dos debates académicos ou das promessas ocasionais dos partidos. Não é difícil perceber porquê: os principais defensores do modelo atual tendem a ser precisamente os partidos que, alternadamente, conseguem alcançar o Governo ou uma representação significativa na Assembleia da República. Ainda assim, isso não deve impedir a reflexão sobre possíveis melhorias.

Ao longo dos anos, muito se tem debatido sobre o número de deputados, a distribuição dos mandatos pelos círculos eleitorais, a introdução de círculos uninominais ou mesmo, a limitação de mandatos para os eleitos. No plano autárquico, tem-se igualmente discutido a eleição direta do presidente da Assembleia Municipal, a facilitação da participação de cidadãos independentes e mecanismos que reforcem o escrutínio democrático e a governabilidade.

Também não têm faltado críticas ao facto de muitos votos em partidos de menor dimensão acabarem por não se traduzir em representação parlamentar, sobretudo nos círculos eleitorais menos populosos. Para alguns eleitores, essa situação reduz a perceção de utilidade do voto e pode contribuir para o afastamento da participação política, , fenómenos como a abstenção.

Entre as várias hipóteses discutidas, existe uma proposta menos referida, mas que merece atenção: manter os mandatos de quatro anos, mas realizar eleições legislativas de dois em dois anos para eleger metade dos deputados.

Este modelo, utilizado em diferentes formas por algumas democracias, permitiria uma renovação parcial do parlamento sem provocar uma substituição total dos seus membros.

Os potenciais benefícios são evidentes.

Em primeiro lugar, contribuiria para uma maior continuidade institucional. Parte dos deputados permaneceria em funções, assegurando a preservação da experiência adquirida, do conhecimento acumulado e do acompanhamento dos processos legislativos em curso.

Em segundo lugar, o sistema poderia aumentar a responsabilização política. Os cidadãos teriam oportunidade de avaliar mais frequentemente o desempenho dos partidos e dos governantes, sem terem de esperar quatro anos para expressar o seu descontentamento ou aprovação. Tal permitiria corrigir gradualmente o rumo político do país, evitando mudanças bruscas motivadas por momentos de forte emoção ou por circunstâncias conjunturais.

Outro benefício possível seria a redução da volatilidade política. Uma eleição isolada deixaria de ter a capacidade de alterar profundamente toda a composição parlamentar, favorecendo uma evolução mais gradual das maiorias e das políticas públicas.

Naturalmente, existem argumentos contrários que não devem ser ignorados. Um dos principais é o risco de instabilidade governativa. Num sistema parlamentar como o português, em que o Governo depende da confiança da Assembleia da República, uma renovação parcial pode alterar os equilíbrios políticos a meio da legislatura e dificultar a formação ou manutenção de maiorias estáveis.

Além disso, eleições mais frequentes poderiam conduzir a campanhas quase permanentes, desviando a atenção dos governantes das tarefas de governação.

Nenhuma reforma eleitoral é perfeita. Todas implicam vantagens, custos e escolhas sobre aquilo que se pretende privilegiar. A questão essencial é saber se queremos um sistema que valorize acima de tudo a estabilidade governativa ou se devemos procurar mecanismos que reforcem a continuidade institucional e a capacidade de escrutínio dos eleitos.

Independentemente da posição de cada um, esta é uma discussão legítima e necessária. Num tempo em que cresce o afastamento entre cidadãos e instituições políticas, talvez seja saudável voltar a questionar se as regras do jogo continuam a servir da melhor forma a democracia portuguesa.

Baptista Jerónimo, 13/06/26



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